Primeiro amor por Turguêniev

·

·

3–4 minutos

Meu primeiro contato com a literatura russa foi com Dostoiévski, que serve de porta de entrada à Rússia para leitores do mundo inteiro. Depois vieram Gógol, Púchkin, Tchekhov e, inevitavelmente, Tolstói. De todos, hoje considero Dostoiévski o menor em aspecto de estilo e qualidade artística (ainda falaremos mais disso para o fim da indignação geral).

Um dos últimos autores em minha lista, na época, a quem não conhecia e, definitivamente, teria lido com muito prazer antes de me debruçar sobre Crime e castigo, era Ivan Turguêniev. Por indicação do escritor Raimundo Carrero, comprei um exemplar de Primeiro amor (Editora Penguin), cujo título não me agradou de início, assim como A educação sentimental, de Flaubert. Tanto que evitei a leitura por algum tempo.

Porém, para minha surpresa, não encontrei nada de melodramático nessa narrativa de pouco mais de cem páginas. Pelo contrário: Turguêniev tem uma prosa afiadíssima, incisiva, precisa e bela, assim como a de seu amigo e admirador, Gustave Flaubert.1

Eu caminhava de cabeça baixa. De repente, ouvi vozes; olhei para o outro lado da cerca — e fiquei petrificado. Um espetáculo estranho apareceu diante de meus olhos.

A poucos passos de mim, numa clareira, entre arbustos verdes de framboesas, estava uma menina alta e formosa, num vestido de listras cor-de-rosa e com um lencinho branco na cabeça; em torno dela se aglomeravam quatro jovens, e ela batia alternadamente na testa deles com pequeninas flores cinzentas […]. Minha espingarda escorregou e caiu no chão, esqueci tudo, devorei com o olhar aquela cintura esbelta, o pescoço, as mãos bonitas, os cabelos louros, ligeiramente despenteados por baixo do lencinho branco, os olhos inteligentes semicerrados, as pestanas e a face tenra abaixo delas…

Nessa cena vemos, através de um perfil físico-psicológico, as primeiras manifestações de interesse pelo sexo oposto, o primeiro deslumbramento e espanto diante de uma beleza idealizada, além dum primeiro erotismo singelo (a moça estava sendo cortejada por rapazes).

As descrições de Turguêniev são leves e sonoras; líricas sem falsificação: temos a objetividade da prosa somada ao lado psicológico (subjetivo) do narrador em primeira pessoa. Isso nos dá a leveza e o impacto do texto. São descrições que pensam: vemos cenários psicológicos aliados a pequenos monólogos interiores que seduzem o leitor ao longo da narrativa.

Através dos olhos de Vladimir Petróvich, numa regressão aos seus dezesseis anos de idade, vemos a angústia, a alegria e, acima de tudo, a dor da hesitação no primeiro amor de um jovem. Não só isso, vislumbramos um pouco o estilo de vida russo. As relações sociais da Rússia czarista, pós-abolição da servidão pelo czar Alexandre II, em 1861 — ato que libertou mais de 20 milhões de servos que viviam sob regime de escravidão velada —, são retratadas com maestria em breves cenas, que dão atmosfera e tom à novela: crianças trabalhando em uma fábrica de papel de parede ou uma velha pobre que morre na última cena, por exemplo. Também são retratadas a decadência da nobreza e a ascensão de uma burguesia acostumada a cargos públicos e suas regalias, adquiridos por mérito — assim como em A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói.

Engana-se quem pensa, por meu relato, que Primeiro amor é uma leitura lúdica; ao terminarmos, notamos que é, na realidade, uma leitura cruel. O quadro do humano é pintado em toda sua beleza e decadência. As falas das personagens são organizadas de maneira quase teatral. A ação dá-se em torno das oposições de conflitos e das crises; isto é: vontades contrárias que se acirram de modo a gerar uma perturbação, elemento que faz o protagonista reagir ou, neste caso, hesitar. A hesitação através de monólogos internos e cenários psicológicos é uma das peças-chave em Primeiro amor. As vozes da narrativa, a fala de cada personagem, as divagações do narrador, cada diálogo é o estalo de um chicote: rápido, preciso, e que move o texto adiante. É uma leitura obrigatória.


NOTAS

1. TURGUÊNIEV, Ivan. Primeiro amor. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Penguin-Companhia das Letras, 2015. ↩︎

Comments

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *