25 de dezembro de 2018
“Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora”. Assim começa “Missa do Galo”, de Machado de Assis. Posso dizer que este conto obteve sobre mim um efeito singular, uma espécie de efeito névoa similar ao produzido pela novela “Sylvie”, de Gérard de Nerval ― embora esta seja muito mais fraca em termos de estilo. Por muito tempo também não pude compreender que efeito mágico era este causado por Machado, que surge feito uma bruma e nos entorpece ao longo da narrativa.
Não é à toa que é chamado de Bruxo do Cosme Velho. Machado é realmente um bruxo, brinca com as dimensões temporais do texto, nos fazendo viajar décadas ao passar duma linha ou nos detém num único segundo ao longo dum parágrafo inteiro. É um enganador nato, a começar pelo título, que nada tem a ver com o tema central do conto ― coisa que vemos também em “Dom Casmurro”, onde a personagem central é Capitu. A tal missa é apenas a desculpa para a sedutora conversa entre uma senhora balzaquiana e um jovem. Mas voltemos ao parágrafo inicial:
“Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.”
Aqui Machado, como se por feitiçaria, já nos dispõe o tempo narrativo. Começa com uma frase curiosa, atiçando nossa curiosidade e antecipando a conversa que será o núcleo do conto, sem nunca revelar o conteúdo. Logo após, temos uma digressão, saímos da noite de natal em que o conto se passa e voltamos no tempo através dum jogo de cenas indiretas sobre cenas indiretas, isto é, o narrador nos diz muito rapidamente os acontecimentos. Lembrando que uma cena, segundo Raimundo Carrero, é composta por personagem, ação e sequência. O jogo de cena-sobre-cena nos dá rapidez, veja os movimentos da narrativa:
- “A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas.”
- “A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios.”
- “Vivia tranquilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios.” [etc.]
Assim segue-se até o final do parágrafo, uma sequência de acontecimentos que servem para apresentar as personagens e a situação em que se encontram, reitero, sem jamais explicá-los. A predominância de verbos no pretérito imperfeito nos dá uma sensação de rotina e hábito: “Vivia tranquilo” perpetua melhor a tranquilidade vivida pelo personagem do que “vivi tranquilo”. Quando essa ação começa e quando termina? Não sabemos. O mesmo podemos ver em “Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana”. Detalhes pequenos, mas que cumprem uma função e efeito no conto.
Agora vem uma parte interessante, o próximo parágrafo, o terceiro, é por completo um comentário ― técnica que, se utilizada pelas mãos erradas, pode cair em maus gostos. Seria estranho, muito estranho, Machado, após tamanha habilidade técnica, se dispor a comentários que revelem tanto a personagem e, de certo modo, pareçam mesmo de mau gosto, exaltando as qualidades de Conceição e, inclusive, dando descrições vagas:
“Boa Conceição! Chamavam-lhe ‘a santa’, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. […] Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.”
Que rosto mediano, nem bonito nem feio é este? É o que eu diria num texto sem cuidado, mas aqui cada palavra é absolutamente calculada. Machado, a esta altura da vida de escritor, já sabia o que fazia. Podemos tecer uma analogia com o que São Tomás de Aquino dizia sobre regra moral: toda e qualquer regra moral é genérica e universal, e toda situação humana é concreta e particular. Assim, em arte, no uso das técnicas não devemos partir jamais do “dever ser” para dar um juízo estético pronto, mas da análise do próprio caso concreto.
A regra geral é que comentários desviam o foco do leitor para algo que não é a ação, fazendo uma observação sobre esse algo e correndo risco de quebrar o sonho ficcional. Em mãos erradas, pode soar como explicação desnecessária, mas aqui Machado usa-o como misdirection. Nos apresenta uma Conceição casta e santa ― o próprio nome nos remete à Virgem Maria ― para depois desaparecer com ela. É aí onde reside um dos mais interessantes truques de ilusionismo: Conceição se mostrará um tanto diferente na noite de Natal.
Somente no quarto parágrafo retornamos à tão falada noite. Temos uma cena direta, mais detalhada, cena no sentido mais geral, de John Gardner: um fluxo de ação intacta entre um incidente no tempo e outro. A ação dentro dela é intacta pois não inclui grandes lapsos temporais ou saltos dum cenário a outro. Aqui, Machado aproveita para aprofundar ainda mais a atmosfera do texto. Lembra-se que eu disse que alguns elementos poderiam ser considerados de mau gosto? Um escritor menos técnico cairia nos derramamentos líricos dum Jovem Werther, dramalhões e outros artifícios baratos e cafonas. Aqui não. A história é uma memória de quando o narrador contava apenas dezessete anos e lia livros mal escritos do romantismo, mas as ações e detalhes são friamente calculados, selecionados por um narrador do futuro, mais velho e maduro, cheio duma nostalgia que permeia cada parágrafo. A primeira aparição de Conceição vai se concretizando exatamente numa atmosfera romântica, sem os devidos exageros do movimento literário:
“Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição. […] entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras.”
Discreta, Conceição chega sorrateira, um vulto de roupão branco arrastando as chinelinhas no meio da noite. Mais e mais, vamos prestando atenção nos detalhes. Após conceição fazer uma síntese do leitor brasileiro até os dias de hoje ― “Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo” ―, Nogueira, o narrador, a observa com mais cuidado:
“Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.”
Não é a mera descrição física das ações da personagem, mas o cuidado no olhar de um garoto para com uma figura romântica, adorando todos os gestos, ainda que não tenha se dado conta disso. A passada de língua nos lábios já mostra uma sensual sinuosidade nas ações de Conceição. Observamos com o olhar típico dos homens jovens e inexperientes, que não sabem interpretar as atitudes do sexo oposto.
“Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranquilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, como desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou concertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio.”
Agora é tarde, já estamos encantados por Conceição, que de vulto passa a ser mulher completa e formidável, não em todos os absolutos detalhes, mas somente naquilo que importa: nos gestos, nas ações ambíguas. O Bruxo do Cosme velho vai lentamente lançando o feitiço no leitor. Conceição age como quem não quer nada, prestando-se inclusive a small talks, que confundem leitor e narrador: mas afinal, o que essa mulher quer?, nos perguntamos. Machado nos revela o conflito interno da personagem através duma breve frase, ao dizer que Conceição estava “entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido”, ou seja, ela estava entre o adultério, a janela da rua, que se abre aos encantos do mundo, e a fidelidade, representada pelo gabinete do marido no interior da casa. Coisa de grande artesão. Machado ainda tem habilidade para não deixar as falas repetitivas, como podemos ver nesse diálogo:
“Estreito era o círculo das suas ideias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.
— É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.
— Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. S. João não digo, nem Santo Antônio…“
Para não perder fluidez e naturalidade, interrompendo o fluxo psicológico da narrativa com travessões para expor algo que já foi conversado antes, ele recorre ao discurso indireto puro e simples, tomando para o narrador o diálogo e depois retomando as falas. Este uso de elipses é um recurso recorrente na obra machadiana. A seguir, temos o perfil mais sensual de Conceição:
“Pouco a pouco, tinha-se reclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor.”
Os braços, caro leitor do Século XXI, costumavam ser um elemento sensual, assim como as pernas, no século XIX. Algo mais discreto que uma olhadela no decote, evidentemente, mas ainda assim sensual.
“A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. […] e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:
— Mais baixo! Mamãe pode acordar.
E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras.“
O clima é de total cumplicidade entre amantes, ainda que essa paixão não venha a se concretizar. Conceição já não é mais a mesma do início do conto, uma recatada e sem graça senhora balzaquiana, mas uma mulher sensual e ativa. Como o próprio Nogueira diz: “ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima”.
A seguir, ambos conversam sobre os quadros na parede. Algo que poderia passar, para o leitor desatento, como mais um small talk, é na realidade um contraponto, ou cena justaposta, onde temos o conflito interno de Conceição metaforizado nas pinturas:
“— Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.
Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava ‘Cleópatra’; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.
— São bonitos, disse eu.
— Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.
— De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.
— Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso, mas eu penso muita cousa assim esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.“
Cleópatra, imortalizada pela sensualidade e devassidão, além de mais outra pintura vulgar ― que talvez poderíamos tomar pela amante do marido, agora reduzido a “Chiquinho”, desconhecida pelo narrador ―, figuras manchadas, em contraste com as imagens santas imaculadas que Conceição deseja pôr na parede da sala. A metáfora se torna mais clara: manter-se fiel ao marido, mesmo que este esteja dividindo cama com outra, ou consumar a sedução do jovem hóspede? Nenhuma palavra é dita explicitamente nesse sentido, mas podemos inferi-las através das ações.
Na sequência, mais outra cena indireta, em que temos de volta a imagem de uma Conceição mais pura, por assim dizer. A conversa começa a morrer, a mulher está entediada ou envergonhada, olhando à toa para as paredes. O jovem se inquieta, ambos ficam inteiramente calados, ele ouve um único rumor, “um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo”. Seria esse rumor reflexo da consciência de Nogueira rendo-lhe o juízo, e em conflito com o amor do qual não conseguia falar? Acho uma interpretação bastante plausível. Logo em seguida, a conversa é encerrada de vez pelas pancadas na janela, aos gritos de “Missa do Galo!”, que os trazem de volta à realidade. Mais adiante, na igreja, Nogueira se deparará com o conflito moral, sutilmente apontado por Machado numa única frase: “durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre”.
O romantismo se acaba com um roer de rato e um vizinho inconveniente ― ou anjo salvador ― a chamar para a Missa do Galo, que enfim acontece. E Conceição volta a se transformar em vulto ao entrar “pelo corredor dentro, pisando de mansinho” para nunca mais voltar. Ela já perdera a graça, o desejo morre junto ao impedimento: o marido agora falecido. É tarde, é tarde, o Bruxo do Cosme velho já trabalhou seu feitiço.
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