Pouco depois de Mancha Maldita sair em formato digital, leitores começaram a me escrever apontando erros. Abri o arquivo na primeira página relatada. Faltava um verbo. Reli a frase três, quatro vezes, como se ele fosse reaparecer por teimosia. Eu não o tinha esquecido e sei exatamente onde se perdeu: nas alterações do revisor.
Para contar como, preciso voltar a 13 de março de 2026, dia em que recebi meu livro “revisado” com centenas de intervenções arbitrárias. Muitas ignoravam a estética literária e o ritmo da prosa e, nos casos graves, até incorriam em erros de regência e semântica. Li uma por uma e virei duas noites desfazendo as descorreções, aprovando ou rejeitando cada alteração diretamente no arquivo.
Em 16 de março, devolvi o livro. Junto dele, anexei um relatório de quatorze itens, com apontamentos sumários sobre os equívocos de revisão e as razões estilísticas ou gramaticais de cada decisão. Na mensagem, lembrei que Mancha Maldita não é obra de ficção comercial, mas obra de arte literária, na qual cada palavra foi pensada e repensada, buscando sempre a mot juste, e que esse tipo de literatura jamais poderia ser submetido a manuais de redação básica, típicos do jornalismo, como foi o caso.
A revisão foi desastrosa, mas creio que consegui reverter seus efeitos o máximo que pude: é que chega a um ponto em que, de tanto ler e reler, nossos olhos cansados ficam cegos aos padrões textuais à nossa frente. Da experiência, contudo, surgiu uma lição valiosa de estilo, que decidi compartilhar.
Este texto é, antes de tudo, um pedido de desculpas aos leitores por erros que, por poucos que tenham restado, não escrevi.
Segue-se uma versão daquele relatório.
A voz
O primeiro alvo das intervenções foi a voz das personagens.
Escrevi (grifo meu): “[Rodrigo] Buscou na mente os versos mais idílicos, as palavras mais tenras e bucólicas sobre a infância, mas só conseguiu pensar: o pé de laranja-lima que se foda. E pôs-se a rir, apressando o trote.” O revisor pôs o pensamento entre aspas.
Mais adiante, a matriarca da família, ao apontar a falta de habilidades práticas da filha e da nora, diz num discurso direto interno, sem marcação: “não se deixando lisonjear jamais, apenas respondeu: vocês nasceram, cada uma, com duas mãos esquerdas”. A revisão abriu um novo parágrafo e colocou travessão. As duas mudanças destroem a fluidez do texto.
O discurso indireto livre e a falsa terceira pessoa, isto é, a terceira pessoa gramatical escrita com a perspectiva da primeira, fundem a voz do narrador ao pensamento da personagem. No romance, o diálogo externo recebe marcação convencional; o interno, feito de pensamentos e memórias, corre sem travas, na velocidade do raciocínio. Aspas e travessões desfazem a fusão, didatizam o texto e subestimam o leitor, capaz de perceber sozinho quem pensa e quem fala.
O sentido
Quem não ouve a voz também não enxerga o sentido. Onde escrevi “feito açúcar”, partícula comparativa clássica que emprego para não confundir o “como” com o verbo comer, a revisão propôs “feita o açúcar”, construção que não quer dizer coisa nenhuma.
Em “Era preciso cautela, o mundo estava tão perigoso; na semana anterior, Rangel-Moreira tomara conhecimento”, o revisor suprimiu o ponto e vírgula e reestruturou o período, com direito a exclamação: “o mundo estava tão perigoso na semana anterior!”.
E o mundo passou a ser perigoso durante sete dias apenas.
Em determinada analepse (flashback): “lembrava-se de ter trazido [uma caixa de fósforos] no bolso”, o revisor trocou “trazido” por “levado”. A personagem rememora os fatos como os viveu: “trazido” faz o objeto chegar ao ponto em que ele está, pronto para o uso; “levado” o afasta da origem e esvazia a cena. Total ignorância dos pontos de vista temporais.
O entulho verbal
Depois vieram as preposições.
“Questionava-se sobre quais outras relíquias de família Jezabel também não teria discretamente dado fim” ganhou um “a” em nome da regência castiça: “sobre a quais”. O “sobre” já estabelece a relação de assunto, e o choque das duas preposições é deselegante e redundante.
O mesmo excesso repetiu artigos em estruturas coordenadas: “liberto das obrigações e deveres naturais” virou “das obrigações e dos deveres”, como se a elipse, recurso clássico de concisão, fosse um descuido, não escolha autoral.
Entupiu o estilo de conectivos desde, pasmem, a primeira linha do livro (uma das partes que certamente dá mais trabalho a qualquer escritor decente). A frase de abertura: “Há mais de uma década Rodrigo não pisava no antigo casarão dos Bandeira de Mello” tornou-se “Havia mais de uma década que Rodrigo não pisava”.
Aliás, houve a substituição deliberada, em quase todo o texto, do “há” por “havia”.
O “há”, marcador de tempo decorrido, é impessoal e cristalizado, utilizado amplamente por nossos grandes escritores, feito Machado ou Graciliano, e reconhecido por gramáticos do nível de Celso Cunha e Bechara; portanto dispensa-se a concordância temporal mecânica. Isso também inseriu no meu texto o excesso de “quês” e preposições, o que burocratiza a sintaxe e dilui o vigor do estilo, erro apontado pelo mestre Othon Garcia1.
Graciliano Ramos, aliás, repreendeu esse mesmo vício em O romance das tuberculosas2, em que a autora: “no preparo de duas linhas, meteu a mão na lata das preposições e encaroçou um período com repetições desnecessárias”. Aqui, o revisor fez o caminho inverso: encontrou períodos limpos e meteu neles uma latada de preposições.
Os ruídos
Com o entulho vieram os ruídos. Ao trocar tempos verbais e colocações pronominais, a revisão criou cacófatos. Em certo ponto, um “dera” virou, sem motivo algum, “havia dado”, e a frase passou a sugerir, a quem a lesse em voz alta, um “aveadado” que nunca esteve lá. Logo eu, caçador incessante de cacófatos e ambiguidades, assinaria o trocadilho.
Houve também “havia viajado” (via-via) e “a segurou”, homófono de “assegurou”, onde escrevi “segurou-a”. Impôs a próclise a “Fingia não ouvi-los” e “não vê-lo”, ignorando que o infinitivo impessoal admite a ênclise mesmo depois de palavra atrativa, como registram Celso Cunha e Lindley Cintra3, e que Bechara deixa a escolha ao escritor4. Napoleão Mendes de Almeida, aliás, tinha a ênclise no infinitivo por forma mais elegante e clássica5.
Os reproches ideológicos
Houve ainda um reproche ideológico. A revisão marcou reiteradamente os termos “preto”, “preta” e até um “velha gorda”.
“Preto” é palavra dicionarizada, usada inclusive pelo próprio estado brasileiro: o Estatuto da Igualdade Racial define a população negra como “o conjunto de pessoas que se autodeclaram pretas e pardas”6. Quando até o vocabulário incorporado ao próprio ordenamento jurídico do país passa a ser policiado, é agouro dos brabos.
No romance, “preto” e “negro” aparecem em sentido sociológico, sem intenção pejorativa, e tachar de racista uma palavra desprendida de seu contexto é obscurantismo linguístico. Trata-se, certamente, da importação irrefletida das censuras ao termo anglófono nigger, de conotação pejorativa.
Quanto à velha gorda, a literatura opera no campo da imaginação, que exige economia verbal; eufemismos clínicos destroem a verossimilhança. Além disso, velhas gordas existem.
O diabo e os detalhes
Tudo isso rejeitei, mas rejeitar não basta para reverter as alterações indevidas. Foi preciso uma longa viagem, de idas e voltas, na qual algumas frases mínimas podem não ter atravessado ilesas: sobra uma letra aqui, falta uma palavra ali, pequenas incoerências que não afetam o todo da obra, mas são irritantes. Como diz o ditado inglês: o diabo está nos detalhes.
Foi o que aconteceu com o verbo possuir. A revisão substituiu deliberadamente “possuir” por “ter” em todos os usos, por adesão acrítica a manuais de jornalismo que sacrificam a precisão lexical em nome da simplicidade. Entre “ter” e “possuir”, trocados e destrocados, Rodrigo ficou sem nenhum deles na página 42. Lê-se “Rodrigo sua própria vida, da qual tivera de assumir total controle”, onde deveria estar “Rodrigo tinha sua própria vida, da qual tivera de assumir total controle”.
O mesmo destino tiveram os automóveis. No romance, os carros de fabricação nacional recebem especial detalhamento, por questões de ambientação e de época. As caminhonetes evocam o universo rural, a robustez do veículo, o vocabulário de quem vive a lida do campo; por isso, como é típico da fala nordestina, a Chevrolet, a Ford e a Kombi recebem o feminino, em que se subentende a caminhonete ou a van. Os carros de passeio, sedãs feito o Maverick e o Opala, recebem o masculino, em que se subentende o carro.
O revisor ignorou a distinção e passou tudo para o masculino. Na volta ao original, a Ford, na página 14, perdeu o artigo, e o particípio, a última letra. Lê-se “e Ford, adquirid justamente”, onde deveria estar “e a Ford, adquirida justamente”. Sem o artigo, a caminhonete perdeu o gênero e ganhou ares de gente: “Ford”, assim, soa como nome próprio, sujeito da oração, confundindo ainda mais o leitor.
Na página 4, por fim, Helena mira alguém com “seus os olhos grandes”, e um possessivo e um artigo disputam o lugar que cabia a um só. Deveria haver apenas “seus olhos grandes”. Outra vez a mania de enfiar pronomes facultativos texto afora.
Precedentes
O consolo é pequeno, mas antigo. Flaubert, que gastava dias numa única frase e perseguia repetições como quem caça pulgas num lençol imaculado, viu Madame Bovary sair mutilado na Revue de Paris, em 1856. Os diretores da revista, temendo a censura do Segundo Império, cortaram passagens inteiras, entre elas a célebre cena entre Emma e Léon na carruagem, com alusões eróticas.
Flaubert não aceitou calado: fez publicar uma nota em que advertia o leitor de que tinha diante de si fragmentos, e não o romance que escrevera7. A edição em livro, no ano seguinte, restituiu o texto.
Graciliano Ramos conhecia o problema dos dois lados do balcão. Trabalhou como revisor de jornal no Rio de Janeiro e sabia o que uma vírgula fora do lugar faz com um período; ainda assim, em 1936, viu Angústia chegar às livrarias enquanto estava preso, sem que pudesse rever as provas8.
Oscar Wilde, conta-se, passou uma manhã inteira sobre a prova de um poema e retirou uma vírgula; à tarde, colocou-a de volta9. Sofro de igual condição em meu próprio processo criativo: sou meticuloso, obcecado. E se o próprio autor hesita um dia inteiro diante de uma vírgula, quem a altera em cinco segundos deveria hesitar o dobro.
Se não está errado, não altere
Com dois livros publicados, ainda não tive o prazer de ver nenhum sair com uma revisão primorosa; em ambos, por causas similares.
Nenhuma das alterações que rejeitei corrigia erro algum. A maioria não contrariava sequer a gramática; ignorava a função poética da linguagem. Daí a grande lição aos revisores, que deveria preceder qualquer manual: se não está errado, não altere.
O revisor não é coautor. Seu ofício é encontrar erros, não fabricá-los, tampouco impor preferências idiossincráticas. Diante de uma construção incomum, a pergunta correta nunca deveria ser “eu escreveria assim?”, mas “isto está de fato errado?”. Se a resposta for não: nem ouse mexer um único dedo para alterar um advérbio que seja. Ao menos não na obra deste autor.
O texto se presume correto até prova em contrário. Admitem-se apenas as intervenções de regência, concordância, colocação pronominal e pontuação estritamente necessárias à correção gramatical ou à clareza, desde que não interfiram no estilo e no sentido originais. Os gramáticos, com suas regras, submetem a seu jugo até mesmo os imperadores; mas os poetas criam a língua estudada por eles.
Aos leitores
Nenhum desses erros, por mínimos que sejam, estava no original que entreguei. Nasceram de alterações feitas pelo revisor em trechos perfeitamente corretos; portanto, nenhum deles é meu. Encaminhei as emendas aos editores. Se chegarão a tempo para a primeira edição impressa, ainda não sei.
Aos leitores que encontraram os erros antes de mim, e tiveram a gentileza de avisar, fica o agradecimento. Aos que ainda vão encontrá-los, fica o pedido de desculpas.
Felizmente, nenhum desses detalhes prejudicou o efeito poético pretendido, e tenho tido notícia de excelentes leituras.
NOTAS
1. GARCIA, Othon Moacyr. Comunicação em prosa moderna. Rio de Janeiro: FGV. ↩︎
2. RAMOS, Graciliano. O romance das tuberculosas. In: RAMOS, Graciliano. Linhas tortas. Rio de Janeiro: Record, 2016. Artigo sobre Floradas na serra, estreia de Dinah Silveira de Queiroz. Logo no primeiro parágrafo, Graciliano transcreve uma frase da romancista: “Letícia olhou para a fila de pereiras, para a estrada que subia para longe, para lugares escondidos para sempre.” Cinco “para” numa só frase. ↩︎
3. CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. Rio de Janeiro: Lexikon. ↩︎
4. BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. ↩︎
5. ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Dicionário de questões vernáculas. São Paulo: Ática. ↩︎
6. BRASIL. Lei n.º 12.288, de 20 de julho de 2010. Institui o Estatuto da Igualdade Racial. Art. 1.º, parágrafo único, IV. ↩︎
7. FLAUBERT, Gustave. Revue de Paris, Paris, 15 dez. 1856: “Des considérations que je n’ai pas à apprécier ont contraint la Revue de Paris à faire une suppression dans le numéro du 1er décembre 1856. Ses scrupules s’étant renouvelés à l’occasion du présent numéro, elle a jugé convenable d’enlever encore plusieurs passages. En conséquence, je déclare dénier la responsabilité des lignes qui suivent ; le lecteur est donc prié de n’y voir que des fragments et non pas un ensemble.”
Em tradução livre: “Considerações que não me cabe julgar obrigaram a Revue de Paris a fazer uma supressão no número de 1º de dezembro de 1856. Renovados seus escrúpulos por ocasião do presente número, ela julgou conveniente suprimir ainda várias passagens. Em consequência, declaro recusar a responsabilidade pelas linhas que se seguem; roga-se ao leitor, portanto, que nelas veja apenas fragmentos, e não um conjunto.” Disponível em: https://fr.wikisource.org/wiki/Madame_Bovary/Notes/Publication_de_Madame_Bovary_dans_la_Revue_de_Paris. ↩︎
8. RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. Parte II, “Pavilhão dos Primários”. A publicação de Angústia é mencionada pela primeira vez no cap. XI; no cap. XXX, lê-se: “Asilava-me numa esperança débil: a narrativa era medíocre, tão vagabunda que passaria facilmente despercebida. Os sujeitos da ordem não esbanjariam tempo com ela. Desgraçado alívio. E apoquentava-me outra vez não poder corrigir a história, suprimir as repetições e os desconchavos. Alguns pedaços não eram ruins de todo. Se me deixassem trabalhar uns meses, livrar-me-ia dos receios, das tremuras que a publicação me dava.” ↩︎
9. SHERARD, Robert Harborough. Oscar Wilde: the story of an unhappy friendship. London: Greening & Co., 1905. ↩︎
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