Como estudar literatura: para ler antes de julgar

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Todo mundo tem opinião sobre literatura, mas pouca gente tem juízo crítico. Muitos leitores são bibliômanos: acumulam leituras sem ordem nem rigor, devoram tomos e mais tomos e continuam impermeáveis à Cultura, incapazes de vislumbrar o significado profundo da literatura, ou de diferenciá-la de subliteratura. Outros leem relativamente poucas obras — as melhores — e delas extraem um verdadeiro veio de ouro.

Isso ocorre porque a diferença entre o bom e o mau leitor não está num gosto inato, nem na quantidade de livros na estante, mas na percepção das formas ordenada pelo intelecto e na capacidade de se deleitar naquilo que de fato é belo. O gosto busca a Beleza e pode ser educado pelo aprendizado dos fundamentos da apreciação artística. Para isso, é necessário um estudo específico. Apenas a leitura de obras ao acaso, sem o conhecimento de sua teoria ou de suas regras, não basta para compreendê-las. Toda Arte, por simples que nos pareça, requer iniciação.

Em Leituras artificiais, apontei os cinco elementos sem os quais não se passa da camada superficial de uma obra literária: o gênero, os fundamentos estéticos, o estilo, a estrutura e a técnica. Quem quiser julgá-la com alguma propriedade — e não apenas dizer se gostou de um livro, ou não — precisa ter estudado cada um deles.

Nesse aprendizado, diferentemente do ensino tradicional de Literatura em nossas escolas e universidades, dou primazia aos criadores, cuja voz é tão ignorada pelas academias, porque só eles têm o conhecimento de quem faz; os bons críticos — na realidade teóricos — ordenam e aprofundam esse saber, cada um em seu devido lugar: teóricos e criadores, sem competir, cooperando para o arcabouço literário do leitor. Dos comentadores e acadêmicos, também faremos algum uso, na medida em que possam contribuir. Mas os críticos dispersos, que empilham impressões difusas com frases feitas e argumentos sem lógica nem rigor, incapazes de distinguir juízo de gosto do fato estético objetivo; os fofoqueiros, mais interessados em discutir a vida privada dos autores do que suas obras, que julgam tudo e todos arbitrariamente; os relativistas, a quem nada tem validade universal; os subjetivistas, a quem a realidade do mundo exterior em nada importa; os materialistas, para quem a intimidade do eu não passa de reações químicas nas sinapses; os irracionalistas, inimigos da reta razão; sobretudo os amantes do feio: a esses todos nós dispensamos. Falam demais e nunca dizem nada, sem jamais chegar a teorizar.

O roteiro abaixo — que distribuo aos poucos no Crítico e na Escola de Formação de Escritores — cobre esses elementos, e outros, na ordem em que convém estudá-los: primeiro, a arte e a estética; depois, o que é a obra literária, seus gêneros e modos de existência; então, a língua e a estilística; por fim, a técnica e o ofício. Não se trata de uma enumeração exaustiva de propriedades da literatura e suas dimensões, mas apenas do início do caminho crítico. Se, nesse último quesito, esta lista pende para a prosa ficcional, isso se deve à experiência e à formação deste escritor.

Aprender a estudar

Antes de tudo, porém, é preciso aprender a estudar e se autoeducar, coisa que não se ensina em nosso sistema educacional, voltado à mera mnemônica para vestibulares e concursos públicos. Estas indicações são uma breve síntese de ferramentas elementares, sem as quais um crítico não pode operar. Aprender a ler é, também, aprender a raciocinar com clareza.

Para o ferramental: Como ler livros e Como falar, como ouvir, de Mortimer Adler — e, como leitura secundária, Como educar sua mente, de Susan Wise Bauer, derivado de Adler, cujas primeiras páginas são muito interessantes no quesito da autoeducação; Como estudar e como aprender, de Emilio Mira y López; Como escrever boas notas, de Sönke Ahrens, para fazer das anotações um instrumento de pensamento; e o Didascálicon: da arte de ler e o Opúsculo sobre o modo de aprender e de meditar, de Hugo de São Vítor.

Para a ética do trabalho intelectual: A vida intelectual, de A.-D. Sertillanges; O trabalho intelectual, de Jean Guitton; e A arte de escrever, de Arthur Schopenhauer, indispensável para qualquer pessoa séria; em seguida, as Cartas exemplares de Flaubert, em que os preceitos de Sertillanges aparecem como a vida concreta de um escritor, na qual teoria estética e conduta de ofício são uma coisa só; e Os segredos dos grandes artistas, de Mason Currey, que exemplifica como, em diversas épocas, artistas e intelectuais ordenam suas rotinas em torno do trabalho literário e intelectual; e, para os tempos de distração digital, Trabalho focado (Deep Work), de Cal Newport, sobre a concentração prolongada que o estudo sério exige. A eles se soma O saber dos antigos, de Giovanni Reale, que diagnostica as doenças espirituais do nosso tempo e lhes prescreve os remédios da filosofia grega.

Por fim, os instrumentos do raciocínio: O Trivium, da Irmã Miriam Joseph; o Curso de filosofia, de Régis Jolivet, para as noções filosóficas elementares; e Aristóteles em nova perspectiva, de Olavo de Carvalho, incontestável contribuição original aos estudos aristotélicos. Sem eles, todo o resto se lê mal.

1. Os fundamentos estéticos

Começando pela educação da imaginação, pois ninguém deve chegar perto de um tratado sobre o belo sem ter tido, antes, a vivência da Beleza. Para São Tomás de Aquino, belo é o que agrada à vista, e os sentidos que mais servem à beleza são os mais próximos do intelecto: a visão e a audição. Por isso, a educação do gosto começa pelos olhos e pelos ouvidos.

Primeiro, nesta ordem exata, A história da arte, de Ernst Gombrich, e a História da beleza e a História da feiura, de Umberto Eco, lidos com calma, apreciando as imagens, junto com catálogos de pintura sempre que possível. Na mesma linha, O Renascimento: estudos sobre arte e poesia, de Walter Pater; O outono da Idade Média, de Johan Huizinga; A imaginação educada, de Northrop Frye; e, para a arte moderna, A desumanização da arte, de Ortega y Gasset, e Arte & deformação: como entender a estética moderna, de Francisco de Assis Brasil.

Ao mesmo tempo, a música erudita, que educa os sensos de proporção, harmonia e forma, como já observava Platão. Nenhum livro dá o panorama da coleção Harmonia Mundi Century Collection: A History of Music (2005), coletânea enciclopédica com livretos informativos, que percorre vinte séculos de música pela audição das próprias obras, pois a história de qualquer arte jamais será compreendida sem a experiência delas; como guia de audição, Como ouvir e entender música, de Aaron Copland; só depois, os títulos de historiografia, como The Cambridge History of Music.

Só então leituras sobre Filosofia da Arte, nesta sequência: Iniciação à estética, de Ariano Suassuna; depois Beleza, de Roger Scruton; ao lado deles, Convite à estética, de Mário Ferreira dos Santos. Trata-se de uma primeira leitura e contato mais aprofundado com as teorias estéticas, que não dispensa o estudo sério da bibliografia citada por esses autores; o que por si só renderia um trabalho de décadas.

Como complementos, em ordem cronológica: os diálogos de Platão sobre o belo — o Hípias Maior, que busca defini-lo; O Banquete, com a ascensão da beleza dos corpos à Beleza em si; o Fedro, sobre a beleza e a inspiração; e o Filebo, sobre o prazer puro das formas belas —; uma primeira leitura da Poética de Aristóteles, junto com a sua Retórica; e, num salto temporal, Arte e beleza na estética medieval, de Umberto Eco; a Estética de Alexander Baumgarten, que deu nome à disciplina; Notas para a definição de cultura, de T. S. Eliot; Introdução às artes do belo, de Étienne Gilson; e A definição da arte, de Umberto Eco. Por fim, as obras mais complexas, dos alemães: a Crítica da faculdade do juízo, de Immanuel Kant, e, de seus dois sucessores, ferrenhos opositores entre si, a Metafísica do belo, de Arthur Schopenhauer, e o Curso de estética de Hegel.

Estudem também os adversários engajados, apenas para refutá-los: A teoria do romance, de Georg Lukács; Literatura e revolução, de Leon Trotski; A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, de Walter Benjamin; Que é a literatura?, de Jean-Paul Sartre; as Notas de literatura e a Teoria estética, de Theodor Adorno. Para entender de onde vem boa parte desse pensamento, As raízes do romantismo, de Isaiah Berlin, que remonta o subjetivismo moderno à revolta romântica contra a razão.

2. A poética e a teoria da literatura

Trata-se de saber o que é a obra literária, quais são seus gêneros e como lê-la criticamente. Comece por Platão: o Íon e os livros III e X de A República, sobre a poesia e a mímese. Depois, a Poética de Aristóteles, que em boa parte lhe responde, agora relida com vagar: ao mesmo tempo manual de dramaturgia, livro de crítica e tratado de estética, de preferência no volume A poética clássica, da Cultrix, que a reúne à Arte poética de Horácio e ao Do sublime de Longino. Da Idade Média, o Convívio, de Dante, com a doutrina dos quatro sentidos da escrita: literal, alegórico, moral e anagógico, que não se devem confundir com concepções modernas desses termos.

Para os gêneros, esta sequência: A criação literária, de Massaud Moisés, a começar pelo capítulo sobre gêneros, com consultas frequentes aos verbetes do seu Dicionário de termos literários; Teoria da literatura, de René Wellek e Austin Warren; só então Os gêneros literários: seus fundamentos metafísicos, de Olavo de Carvalho, em A dialética simbólica; e, como contraponto no debate, Benedetto Croce, historicista que nega a existência dos gêneros, no Breviário de estética e, depois, na Estética como ciência da expressão e linguística geral.

Para a leitura crítica propriamente dita: A análise literária, de Massaud Moisés; Princípios de crítica literária e A prática da crítica literária, de I. A. Richards, que ensinam a leitura cerrada, palavra por palavra; De poesia e poetas, de T. S. Eliot; Sobre a literatura, de Umberto Eco; e On Moral Fiction, de John Gardner.

Para uma visão de conjunto dos modos, mitos e gêneros, a Anatomia da crítica, de Northrop Frye, e, sobre a natureza da própria crítica, seu O caminho crítico; autor que ao mesmo tempo diverge e dialoga com os teóricos do New Criticism.

Por fim, para as análises morfológica e estrutural da narrativa: Morfologia do conto maravilhoso, de Vladimir Propp, formalista russo precursor do estruturalismo, e a coletânea Análise estrutural da narrativa, de Roland Barthes, Algirdas Greimas, Umberto Eco, Tzvetan Todorov e outros.

3. A língua e a estilística

O estilo reflete toda a cosmovisão do autor e une forma e conteúdo. Para estudá-lo, junto com a língua portuguesa: Comunicação em prosa moderna, suprassumo de Othon M. Garcia; a Nova gramática do português contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, para consulta e sobretudo do capítulo 14 em diante; Para falar e escrever melhor o português, de Adriano da Gama Kury; Técnica do estilo, de Albertina Fortuna Barros; e, por último, por ser o mais denso, Introdução à estilística, de Nilce Sant’Anna Martins. Para a estilística geral, independente da língua, os livros de Antoine Albalat: A arte de escrever em vinte lições, talvez a mais importante das indicações dele, seguido de A formação do estilo pela assimilação dos autores.

O estudo da estilística, porém, não se confunde com o das técnicas literárias. A estilística examina os recursos expressivos da língua: palavras, fraseologia, ritmo, pontuação, figuras de linguagem; a técnica, os meios de construção da obra: ponto de vista, espaço-tempo narrativo, personagens, etc. Uma frase impecável pode falhar dentro da cena, e só a técnica revela a falha. Em ficção, aliás, quem tem estilo é a personagem, não o escritor. A estilística submete-se, portanto, à técnica: o valor de um recurso de estilo se mede pela função que cumpre no todo. Fora disso, trata-se de mero reducionismo. Nenhuma frase boa salva uma narrativa ruim, porém nenhuma boa narrativa se faz com frases ruins.

4. A técnica e o ofício

A técnica reúne os meios pelos quais o autor atinge um efeito específico. Primeiro, os tratados, a começar pelos de Raimundo Carrero, meu mestre no ofício: Os segredos da ficção e A preparação do escritor, livros que funcionam como verdadeiras gramáticas da escrita ficcional, classificando e elucidando as técnicas narrativas, sem jamais ditá-las; depois, Cartas a um jovem escritor, de Mario Vargas Llosa, uma espécie de teoria epistolar para a criação literária; e Como se tornar um escritor, de Antoine Albalat. Adentramos, então, um pouco a tradição de língua inglesa, em que certas ideias aristotélicas e de técnica se mantiveram mais vivas: A filosofia da composição, de Edgar Allan Poe, herdeiro discreto da tradição aristotélica; A arte do romance, de Henry James, cujos prefácios são infinitamente mais interessantes do que a execução de suas próprias obras; A técnica da ficção, de Percy Lubbock, que converte em método o que se encontra disperso em seu mestre Henry James; Aspectos do romance, de E. M. Forster, que lhe responde e relativiza essa ortodoxia, livro indispensável para pensar literatura no século XX; The Art of Fiction, do filosófico John Gardner, e também o seu On Becoming a Novelist.

Depois, a técnica vista em ação, na leitura de grandes escritores: A orgia perpétua, de Vargas Llosa, sobre Flaubert; as Lições de literatura e as Lições de literatura russa, de Vladimir Nabokov, modelo de leitura atenta ao detalhe; as Aulas de literatura, de Julio Cortázar; Seis passeios pelos bosques da ficção, de Umberto Eco. Por fim, os ensaios de ofício: Sem trama e sem final, os conselhos de escrita reunidos das cartas de Anton Tchékhov; a Valise de cronópio, de Cortázar; Verdades e mentiras na literatura, de Stephen Vizinczey; Seis propostas para o próximo milênio, de Italo Calvino; Uma poética de romance: matéria de carpintaria e O meu mestre imaginário, de Autran Dourado.

Para a poesia, primeiro o que os poetas disseram sobre o próprio ofício: ABC da literatura, de Ezra Pound, livro de base para o estudo da poesia; Itinerário de Pasárgada, de Manuel Bandeira; Esse ofício do verso, de Jorge Luis Borges; O arco e a lira, de Octavio Paz; Cartas a um jovem poeta, de Rilke; Autobiografia poética e Sobre a poesia, de Ferreira Gullar. Depois, a métrica: o capítulo 22 da gramática de Cunha e Cintra, “Noções de versificação”; A arte do poeta, de Murilo Araújo; e, para o poeta aprendiz, o Tratado de versificação, de Olavo Bilac e Guimarães Passos, referência inevitável em metrificação em língua portuguesa, embora a qualidade dos versos parnasianos seja discutível. Por fim, Na madrugada das formas poéticas, de Segismundo Spina, e Sobre a poesia, de A. C. Bradley.

Para o drama: Introdução à dramaturgia, de Renata Pallottini, breve e densa, que expõe, no segundo capítulo, as leis dialéticas do conflito dramático derivadas de Hegel; A preparação do ator e A construção da personagem, de Constantin Stanislavski, que ensinam a encarnar a personagem por dentro, com seus objetivos, suas circunstâncias e seu subtexto, lição que serve ao ator, ao escritor e ao leitor, que aprende a reconhecer uma personagem bem criada; e A tragédia shakespeariana, de A. C. Bradley.

Leitura desinteressada

Tudo isso, no entanto, só existe em função dos clássicos, lidos por inteiro e devagar, com o leitor completamente entregue à obra, numa contemplação desinteressada: a satisfação livre de todo interesse que, para Kant, define o juízo de gosto sobre o belo. A mentalidade analítica não exclui esse deleite; pelo contrário, o amplia e aprofunda.

Leia Homero, nas traduções de Christian Werner ou de Frederico Lourenço, as únicas que indico; Ovídio e suas Metamorfoses; o teatro grego; a Bíblia; a Divina Comédia, de Dante; Os contos da Cantuária, de Chaucer; Tirant lo Blanc, de Joanot Martorell, único romance de cavalaria que o padre poupa da fogueira no Dom Quixote, por mostrar cavaleiros que comem, dormem e morrem em suas camas; o próprio Dom Quixote, de Cervantes; Madame Bovary e os Três contos, de Flaubert; o inesgotável Guerra e paz, de Tolstói, e sua antítese narrativa, A morte de Ivan Ilitch, ápice da brevidade; e também A metamorfose, de Franz Kafka, que, retirada a transformação surreal de Gregor, narra um drama similar: uma espécie de doente dentro de casa, às beiras da morte, e uma família que não sabe o que fazer; O processo, do mesmo autor; Retrato do artista quando jovem e Ulysses, de James Joyce, acompanhados de Mythic Worlds, Modern Words, os ensaios de Joseph Campbell sobre a arte de Joyce; as líricas e libidinosas memórias de Humbert Humbert em Lolita; a aridez poética de Pedro Páramo, de Rulfo, e as fantasias familiares de García Márquez, em Cem anos de solidão; e, claro, não podemos nos esquecer de nossos campeões: contos de Machado de Assis, os romances de Graciliano Ramos, Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Autran Dourado, príncipe de nossas letras. E os grandes poetas, lidos sempre e decorados por puro prazer: Gerardo Mello Mourão — nosso poeta-mor, invejado por ninguém menos que Ezra Pound —, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral, Bandeira, Ferreira Gullar, Alberto da Cunha Melo, Ângelo Monteiro. Claro: o teatro de Suassuna, de Nelson Rodrigues. É que esta não é uma lista exaustiva, sobretudo porque detesto listas.

Para consultar

À parte, as obras de consulta, que não se leem de capa a capa, mas se mantêm sempre à mão. Antes de tudo, um bom dicionário da língua — seja o Aulete, o Aurélio ou o Michaelis —, pois o bom leitor jamais deixa passar uma palavra sem saber seu significado. Depois, o Dicionário de termos literários, de Massaud Moisés; o Dicionário de filosofia, de Nicola Abbagnano; a História da filosofia de Giovanni Reale e Dario Antiseri, ou a de Frederick Copleston, necessárias para pesquisas, pois, apesar de nenhum crítico precisar ser filósofo, nenhum ignorante jamais escreveu obra que preste; e a História da literatura ocidental, de Otto Maria Carpeaux, obra enciclopédica incontornável, por isso com a profundidade das enciclopédias: pouco técnica, frequentemente arbitrária em seus métodos e mais atenta aos contextos históricos e biográficos, ou à opinião de outros críticos, do que à feitura e análise das obras. Para introduções a um tema ou a um autor específico, os guias da série Very Short Introductions, de Oxford, e os Cambridge Companions se mostram muito úteis em seus comentários. Para quem tem pouca leitura — e digo isso sem ironia —, História da literatura ocidental sem as partes chatas, de Sandra Newman, é uma porta de entrada espirituosa, embora não muito precisa; já Por que ler os clássicos, de Italo Calvino, define o que torna um livro um clássico e comenta vários deles.

Antes de opinar

São cerca de cento e trinta livros a serem lidos por inteiro, sem contar as obras de consulta, os autores que recomendo pelo conjunto da obra, nem aqueles analisados nos próprios livros indicados, cuja leitura deve precedê-los. Em ritmo tranquilo — dois ou três livros deste roteiro por mês, alternados com outros tantos de ficção, numa leitura meditada, com lápis, anotações e caderno de leituras —, o roteiro pode ser cumprido em quatro a cinco anos, o tempo de uma graduação, por um estudante disciplinado; nesse período, ele terá lido também outras cento e tantas obras de ficção, entre os clássicos que indico e os que os próprios teóricos analisam. Parece muito, mas não é: é o mínimo para que o juízo crítico deixe de ser palpite.

Não conheço quase ninguém que o tenha feito, exceto alguns alunos meus. Nossas escolas e universidades, na melhor das hipóteses, comentam a materialidade do enredo e os temas sociais de uma obra, quando não confundem o estudo da literatura com o da própria língua; todas ou a maior parte das dimensões aqui apontadas ficam de fora. Na internet, a situação é pior: o palpiteiro ocupa o lugar do crítico, os vídeos curtos substituem a escrita séria. A opinião sobre o livro chega antes de qualquer leitura, e prevalece a palavra de quem tiver mais seguidores ou visualizações: vale tudo na tentativa de provar que se está certo, exceto o estudo sóbrio, silencioso. Sem referentes e sem a ética intelectual, sobra o verbalismo demagógico, o flatus vocis para as multidões. Literatura de verdade nunca foi popular, embora nem por isso seja impopular.

Não existe atalho, nem fórmula mágica. O estudo sério é lento, acumulativo, e seus resultados só se revelam no longo prazo, quando se relê o caderno de anotações de alguns anos atrás e já não se reconhece a maneira como se pensava. Até lá, a melhor postura é a mais simples: ler menos e melhor, e só falar quando tiver algo verdadeiro a se dizer, para evitar se comprometer com opiniões precipitadas. Lembre-se: a palavra vale prata, mas o silêncio vale ouro. Resta o estudo.

E agora, o que fazer?

Talvez, ao chegar ao fim desta lista, você sinta mais desânimo do que entusiasmo. É natural. Se até hoje você leu sem método, não foi por falta de inteligência nem de vontade: ninguém lhe ensinou, e as instituições que deveriam fazê-lo raramente o fazem. O caminho é longo, mas não precisa ser árduo, nem solitário.

Foi para isso que criei o Clube Crítico e a Escola de Formação de Escritores (EFESC). No Crítico, ambiente de formação básica para leitores e aspirantes a escritor, percorremos juntos este roteiro, na ordem em que convém estudá-lo, com a orientação que os livros sozinhos não dão. Na EFESC, o estudo se converte em ofício: voltada ao desenvolvimento da escrita, a escola tem aulas ao vivo em que corrijo pessoalmente cada texto, ao lado de alunos mais experientes, que partilham a mesma seriedade. Uma boa oficina é, antes de tudo, uma boa sociedade literária, do tipo que já não se encontra.

Ninguém se torna leitor crítico, nem escritor, do dia para a noite. Mas quem caminha acompanhado erra menos, perde menos tempo e chega mais longe. Se quiser dar o primeiro passo, o convite está feito: para o estudo da literatura, critico.club; para a formação de escritores, efesc.com.br.


Lista em ordem alfabética

Entre parênteses, a seção do roteiro em que cada obra aparece; “consulta” indica as obras de consulta e os guias de leitura. As obras literárias recomendadas estão no corpo do roteiro. A maior parte desta bibliografia está disponível para o leitor de língua portuguesa; alguns poucos títulos, contudo, ainda não foram traduzidos, e por isso os cito no original.

  • ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia (consulta).
  • ADLER, Mortimer. Como falar, como ouvir; Como ler livros (para aprender a estudar).
  • ADORNO, Theodor. Notas de literatura; Teoria estética (1).
  • AHRENS, Sönke. Como escrever boas notas (para aprender a estudar).
  • ALBALAT, Antoine. A arte de escrever em vinte lições; A formação do estilo pela assimilação dos autores (3); Como se tornar um escritor (4).
  • ARAÚJO, Murilo. A arte do poeta (4).
  • ARISTÓTELES. Retórica (1).
  • ARISTÓTELES; HORÁCIO; LONGINO. A poética clássica. Cultrix (1 e 2).
  • BANDEIRA, Manuel. Itinerário de Pasárgada (4).
  • BARROS, Albertina Fortuna. Técnica do estilo (3).
  • BARTHES, Roland; GREIMAS, Algirdas; ECO, Umberto; TODOROV, Tzvetan et al. Análise estrutural da narrativa (2).
  • BAUER, Susan Wise. Como educar sua mente (para aprender a estudar).
  • BAUMGARTEN, Alexander. Estética (1).
  • BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica (1).
  • BERLIN, Isaiah. As raízes do romantismo (1).
  • BILAC, Olavo; PASSOS, Guimarães. Tratado de versificação (4).
  • BORGES, Jorge Luis. Esse ofício do verso (4).
  • BRADLEY, A. C. A tragédia shakespeariana; Sobre a poesia (4).
  • BRASIL, Francisco de Assis. Arte & deformação: como entender a estética moderna (1).
  • CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos (consulta); Seis propostas para o próximo milênio (4).
  • CAMBRIDGE COMPANIONS (consulta).
  • CAMPBELL, Joseph. Mythic Worlds, Modern Words (consulta).
  • CARPEAUX, Otto Maria. História da literatura ocidental (consulta).
  • CARRERO, Raimundo. A preparação do escritor; Os segredos da ficção (4).
  • CARVALHO, Olavo de. Aristóteles em nova perspectiva (para aprender a estudar); A dialética simbólica (2).
  • COPLAND, Aaron. Como ouvir e entender música (1).
  • COPLESTON, Frederick. História da filosofia (consulta).
  • CORTÁZAR, Julio. Aulas de literatura; Valise de cronópio (4).
  • CROCE, Benedetto. Breviário de estética; Estética como ciência da expressão e linguística geral (2).
  • CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo (3).
  • CURREY, Mason. Os segredos dos grandes artistas (para aprender a estudar).
  • DANTE ALIGHIERI. Convívio (2).
  • DICIONÁRIOS DA LÍNGUA PORTUGUESA: Aulete, Aurélio ou Michaelis (consulta).
  • DOURADO, Autran. O meu mestre imaginário; Uma poética de romance: matéria de carpintaria (4).
  • ECO, Umberto. A definição da arte; Arte e beleza na estética medieval; História da beleza; História da feiura (1); Sobre a literatura (2); Seis passeios pelos bosques da ficção (4).
  • ELIOT, T. S. Notas para a definição de cultura (1); De poesia e poetas (2).
  • FLAUBERT, Gustave. Cartas exemplares (para aprender a estudar).
  • FORSTER, E. M. Aspectos do romance (4).
  • FRYE, Northrop. A imaginação educada (1); Anatomia da crítica; O caminho crítico (2).
  • GARCIA, Othon M. Comunicação em prosa moderna (3).
  • GARDNER, John. On Moral Fiction (2); On Becoming a Novelist; The Art of Fiction (4).
  • GILSON, Étienne. Introdução às artes do belo (1).
  • GOMBRICH, Ernst. A história da arte (1).
  • GUITTON, Jean. O trabalho intelectual (para aprender a estudar).
  • GULLAR, Ferreira. Autobiografia poética; Sobre a poesia (4).
  • HARMONIA MUNDI. Harmonia Mundi Century Collection: A History of Music (1).
  • HEGEL, G. W. F. Curso de estética (1).
  • HUGO DE SÃO VÍTOR. Didascálicon: da arte de ler; Opúsculo sobre o modo de aprender e de meditar (para aprender a estudar).
  • HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média (1).
  • JAMES, Henry. A arte do romance (4).
  • JOLIVET, Régis. Curso de filosofia (para aprender a estudar).
  • JOSEPH, Irmã Miriam. O Trivium (para aprender a estudar).
  • KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo (1).
  • KURY, Adriano da Gama. Para falar e escrever melhor o português (3).
  • LUBBOCK, Percy. A técnica da ficção (4).
  • LUKÁCS, Georg. A teoria do romance (1).
  • MARTINS, Nilce Sant’Anna. Introdução à estilística (3).
  • MIRA Y LÓPEZ, Emilio. Como estudar e como aprender (para aprender a estudar).
  • MOISÉS, Massaud. A análise literária; A criação literária (2); Dicionário de termos literários (consulta).
  • NABOKOV, Vladimir. Lições de literatura; Lições de literatura russa (4).
  • NEWMAN, Sandra. História da literatura ocidental sem as partes chatas (consulta).
  • NEWPORT, Cal. Trabalho focado (para aprender a estudar).
  • ORTEGA Y GASSET, José. A desumanização da arte (1).
  • OXFORD. Very Short Introductions (consulta).
  • PALLOTTINI, Renata. Introdução à dramaturgia (4).
  • PATER, Walter. O Renascimento: estudos sobre arte e poesia (1).
  • PAZ, Octavio. O arco e a lira (4).
  • PLATÃO. A República (1 e 2); Fedro; Filebo; Hípias Maior; O Banquete (1); Íon (2).
  • POE, Edgar Allan. A filosofia da composição (4).
  • POUND, Ezra. ABC da literatura (4).
  • PROPP, Vladimir. Morfologia do conto maravilhoso (2).
  • REALE, Giovanni. O saber dos antigos (para aprender a estudar); com ANTISERI, Dario, História da filosofia (consulta).
  • RICHARDS, I. A. A prática da crítica literária; Princípios de crítica literária (2).
  • RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta (4).
  • SANTOS, Mário Ferreira dos. Convite à estética (1).
  • SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura? (1).
  • SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de escrever (para aprender a estudar); Metafísica do belo (1).
  • SCRUTON, Roger. Beleza (1).
  • SERTILLANGES, A.-D. A vida intelectual (para aprender a estudar).
  • SPINA, Segismundo. Na madrugada das formas poéticas (4).
  • STANISLAVSKI, Constantin. A construção da personagem; A preparação do ator (4).
  • SUASSUNA, Ariano. Iniciação à estética (1).
  • TCHÉKHOV, Anton. Sem trama e sem final (4).
  • THE CAMBRIDGE HISTORY OF MUSIC (1).
  • TROTSKI, Leon. Literatura e revolução (1).
  • VARGAS LLOSA, Mario. A orgia perpétua; Cartas a um jovem escritor (4).
  • VIZINCZEY, Stephen. Verdades e mentiras na literatura (4).
  • WELLEK, René; WARREN, Austin. Teoria da literatura (2).

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