O inferno do belo

Que certas belezas possam ser consideradas falsas e outras imorais, não há dúvidas. Pela mesma lógica, talvez fosse possível admitir um feio considerado moral ― o feio dos querubinzinhos pintados a guache que a vovó mantém ao lado da televisão coberta com uma renda de crochê, talvez ―, porém o mais comum é que relacionemos o belo àquilo que é bom ou verdadeiro. Quando educamos crianças pequenas, as elogiamos com um “que bonito”, quando fazem uma boa ação, e as repreendemos com um “que feio” quando mentem ou fazem algo de errado. A beleza, em nossas consciências, está atrelada ao que é bom e verdadeiro. Como consequência, numa sociedade em que se tem dificuldades para se distinguir belo de feio, há também problemas em distinguir certo de errado.

É espantoso o fato de que, por onde se olhe, haja tantos ataques à beleza. A afronta à beleza tradicional não se trata mais de um protesto contra as cafonices e o kitsch da vovó octogenária, mas de algo muito mais cruel e sinistro. Não há mais espaço no mundo para o belo; uma fealdade escandalosa tornou-se norma na arquitetura, na literatura, nas artes plásticas e mesmo como parâmetro da beleza humana. Prédios que mais parecem caixões, ruas cinzentas, exposições que nada têm a ver com arte em museus, tatuagens dos pés à cabeça e corpos expostos ao ridículo por qualquer coisa. A nudez mais nada significa: o corpo, mera coisa, e a beleza humana, reduzida ao corpo. E o corpo, talvez aquilo que temos de mais particular nesse mundo material, no qual inexiste mente e os aspectos metafísicos da existência, se perde em banalidades, deformações e descuidos. A tal da “body positivity” tornou-se desculpa para o desleixo, preguiça e gula; são tidos como características positivas obesidade, diabetes e enfermidades que afligem o corpo. Há a guerra contra a masculinidade: ações belas e nobres como o cavalheirismo, a defesa daqueles que amamos, ou mesmo o heroísmo de outras épocas, perdem espaço para atitudes mesquinhas e covardes. O Aquiles do Século XXI seria vegano e fugiria do serviço militar obrigatório alegando que suas crenças pessoais não o permitem ir à guerra.

Falando em crenças, a religião ― leia-se cristianismo ― tornou-se maligna e obscurantista. Não interessa quão grandes tenham sido as contribuições dessa tradição para as artes e cultura no ocidente. Uma obra como “O Divino e o Humano”, de Tolstói, seria vaiada pelos críticos sob acusações de moralismo. O melhor é mergulhar um crucifixo em urina e profanar objetos sacros da religião (dos outros… contanto que esse outro seja homem e branco). Sob pretexto de progredir, o mundo terminou por regredir.

Mas por que destruir a beleza? Por que destruir um dos poucos elementos que tornam a vida suportável? Porque uma vida sem beleza é uma vida sem sentido. O homem entrega-se aos vícios e prazeres baratos, sem nada mais o que apreciar. Perdemos contato com uma dimensão universal existência, para mergulharmos fundo no mais particular dos particulares, no materialismo mesquinho, e viramos massa de manobra.O templo da beleza foi profanado e o feio, vindo vingar-se dos séculos de dominação e opressão sob as hierarquias da beleza, agora quer ser reconhecido como belo. A realidade é maligna, logo, é preciso livrar-se de todas as influências, é preciso inverter a ordem, revolucionar, criar um inferno para o belo. O mundo está em desequilíbrio. Para a beleza, tanto o belo quanto o feio são manifestações naturais, pois o mundo não é nem de todo feio, nem de todo belo. A revolta contra a beleza não é somente uma revolta contra o bom e o verdadeiro. A revolta contra a beleza é, no final das contas, uma revolta contra a realidade.

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