A falsa terceira pessoa é uma técnica que se confunde com outras que já expus, como a teoria dos narradores e o olhar do personagem. É a técnica onde o foco narrativo (a pessoa em que o texto é narrado) se confunde com o ponto de vista (opinião/visão de mundo) das personagens. Portanto, em “Vidas Secas”, temos sempre o foco narrativo em terceira pessoa com o ponto de vista de uma primeira pessoa. Esses pontos de vista circulam, se alteram, ora é de uma personagem, ora de outra, mas nunca é do narrador. É nisso que consiste a Falsa Terceira Pessoa, e para compor o narrador relator, ou narrador oculto, precisamos dela.
Diz Graciliano Ramos sobre o livro “Porão”, de Newton Freitas:
“O autor só nos mostra a parte externa dos indivíduos. As suas personagens andam bem, falam, mexem-se. Notamos os seus movimentos, e vemos que elas pisam, mas não percebemos o interior delas. Estão atordoadas, evidentemente, não podem pensar direito, mas teria sido bom que os acontecimentos se apresentassem refletidos naqueles espíritos torturados. Seria preferível que, em vez de vermos um soldado empurrando brutalmente os presos por uma escada com o cano de um revólver, sentíssemos o que a reação do soldado, a pistola e a escada provocaram na mente dos prisioneiros. Tendo da multidão que nos descreve uma visão puramente objetiva, Newton esgotou o assunto depressa e a narrativa ficou curta.”
Aí está um ponto fundamental: sem o peso do efeito psicológico, os gestos tornam-se ações objetivas exteriores às personagens; descrições vazias, sem tom, função ou efeito: “fulano fez isto, aquilo, depois aquilo outro”. Não há profundidade na narrativa, é preciso haver também uma visão interior, subjetiva.
Mas como fazemos isso? Como escrevemos? E ainda mais, como escrevemos sem sermos óbvios? Graciliano nos dá a resposta no início de Vidas Secas:
“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelado da catinga rala.
Arrastaram-se para lá, devagar, sinhá Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra baleia iam atrás.
Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.“
Preste bastante atenção:
“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes.”, temos uma visão exterior que reflete a agonia dos personagens, com um verbo “alargar” dando dimensão humana ao cenário. Na verdade, o que alargava eram os olhos cansados e famintos. Em seguida “Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos”, observam que, em duas frases, Graciliano mostra o cenário (objetividade) onde os personagens sentem-cansaço e fome (subjetividade). Por fim “A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da caatinga rala” fecha o primeiro parágrafo com uma visão exterior. O conflito das personagens está na visão interna.
O segredo deste início está na montagem, na ordenação das frases. A primeira delas, “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes”, poderia muito bem ocupar o lugar da última, “A folhagem dos juazeiros apareceu longe através de galhos pelados da caatinga rala”, e vice-versa, mas o autor preferiu a densidade e a rapidez da primeira, ressaltando as cores da seca. É o típico cenário em que predominam as impressões psicológicas do personagem.
Veremos agora a montagem do parágrafo:
“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. [Movimento 1] + [Movimento 2] + [Movimento 3]. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da caatinga rala.”
Notamos duas frases, de abertura e de fechamento, separadas por outras três. Nos movemos entre imagens interiores e exteriores. Um absoluto domínio sobre a técnica. Depois de um novo parágrafo, mais duas frases humanizadas pela psicologia das personagens, com imagens concretas nos dois planos :
I – Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se.
II – O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.
A primeira frase cria o sentimento interior do personagem com aspecto exterior. É uma imagem concreta através do olhar da personagem: a cena é construída pelo olhar do menino mais velho que está prestes a desmaiar. É ele quem vê os juazeiros aproximarem-se, recuarem e sumirem. Só temos essa confirmação quando Graciliano escreve “O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.”
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