Vozes narrativas e discurso indireto livre

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4–6 minutos

Hoje é dia de aprofundar-nos um pouco mais nas técnicas literárias. Falaremos sobre o discurso indireto livre e vozes narrativas.

Mas o que é voz? Em teoria musical, voz é cada uma das partes numa composição, isto é, cada uma das músicas interpretadas por instrumentos individuais. Numa peça de Bach, por exemplo, é possível ouvirmos várias vozes distintas e independentes, mas que formam uma composição harmônica. Na literatura, ocorre algo semelhante: podemos ler diferentes personagens, com diferentes estilos, se manifestando ao longo do texto. Então, podemos definir voz como o discurso de cada uma das personagens de uma narrativa.

Nós conhecemos bem o discurso direto na literatura, que é quando a voz do narrador e da personagem se distinguem, de forma que a voz da personagem é dada independentemente da voz do narrador, porém poucos conhecem ou sabem utilizar o discurso indireto livre, que mescla as vozes narrativas. Falaremos mais adiante do jogo de vozes e da polifonia, mas, antes, devemos aprender a identificá-las. Tomaremos por exemplo uma passagem de Madame Bovary, com as três formas de estilo: direto, indireto e indireto livre. Neste trecho, localizado no final do Capítulo II, temos o ponto de vista da primeira esposa de Charles Bovary, Heloíse:1

E passou a detestá-la instintivamente. A princípio procurou alívio nas indiretas, que Charles não entendia; depois, em reflexões e incidentes, a que ele não dava importância com medo de alguma tempestade; finalmente, em apóstrofes à queima-roupa, às quais ele não sabia o que responder. Qual era o motivo por que ele continuava a ir aos Bertaux, uma vez que Rouault já estava curado e ainda não pagara! Ah! É que lá havia uma pessoa que sabia conversar, uma pessoa prendada, uma bela inteligência. Era disso que ele gostava; o que ele queria era moças da cidade! E prosseguia:

— A filha do Sr. Rouault, moça da cidade! Ora adeus! O avô era pastor e eles até têm um primo que esteve a ponto de sentar-se no banco dos réus, por causa de uma briga. Não valia a pena fazer tanto barulho, nem mostrar-se aos domingos na igreja, de vestido de seda, como uma condessa. Pobre velho, que, se não fossem as colzas do ano passado, ver-se-ia muito atrapalhado para pagar suas dívidas atrasadas.

Fatigado, Charles deixou de ir aos Bertaux. Heloíse fizera-o jurar com a mão sobre um livro de missa que não voltaria lá; isto depois de muitos soluços e de muitos beijos, numa grande explosão de amor.

DISCURSO DIRETO

Tem esse nome, pois reproduz direta e literalmente as palavras pronunciadas pelas personagens. Na narrativa tradicional, convém que essas falas sejam precedidas por travessão e introduzidas pelos verbos dicendi, embora na narrativa moderna ambos sejam dispensáveis. No exemplo de Mme. Bovary, temos a fala direta de Heloíse:

E prosseguia:

— A filha do Sr. Rouault, moça da cidade! Ora adeus! O avô era pastor e eles até têm um primo que esteve a ponto de sentar-se no banco dos réus, por causa de uma briga. […]

Neste ponto temos a nítida voz da personagem separada da do narrador, que enuncia a mudança de voz com o “e prosseguia”.

DISCURSO INDIRETO

Aqui o narrador reproduz na própria voz o que as personagens disseram ou dizem. É precedido pela conjunção “que”. Ex.: disse que, falou que, contou que etc.

No texto, vemos o discurso indireto em:

Heloíse fizera-o jurar com a mão sobre um livro de missa que não voltaria lá […].

Aqui vemos uma única voz, a do narrador, que resume as falas de Heloíse e Charles.

DISCURSO INDIRETO LIVRE (OU ESTILO INDIRETO LIVRE)

Eis a sofisticação máxima atingida por Flaubert, e que mudou para sempre o romance moderno. O estilo indireto livre incorpora a voz da personagem à voz do narrador; ambas confundem-se. Não há travessões nem verbos dicendi, aspas, itálico, ou quaisquer marcações. É uma variante do estilo indireto, com a diferença de que, desta vez, é a personagem que entrecorta a voz do narrador, não o contrário. Permite que entremos na mente das personagens sem a necessidade de dizer “pensou Heloíse”, no trecho:

[…] finalmente, em apóstrofes à queima-roupa, às quais ele não sabia o que responder. Qual era o motivo por que ele continuava a ir aos Bertaux, uma vez que Rouault já estava curado e ainda não pagara! Ah! É que lá havia uma pessoa que sabia conversar, uma pessoa prendada, uma bela inteligência. Era disso que ele gostava; o que ele queria era moças da cidade! E prosseguia:

Em “finalmente, em apóstrofes à queima-roupa, às quais ele não sabia o que responder”, temos a voz do narrador. Porém, a partir de “Qual era o motivo por que ele continuava a ir aos Bertaux”, temos a voz de Heloíse, na forma de seus pensamentos. Não há enunciação, mas temos uma pista de que é a voz dela em:

Era disso que ele gostava; o que ele queria era moças da cidade! E prosseguia:

— A filha do Sr. Rouault, moça da cidade! […]

Em momento algum foi mencionada a expressão “moças da cidade”, de forma que Heloíse não poderia saber o que o narrador estava pensando, logo, esta é a voz dela.

O discurso indireto livre não se confunde com o falso monólogo interior nem com a falsa terceira pessoa, como gostam os americanos de dizer. O falso monólogo interior e a falsa terceira pessoa são recursos parecidos, porém distintos, de que trataremos em outro momento. Por ora, isto basta.


NOTAS

1. FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. Tradução de Araújo Nabuco. Primeira parte, cap. II. Araújo Nabuco aportuguesa os nomes das personagens (Carlos, Heloísa, tio Rouault); nas citações, mantive-os na forma francesa: Charles, Heloíse, Sr. Rouault. ↩︎

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