Vozes narrativas e discurso indireto livre

Hoje é dia de aprofundar um pouco mais nas técnicas literárias. Falaremos sobre o discurso indireto livre e vozes narrativas.

Mas o que é voz? Em teoria musical, voz é cada uma das partes numa composição, isto é, cada uma das músicas interpretadas por instrumentos individuais. Numa peça de Bach, por exemplo, é possível ouvirmos várias vozes distintas e independentes, mas que formam uma composição harmônica. Na literatura ocorre algo semelhante, podemos ler diferentes personagens, com diferentes estilos, se manifestando ao longo do texto. Então, podemos definir voz como o discurso de cada uma das personagens de uma narrativa.

Nós conhecemos bem o discurso direto na literatura, que é quando a voz do narrador e da personagem se distinguem, de forma que a voz da personagem é dada independentemente da voz do narrador, porém poucos conhecem ou sabem utilizar o discurso indireto livre, que mescla as vozes narrativas. Falaremos mais adiante no jogo de vozes e na polifonia, mas antes, devemos aprender a identificá-las. Tomaremos por exemplo uma passagem de Madame Bovary, com as três formas de estilo: direto, indireto e indireto livre. Neste trecho, localizado no final do Capítulo II, temos o ponto de vista da primeira esposa de Charles Bovary, Heloíse:

E passou a detestá-la instintivamente. A princípio procurou alívio nas indiretas, que Charles não entendia; depois em reflexões e incidentes, a que ele não dava importância com medo de alguns tempestade; finalmente, em apóstrofes à queima roupa, às quais ele não sabia o que responder. Qual era o motivo que ele continuava a ir nos Berteaux, uma vez que Rouault já estava curado e ainda não pagara! Ah! É que lá havia uma pessoa que sabia conversar, uma pessoa prendada, uma briga inteligência. Era disso que ele gostava; o que ele queria era moças da cidade! E prosseguia:

— A filha do Sr. Rouault, moça da cidade! Ora adeus! O avô era pastor e eles até têm um primo que esteve a ponto de sentar-se no banco dos réus, por causa de uma briga. Não valia a pena fazer tanto barulho, nem mostrar-se aos domingos na igreja, de vestido de seda, como uma condessa. Pobre velho, que, se não fossem as colzas do ano passado, ver-se-ia muito atrapalhado para pagar suas dívidas atrasadas.

Fatigado, Charles deixou de ir aos Berteaux. Heloíse fizera-o jurar com a mão sobre o um livro de missa que não voltaria lá; isto depois de muitos soluços e muitos beijos, numa grande explosão de amor.”

DISCURSO DIRETO

Tem esse nome pois reproduz direta e literalmente as palavras pronunciadas pelas personagens. Na narrativa tradicional, convém que essas falas sejam precedidas por travessão e introduzidas pelos verbos dicendi, embora na narrativa moderna ambos sejam dispensáveis. No exemplo de Mme. Bovary, temos a fala direta de Heloíse:

E prosseguia:

— A filha do Sr. Rouault, moça da cidade! Ora adeus! O avô era pastor e eles até têm um primo que esteve a ponto de sentar-se no banco dos réus, por causa de uma briga. […]”

Neste ponto temos a nítida voz da personagem separada da do narrador, que enuncia a mudança de voz com o “e prosseguia”.

DISCURSO INDIRETO

Aqui o narrador reproduz na própria voz o que as personagens disseram ou dizem. É precedido pela preposição “que”. Ex: disse que, falou que, contou que, etc…

No texto, vemos o discurso indireto em:

Heloíse fizera-o jurar com a mão sobre o um livro de missa que não voltaria lá […]”.

Aqui vemos uma única voz, a do narrador, que resume as falas de Heloíse e Charles.

DISCURSO INDIRETO LIVRE (OU ESTILO INDIRETO LIVRE)

Eis a sofisticação máxima atingida por Flaubert, e que mudou para sempre o romance moderno. O estilo indireto livre incorpora a voz da personagem à voz do narrador, ambas confundem-se. Não há travessões nem verbos dicendi, aspas, itálico, ou quaisquer marcações. É uma variante do estilo indireto, com a diferença que, desta vez, é a personagem que entrecorta a voz do narrador, não o contrário. Permite que entremos na mente das personagens sem a necessidade de dizer “pensou Heloíse”, no trecho:

finalmente, em apóstrofes à queima roupa, às quais ele não sabia o que responder. Qual era o motivo que ele continuava a ir nos Berteaux, uma vez que Rouault já estava curado e ainda não pagara! Ah! É que lá havia uma pessoa que sabia conversar, uma pessoa prendada, uma briga inteligência. Era disso que ele gostava; o que ele queria era moças da cidade! E prosseguia:

Em “finalmente, em apóstrofes à queima roupa, às quais ele não sabia o que responder”, temos a voz do narrador. Porém a partir de “Qual era o motivo que ele continuava a ir nos Berteaux”, temos a voz de Heloíse, na forma de seus pensamentos. Não há enunciação, mas temos uma pista de que é a voz dela em:

Era disso que ele gostava; o que ele queria era moças da cidade! E prosseguia:

— A filha do Sr. Rouault, moça da cidade! […]”

Momento algum foi mencionada a expressão “moças da cidade”, de forma que Heloíse não poderia saber o que o narrador estava pensando, logo, esta é a voz dela.

O discurso indireto livre não se confunde com o falso monólogo interior nem com a falsa terceira pessoa, como gostam os americanos de dizer. O falso monólogo interior e a falsa terceira pessoa são recursos parecidos, porém distintos, de que trataremos em outro momento. Por ora, isto basta.

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