Ao ouvir um debate entre John Gardner e William Gass,1 é interessante notar quanto os escritores pós-modernos interpretam mal a moral na ficção. O próprio Gardner afirma, em seu On Moral Fiction,2 que toda arte é moral. Com isso, ele quer dizer duas coisas:
I. Uma obra de arte moral é fiel a suas regras integrais e à tradição literária.
Isto é, ela deve ser formalmente bem-feita, bela. Logo, é dever moral do escritor dar o melhor de suas capacidades e estar à altura de seus antepassados na tradição artística.
II. Ela promove moralidade.
Ou seja, provoca por si só, sem a necessidade de didatismo, uma atitude reflexiva profunda do observador, na qual ele analisará seus próprios valores em confronto com os expostos na obra contemplada.
Diante disso, o escritor William Gass tentou rebater os argumentos de Gardner dizendo que a função da arte é a beleza; o que, sim, é uma absoluta verdade. Porém, Gass não notou que ambos estavam se referindo a aspectos diferentes da literatura, sem que houvesse uma discordância real. Gardner fala da moralidade num sentido muito mais amplo, além da análise da técnica do texto ou mesmo do momento da escrita em si: ele se refere à própria cosmovisão3 necessária para ser um escritor. Nesse sentido, a ética precede a estética.
A busca da beleza como ideal artístico deve ser incentivada, mas nunca hipertrofiada: o texto deve ser belo em si, não “por si”. E aqui não me contradigo. Dito de outro modo: a beleza literária não reside nos exibicionismos e nas piruetas verbais duma estilística afetada — o texto pelo texto, por si mesmo —, mas justamente na capacidade do artista de esconder a linguagem, recriando a própria impressão de vida; beleza do texto em si, não por si. O bom escritor jamais quebra o sonho ficcional chamando mais atenção para sua própria escrita do que para o que é mostrado.
Tanto no poema quanto na prosa, mais bela será a obra literária quanto melhor fundir seu conteúdo a sua forma, tornando a maneira de escrever indistinguível daquilo sobre o que se escreve, sem que aquela experiência possa ser expressa de outro modo. Nesse sentido, lembra-nos Flaubert: “as obras mais belas são as que têm menos matéria; mais a expressão se aproxima do pensamento, mais a palavra cola em cima e desaparece, maior é a beleza”.4
A arte serve à beleza, mas a beleza artística, à condição humana. O belo artístico sem a condição humana é um ídolo vazio e sem vida, feito o bezerro de ouro idolatrado pelos filhos de Israel: pode até brilhar, mas não contém o sopro divino da criação. Uma arte fútil, “vazia”, sem profundidade humana, jamais será bela, pois lhe falta exatamente aquele sopro de vida que torna a arte tão irresistível ao homem: ela o lembra de quem realmente é neste mundo e o liga a seu eu mais profundo e eterno. Sem medo de me contradizer, afirmo que somente nesse sentido há a busca pela verdadeira Beleza; busca que, sozinha, basta ao verdadeiro artista, pois o levará, inevitavelmente — e digo por experiência própria —, a algum confrontamento maior sobre os verdadeiros sentidos da existência.
Gardner de maneira alguma descarta a importância formal da técnica, ou a deixa em segundo plano — tanto que esse é o primeiro significado de “arte moral” —, nem descarta o que Flaubert, ao escrever, questionava a si mesmo: sim, o estilo está bom… Mas bom para quê? Porém, isso pode não parecer tão óbvio num primeiro relance das afirmações de Gardner.
A grande dificuldade que se apresenta, quando lidamos com a crítica de arte, é a abstração analítica. Ao criticarmos uma obra, devemos separar intelectualmente aquilo que, na realidade, não se separa: analisá-la do modo mais didático possível e tratar de cada aspecto isoladamente, dos mais superficiais aos mais profundos, na esperança de que o leitor consiga remontar as peças e restituir o todo da experiência crítica — o que nem sempre ocorre. Esse processo deveria elucidar pontos que passariam despercebidos a um leitor menos atento ou menos aculturado, criar ligações entre uma obra e outras e oferecer a própria explicação poética de certos efeitos, que não cabe ao artista explicar. A crítica, em seus melhores momentos, é uma ponte entre o leitor e a tradição literária.
Foi então que Gardner perguntou a Gass: diante de dois trabalhos de estilo impecável, um que lhe pareça falso e outro verdadeiro — no qual o escritor deu o melhor de si tentando expressar, em cada palavra, algo que sente verdadeiramente —, qual dos dois você escolheria?
A resposta de Gass, obviamente, foi a segunda opção.
Talvez isso explique o porquê de alguns clássicos impróprios serem considerados clássicos pela maioria dos leitores: mesmo que aquelas narrativas tenham propriedades formais falhas, e mesmo que se desviem das funções originais do discurso poético para provar certo ponto ou ideia, caindo na retórica fácil, algumas delas se sustentam, por vezes, numa experiência verdadeira e singular da vida. Em outras palavras: não são os méritos propriamente — ou exclusivamente — literários que a maior parte dos leitores leva em conta nesse tipo de leitura. Isso explica o apego emocional do público, ou mesmo da crítica, a certos autores mais desleixados com a forma — Dostoiévski, Balzac, Lima Barreto —, mas que “marcaram época”. Não é meu intuito, neste ensaio, expor minhas visões críticas acerca desse tipo de autor.
Creio, porém, nunca ter encontrado uma explicação para os autores em que ocorre a situação inversa: trabalhos tidos como consagrados que, teoricamente, teriam um acabamento formal impecável, porém não possuem verdade ou profundidade alguma. É o caso daqueles poetas parnasianos cujos versos coloridinhos e sonoros são iguais a bolhas de sabão: completamente ocos. Dessas obras, sobre virgens cem por cento que envelhecem sem maldade, a literatura brasileira está abarrotada.
Quando dizemos que, na apreciação artística, a moral não se confunde com a beleza, dizemos uma verdade; basta dar uma lida nas narrativas clássicas. De Édipo a Hamlet, da Ilíada a Madame Bovary, suspendemos momentaneamente nosso próprio juízo moral para entrarmos na pele das personagens, e só então julgamos e sentimos o mundo através do olhar delas, independentemente de concordarmos ou não com suas ações.
Portanto, Beleza, Bem e Verdade são valores transcendentais que não necessariamente se confundem (ou nem sempre sua relação é tão clara), cada qual com seus respectivos domínios e formas de julgamento. Essa independência é ótima para o artista; afinal, ele tem apenas a responsabilidade de retratar a realidade numa forma bela. Porém, concluir daí que bem e verdade estão completamente fora da obra de arte é um erro dos mais crassos. Como eu já disse, toda boa arte — a literatura em especial — é constituída, além dos elementos formais, dos elementos materiais, que subsistem da própria vida humana. E da vida não escapam bem, verdade e beleza. Todo conflito, numa narrativa, se constrói com base nos dilemas morais do ser humano: ser ou não ser, agir ou não agir, matar ou morrer?
Há belezas que, de certo modo, poderiam ser consideradas falsas e, até mesmo, imorais. Mas não é porque as tragédias de Édipo e Hamlet são hediondas que vamos deixar de nos compadecer deles; não é porque Emma Bovary é adúltera que a condenaremos. Ao vivenciarmos o sofrimento humano, habitando a pele de outro num sonho vívido e contínuo, reconhecemos a nós mesmos no outro e notamos que, dadas aquelas circunstâncias, talvez não agíssemos de modo muito diferente; eis o terror e a compaixão descritos por Aristóteles. As tragédias daquelas personagens são belas e continuarão sendo, pois a moral, a verdade e seus inversos, dotados dum acabamento formal, se transformam num objeto de beleza e contemplação. E, quem sabe, não aprendamos algo com isso?
NOTAS
1. Debate realizado na Universidade de Cincinnati, em outubro de 1978, registrado em áudio pelo Elliston Project e disponível em mp3 no endereço eletrônico: https://drc.libraries.uc.edu/handle/2374.UC/697052. A transcrição foi publicada em: GASS, William H.; GARDNER, John. “William Gass and John Gardner: a debate on fiction”. Mediação de Thomas LeClair. The New Republic, 10 mar. 1979. Disponível em: https://medium.com/the-william-h-gass-interviews/william-h-gass-interviewed-by-thomas-leclair-with-john-gardner-1979-e6de4d424107. Gass sustenta que “a beleza tem de vir primeiro”. Gardner resume assim a posição do adversário: “diante de dois livros bem-feitos, um que lhe pareça absolutamente verdadeiro e outro que não corresponda ao que ele afirmaria na própria vida, Bill [Gass] ficaria, segundo ele mesmo, com aquele que julga verdadeiro”. Gass concorda, com uma ressalva: “Sim, mas isso é apenas querer dar densidade à experiência. […] O autor de tal obra seria um bom filósofo ou um nobre santo, e também um artista. Mas não é um bom artista por ser um bom filósofo ou um nobre santo”. Tradução livre. ↩︎
2. GARDNER, John. On Moral Fiction. New York: Basic Books, 1978. ↩︎
3. MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. 12. ed. São Paulo: Cultrix, 2013. p. 93: “COSMOVISÃO: Gr. kósmos, universo, mundo, visão, lat. visio, onis, visão, faculdade de ver. Sinônimos: ‘mundivivência’, ‘concepção de mundo’, ‘visão do mundo’, Al. Weltanschauung.” ↩︎
4. FLAUBERT, Gustave. Carta a Louise Colet, 16 jan. 1852. ↩︎
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