Depois da eleição, mandei uma mensagem aos meus alunos, e dela nasceu esta lista: cinco livros para atravessar tempos de crise, sem antidepressivo nem panfleto (a boa literatura dispensa os dois).
Toda eleição termina do mesmo jeito: metade do país se desespera. Os romances políticos ensinam uma lição preciosa: apesar das circunstâncias, temos o poder de sermos senhores de nós mesmos. Quando não o fazemos, é por puro medo. Você sempre tem a escolha de se livrar dos tiranos individualmente.
Indico aqui cinco livros sobre a resiliência humana diante do poder: quatro romances e um testemunho.
Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos
Em 1936, Graciliano foi preso pelo governo Vargas, sem acusação formal. Sobreviveu ao cárcere ilegal de Getúlio e publicou uma obra autobiográfica riquíssima:
Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a delegacia de ordem política e social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer.
Record, 2013.
O Leopardo, de Tomasi di Lampedusa
Sicília, 1860: cai a dinastia dos Bourbon, sobe a casa de Savoia, e a velha aristocracia aceita que tudo mude para que tudo continue como está. Ao enviado do novo governo, que vem convidá-lo para o Senado, o príncipe responde:
Na Sicília, não importa fazer o mal ou o bem: o pecado que nós, sicilianos, nunca perdoamos é simplesmente o de “fazer”. […] O sono, caro Chevalley, o que os sicilianos querem é o sono, e eles sempre odiarão quem os quiser despertar, ainda que seja para lhes dar os mais belos presentes.
Tradução de Maurício Santana Dias, Companhia das Letras, 2017.
Sob a troca de regimes, revoluções e governos, a sociedade se refaz idêntica a si mesma. Os editores engajados da época recusaram o livro; ele sobreviveu a todos eles.
O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura
A história do homem que matou Trótski a mando de Stálin, contada por um escritor cubano que atravessa a fome dos anos 1990:
[…] tinha aprendido que a verdadeira grandeza humana está na prática da bondade incondicional, na capacidade de dar aos que nada têm não o que nos sobra, mas uma parte do pouco que temos. Dar até doer, e não fazer política nem pretender prerrogativas com essa ação […].
Tradução de Helena Pitta, Boitempo, 2013.
Padura é o Tolstói cubano: a robustez moral e a grandeza artística de um homem que vive pela liberdade, habitando no coração do autoritarismo.
A pirâmide, de Ismail Kadaré
Romance político magistral. O faraó Quéops, arquétipo universal do tirano, ergue a Grande Pirâmide e mantém um povo no cabresto pelo medo e pelos gastos públicos, geração após geração:
Cada faraó teria a sua pirâmide; dessa forma, quando uma geração de egípcios enlouquecesse de estafa e entorpecimento, surgiria um novo faraó, com sua pirâmide, para subjugar a geração seguinte.
Tradução de Bernardo Joffily, Companhia das Letras, 2000.
Kadaré, um mestre do romance, lutou bravamente contra o ditador Enver Hoxha e venceu.
Mancha Maldita, de Paulo Cantarelli
Os anos 1980, a década perdida que se tentou apagar da memória nacional. Na zona da mata pernambucana, uma família de senhores de engenho afunda com os tempos de crise. A economia não move a cultura, mas é o cenário do drama: o hedonismo caminha com a degradação dos valores, da família e do dinheiro. E, sob a decadência, os padrões da família patriarcal de Gilberto Freyre.
Olhou para a casa, em sua imponente altura, condensação de uma soberba secular; logo ela também seria pó. […] De que importariam as glórias do mundo, se toda beleza externa e material pereceria? […] Tudo aquilo era pequeno, pois o artista trabalhava com a alma na eternidade […]. Apenas isto importava: o trabalho do verdadeiro artista ficava marcado, não na memória dos homens, efêmeros filhos do barro, mas no coração de Deus.
Alta Books, 2026, p. 8–9.
Escrevi este romance na escola dos mestres desta lista: Lampedusa, Graciliano e Kadaré. O doutor em Filosofia Hilton Boenos Aires, estudioso de Freyre, leu o romance com lentes sociológicas: “Para além do valor literário, atribuo a Mancha Maldita um valor sociológico muito marcante.”
Nenhuma canetada muda a cultura
Eleição não muda nada no Brasil. As pessoas continuam analfabetas, os políticos continuam corruptos, mas há algo acima dessa lama toda: a religião, a filosofia, a literatura, a arte. Estudem, lutem pela sua própria sanidade, aprendam a viver alheios aos governos. Nada que importa pode ser mudado numa canetada, principalmente a cultura.
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