Por que desisti de ser um ‘intelectual público’

Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus.” – Eclesiastes 3:1

Hoje à tarde, ao sair de casa, sob uma fina garoa de inverno, deparei-me com um cenário interessante: ao longe, entre uma claridade difusa e a névoa, os galhos das árvores agitavam-se feito as patas de cavalos alados. Talvez o ritmo, talvez o formato das folhas, ou mesmo o vento frio que cortava meu rosto – o mesmo das cavalgadas de infância –, me lembraram o galopar dum cavalo. Assim funciona a mente criativa: ela associa coisas “inassociáveis” aos olhos comuns. Tratei de anotar a imagem e os detalhes que me servirão, um dia, para escrever alguma cena de conto ou romance.

A Literatura é feita dos detalhes, a tal ponto que o artista precisa estar num determinado estado de espírito – poroso à realidade do mundo, das coisas e dos homens – para que possa criar. Há pouco mais de um ano não publico mais artigos de Literatura, e os programas do Podcast Entender Ficção seguem o mesmo rumo. Por quê? Simples: desisti de ser um intelectual público.

Recentemente, me mudei de meu querido Recife, cidade na qual habitam meus contos e boa parte de minha imaginação, para uma pacata cidade de interior, nas serras, onde posso ao menos brincar de inverno (que original, não é mesmo?). Uma tentativa de me livrar das distrações burguesas que só o tempo me dirá ser eficaz. “Viva como um burguês e pense como um semideus”, aconselha Gustave Flaubert. Acordo todos os dias ao lado da mulher que amo, resolvo meus afazeres domésticos, tenho tempo e silêncio de sobra para escrever e refletir; afinal, todo escritor é um tipo peculiar de pensador. Nos últimos anos, é verdade, deixei um pouco de lado meu ofício de artista para me dedicar ao da crítica; e tive frutos, devo reconhecer, satisfatórios, apesar do amargor. Ganhei amigos leais, leitores fiéis, alguns dos quais tive a honra de ter como alunos; mas também ganhei desavenças, inimizades e dores de cabeça gratuitas.

No Brasil, infelizmente, não há debate público. Há uma mixórdia demoníaca de achismos, opiniões desencontradas e mau-caratismo; é o festim dos charlatões. Que o público dito “leigo” não conheça os pormenores técnicos de uma determinada área do conhecimento, isso já seria esperado; mas quando os pretensos especialistas não conhecem esses pormenores, é algo no mínimo alarmante. Nesse caso, é impossível mesmo tentar uma argumentação, já que um debate propriamente dito só é possível quando ambos os lados possuem ideias consolidadas. Entre revolucionários e reacionários, o despreparo é algo patente (o encontrei menos no público leigo do que entre os “formadores de opinião”, que se supõem especialistas). Presenciei casos e mais casos de pretensos críticos literários semianalfabetos ou analfabetos funcionais (e isso não é um exagero, mas constatação factual, como expus em outros artigos).

É preciso, para que nosso meio intelectual seja minimamente decente, uma verdadeira fogueira das vaidades. Mesmo aqueles, artistas ou não, propensos a algum talento – ou, pior, com talento real – terminam se perdendo numa orgia dantesca de soberba e leviandade. Nada novo sob o sol. Também testemunhei casos tristes de quem tivesse muito potencial, mas se deixou desanimar pelo ambiente, acreditando haver apenas duas possibilidades: ou corromper-se bajulando e sendo bajulado, ou ser ostracizado por dizer verdades inconvenientes. Já a nossa Crítica, por sua vez, é infantil e emocional, afetiva: apega-se demasiadamente ao subjetivismo e descarta toda objetividade. Julga-se obras literárias com pesos e medidas diferentes, as que convirem: ao amigo (ou ideologia amiga), tudo, ao inimigo, nem a lei. Exalta-se muita porcaria e condena-se o que é bom por pura canalhice. Seja como for, não tenho esperanças de que o meio literário melhore. Se há mais alguém que faça um trabalho de excelência, atualmente, desconheço.

Também falta gente de coragem e de interesse sincero. Me decepcionei com quem eu acreditava ter algum valor: os ditos “colegas” raramente se interessam genuinamente pelo seu trabalho, e sequer erguerão um dedo para defendê-lo duma injustiça, disso já reclamava até Gilberto Freyre; mas senti este fato na pele – tão concreto quanto o espinho que fura a carne – quando absolutamente ninguém no Brasil, nem um único jornal, noticiou o escândalo internacional que, por infeliz acaso do destino, envolveu um plágio a meu livro em Angola. Enquanto lá, os jornais angolanos deram destaque e primeiras páginas à fraude envolvendo o maior prêmio do país (António Jacinto, dado pelo governo de Angola), aqui, nem mesmo jornalistas, que se diziam amigos meus, publicaram uma simples nota. Consegui, sozinho, que a notícia chegasse aos ouvidos do juri e que anulassem o prêmio. Alguns, que talvez leiam meus artigos por puro sadomasoquismo, me chamarão de autorreferente ou egocêntrico; não me dirijo a eles. Este é apenas um dos exemplos – talvez o mais sintomático – que eu mesmo vivi, e que expõe quão desinteressados são os intelectuais, à direita ou esquerda, pelo trabalho “dos colegas”.

Virtudes são volúveis: uma vez pensado ou arrogado-se tê-las, somem. São difíceis de se adquirir, fáceis de se perder. E por isso resolvi me distanciar do “debate”, para manter em mim a humanidade necessária para continuar meu ofício de escritor. É que, ao se deparar com tipos vis e asquerosos, é difícil não cair na maledicência, no escárnio, no ressentimento, na resignação forçada por um sentimento de superioridade ferida. Em suma: o mal existe no mundo e, ao nos depararmos com ele, temos de ter cuidado para que, crendo combatê-lo, não nos transformemos nele utilizando-nos de seus meios. A corrupção da alma é tentadora.

Outro fator que me levou a diminuir parte da atuação pública é que os algoritmos das mídias sociais são propensos ao efêmero e ao fútil: há um volume crescente de “conteúdo” publicado todos os dias, e, para se ter destaque, é preciso manter um fluxo de publicações que não condiz com uma vida intelectual séria. Esse termo, aliás, foi prostituído a tal ponto que qualquer blogueiro ou vlogueiro se acha Aristóteles renascido por ter lido um ou dois livrinhos, recém-descobertos, e gravado um curso sobre eles. Nunca fui do tipo que tem prurido por holofotes, então creio que meus leitores se beneficiarão mais de um conteúdo esporádico, sazonal, mas denso e profundo, que de publicações diárias ou semanais, mas rasas. Além da veracidade filosófica, gosto de dotar meus textos de esmero artístico, mesmo os não ficcionais, sejam breves artigos ou ensaios mais longos; e isso, por si só, requer bastante tempo e esforço. Como já disse muitas vezes, me interessa antes o êxito, pois o sucesso é secundário.

Aos leitores interessados, não se preocupem, não abandonei totalmente meu trabalho público, de “produção de conteúdo”; as coisas continuarão mais ou menos como estão, em fogo brando. Pretendo retomar os podcasts e voltar a escrever artigos de crítica literária, quem sabe até começar outros projetos culturais que tenho em mente, mas de modo pontual, por puro gosto e deleite intelectual, sempre que eu tiver algo relevante a dizer. Apenas desisti de ser um intelectual público, no sentido de publicidade: há ideias e valores que a massa ignara e burguesa escoiceia por estarem fora de seu alcance; certos conhecimentos não são, nem devem ser, disponíveis a todos. É preciso que se pague um preço pelo gênio.

É por esses motivos que, nos últimos tempos, optei por me tornar um intelectual recluso: acredito que me dedicar à escrita e a meus alunos, em cursos e oficinas, me dará os melhores frutos, já que esse conteúdo, sim, é do interesse das pessoas sinceramente mais interessadas em Literatura.

Até logo,

Paulo Cantarelli, 27/06/2021

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