As Fronteiras da Ficção: trechos da entrevista sobre “Mancha Maldita”

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5–8 minutos

“O gênero literário precede a obra como a lógica precede a equação matemática”. Numa entrevista inédita, reconstruo o processo e os desafios de escrever literatura no Brasil.


Em julho de 2024, dois meses depois de terminar Mancha Maldita, recebi em Ciudad del Este o amigo Samuel Hernandes, bacharel em Letras e pesquisador, um dos primeiros leitores do livro, ainda durante a escrita. O romance trata da derradeira queda de uma família de senhores de engenho pernambucanos, nos anos 80; a conversa foi sobre a composição dele, as personagens, os temas e a formação do escritor. Durou uma garrafa de rum, pouco mais de uma hora, e virou As Fronteiras da Ficção, uma entrevista de quase 50 páginas.

Na primeira, falo de como o livro foi construído: de onde veio o título, por que começou como uma tragédia de vingança e deixou de ser, e as escolhas técnicas, como o discurso indireto livre, a falsa terceira pessoa e a extensão dos capítulos.

Depois que Flaubert imortalizou o discurso indireto livre, em Madame Bovary, não há como não o empregar; sem isso, o romance fica pobre. Quem não sabe utilizar o discurso indireto livre produz narrativas primárias. Há mesmo uma cisão na história da literatura; James Wood chega a dizer que os escritores deveriam agradecer a Flaubert como os povos primitivos agradeciam à primavera. Há um antes e um depois, e a diferença de qualidade é nítida: os autores que recorrem a monólogos filosóficos se estendem por páginas e mais páginas, apenas para expressar coisas pensadas e repensadas pela filosofia, de modo expositivo, ensaístico, o que é algo completamente anti-dramático, senão incompatível com os gêneros narrativos. Uso o discurso indireto livre e a falsa terceira pessoa, em monólogos interiores ou em diálogos, pela sofisticação, mesclando narrativa e drama interior das personagens; é questão de bom gosto e de bom senso dar-lhes voz sem cair no enfado.

Para mim, o romance é obra que se lê aos poucos, devagar; nada de parar uma tarde e ler tudo.

Na segunda, das personagens: quais nasceram de um plano e quais apareceram sem pedir licença, o que tomei de pessoas reais e por que nenhuma delas é biográfica (até porque não venho de uma família de senhores de engenho).

E, reitero: não sou Rodrigo, nem ele é meu alter ego; Jezabel não é minha mãe, nem meu pai é Aurélio. Esse romance — à exceção de elementos factuais, sempre somados à imaginação, para criar dispositivos dramáticos —, não possui nada de biográfico. As pessoas têm certa dificuldade de entender isso. Nem sempre me inspiro em quem conviveu muito comigo. Certas vezes, a inspiração pode vir de pessoas com quem convivi pouquíssimo, mas que me marcaram de alguma maneira; num gesto, como um sorriso discreto, uma olhada de canto. Rouba-se conforme convém. Mas, por regra, todas as personagens são figuras inventadas, puramente fictícias. De certa forma — porque vieram de mim —, eu sou todas elas e nenhuma ao mesmo tempo.

Falo também de Rodrigo, que é escritor e passa boa parte do romance às voltas com um livro. É uma criação que tem em Graciliano o seu mestre: em Caetés, São Bernardo e Angústia, os narradores também escrevem, ou tentam escrever. Quis tomar um caminho distinto do dele, ainda que fosse inevitável cruzá-lo.

Na terceira, dos temas: a decadência de uma família, o Brasil dos anos 80, a maldade feminina que a nossa literatura quase não retrata, o insulamento do brasileiro; e o lugar das ideias das personagens no drama.

Há um grande problema, no Brasil, de se perceber a maldade feminina. Não sei se por falta de leitura, se por provincianismo, talvez por uma forte herança católica, que toma a Virgem Maria como ideal de mulher. Ter uma perspectiva cristã profunda da mulher, em seu lado divino, é admirável; mas faltam exemplos do profano feminino em nossa literatura.

Retrato padres comunistas, capitalistas de compadrio, políticos corruptos — e qual não é? —, sindicalistas, conservadores, gente comum do povo: todos têm ideias próprias e tento representá-las sem viés, julgamentos morais ou filosóficos. A consequência das ações deve bastar.

Não falo pela boca das personagens, nem faço do romance um púlpito: as ideias estão ali para entrar em conflito, não para convencer.

Na quarta, da formação do escritor: uma técnica que uso, a de tomar ideias de outros autores e condensá-las nos monólogos das personagens; o conto como escola; as influências, da Bíblia e de Homero a Shakespeare, à tragédia grega, a Flaubert e a Dante; e o que eu diria a quem está começando.

Samuel quis saber se concordo com o que pensam as minhas personagens. Muitas das ideias delas vêm de outros autores, numa espécie de refundição poética, em que a filosofia vira drama; é o caso da carta de Rodrigo, no capítulo 15, em que ele diz querer “retratar a vida de um povo”:

Esse trecho resulta de uma técnica que usei ao longo do romance: tomar passagens de filósofos e pensadores para condensá-los em monólogos artísticos. Não são ideias propriamente minhas, como poderia se imaginar. Esse trecho, em específico, é referência ao ensaio Instinto de nacionalidade, de Machado de Assis, que ainda no século XIX afirmava, em linhas gerais, que o artista deve saber retratar o universal no particular; nada de novo sob o sol, tudo está nos gregos e romanos.

Costumo dizer aos meus alunos: quem não escreve uma página bem escrita jamais escreverá um romance bem feito. Há belíssimos contos de uma página: um dos melhores, a meu ver, é Continuidade dos parques, de Júlio Cortázar. Hoje parece que devemos pedir desculpa por dizer que um romance deve ser belo, que um conto deve ser belo. A Beleza é o fim da obra de arte, mas há essa idolatria do grotesco, do disforme, do pervertido.

O jovem escritor terá de enfrentar o mundo com uma volição concentrada, férrea, tendo que aprender a comportar-se como os grandes desde o início. Não pode se deslumbrar com aplausos, prêmios, ou simples publicações. Precisará de afinco e de um ethos fortíssimo de artista; mais que uma simples ética, um ethos, um caráter. Terá de aprender a técnica, atacada pelos medíocres, que a diminuem na tentativa de se engrandecer. Todos os grandes artistas tinham procedimentos muito claros, ainda que nem sempre racionalizados no instante da criação. O escritor iniciante deve formar-se estética, intelectual e moralmente. Terá de encarar isso, se quiser de fato ser escritor, não um fingidor, uma fraude que busca o lugar ao sol, os prêmios, a badalação. Este é o conselho que tenho para dar: não pareça um artista, seja.


Leia a entrevista completa

Capa da entrevista As Fronteiras da Ficção: Paulo Cantarelli, em preto e branco, segura um livro aberto

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Ainda não leu? A entrevista fala do romance por dentro e rende mais a quem já o leu. Mancha Maldita está à venda na Amazon.

Errata. A primeira tiragem impressa saiu com alguns lapsos de revisão, que não prejudicam a leitura. Se o seu exemplar é dessa tiragem, a lista de emendas está em Errata de “Mancha Maldita” (1ª tiragem). Ela vale apenas para a primeira tiragem.

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