Melodrama e falsificação do lirismo no romance: Claridade, de Renato Moraes

Me perguntaram o que acho do romance “Claridade”, de Renato Moraes, publicado pela Editora Record. Respondi que não encontrei valor artístico algum na obra, então, questionado pelo motivo, rascunhei um breve comentário que achei por bem publicar como artigo independente.

Não li o livro por completo, mas, nos dois capítulos iniciais, nota-se que o Sr. Renato Moraes não sabe escrever. “Claridade” é um livro afetado, melodramático e mais parece uma versão gramaticalmente correta de “A Culpa é das Estrelas”. O falso lirismo é de fazer vomitar desde o índice de capítulos:

Parte I – Rompendo aos poucos o casulo 1. O noivado de um solteirão 2. Conhecendo uma viúva e suas filhas 3. Quanto pode acontecer em um casamento 4. Um amigo e as agruras de duas garotas 5. Planejando escapar de armadilhas

Já notamos que se trata da história de um moço que perde a noiva. Até aí, nada demais, porém temas emotivos requerem frieza. Você abre um prólogo, nota que as descrições de cenário ou perfis são meramente físicos, não apresentam nada de metafórico ou psicológico, há apenas uma natureza morta trivial, como se o autor desse os detalhes por obrigação, não porque há algo que nos ajude revelar o segredo das personagens ou que nos cause espanto.

Começa o romance:

Assim que Ricardo entrou no quarto do hospital, Nina sorriu e indicou com um gesto que ele se sentasse na cadeira, ao lado da cabeceira da cama. Ele lhe tomou as mãos e as beijou. Estavam quentes, e a pulsação, alta. Ou seja, o habitual das últimas semanas. Tocou delicadamente o rosto dela com os lábios e arrumou-lhe os cabelos longos, que caíam na frente. Foi correspondido com uma mirada afetuosa e cansada.

É um início gramaticalmente correto, mas sem nenhuma qualidade técnica, a composição de cena é lugar comum, as próprias frases não possuem muito ritmo, as vírgulas são gramaticais e não estéticas. O estilo se enrola no que Othon Garcia classifica como frase de ladainha devido ao mau uso da conjunção “E”:

Nina sorriu e indicou… Ele lhe tomou as mãos e as beijou. Estavam quentes, e a pulsação, alta… e arrumou-lhe…

Esse recurso gera monotonia, quando mal utilizado, porém, nas mãos dum bom artista, pode criar os mais diversos efeitos no texto, feito longos suspiros ou hesitações. Ainda há os ecos, os verbos terminados em “ou”, mas nem vou entrar em muitos detalhes. Essas terminações verbais tornam as frases ainda mais monótonas: entrou, indicou, tomou, beijou, tocou… etc.

Outro ponto é que a primeira frase já nos revela demais:

Assim que Ricardo entrou no quarto do hospital, Nina sorriu e indicou com um gesto que ele se sentasse na cadeira, ao lado da cabeceira da cama.

O autor revela muito, quer mostrar tudo de uma vez, que estão no hospital, que a noiva está doente e já nos diz logo o que irá acontecer mesmo no título do capítulo, “É difícil acreditar que ela se foi”. A primeira frase é alongada, poderia ser apenas:

Assim que Ricardo entrou no quarto, Nina sorriu e indicou que sentasse na cadeira ao lado da cabeceira da cama.

A única qualidade deste primeiro parágrafo é uma tentativa de uso de voz de personagem em estilo indireto livre, mas que terminou caindo feito explicação: “Estavam quentes, e a pulsação, alta. Ou seja, o habitual das últimas semanas”. Esse “ou seja… etc.” seria a voz do noivo, porém numa observação tão banal que nem faz diferença.

O autor preza sempre por frases mais complicadas do que complexas. Olhando mais de perto o próximo parágrafo, podemos notar que as descrições não têm vida:

Os olhos da jovem estavam fundos, órbitas que saltavam de duas covas rodeadas por olheiras pronunciadas, que se destacavam ainda mais naquela magreza quase inacreditável. Sua pele tinha embranquecido pela falta de sol. Por um privilégio singular, continuava bonita — para Ricardo, era impossível que ela deixasse de sê-lo —, como se seus traços delicados e perfeitos não admitissem a derrocada.

Fora que narradores que substantivam as personagens (ex: a jovem, a mulher, a doente, etc.) já soem normalmente afetados, ou soem como se fosse um octogenário quando chamam de “o jovem” ou “a jovem”, essa substantivação é inútil principalmente por haver apenas DUAS personagens no quarto.

O uso do pronome possessivo “sua” também não é algo recomendado em geral pela ambiguidade, embora neste caso possa parecer mais bem encaixado, pois sabemos que a pele é a pele dela, não dele. O único problema desse uso é que “sua pele” é sonoramente feio por se assemelhar ao verbo suar. Há inúmeras outras maneiras de construir essa frase. “Havia embranquecido pela falta de sol” seria uma solução. Mas a imagem inteira é lugar comum, moribundos de olhos fundos saltando das órbitas, com olheiras profundas. E o que seria essa beleza? Esses “traços delicados e perfeitos” que não admitiam derrocada? O que isso significa? Nada. Apenas afetação. O autor tenta nos impressionar diante duma tela em branco. Primeiro nos apresenta uma imagem feia lugar-comum, depois tenta evocar uma beleza que não existe no texto.

Os diálogos conseguem ser piores: prosaicos, desinteressantes e melodramáticos. Parecem saídos da novela das nove:

— Ricardo, sua vida vai continuar sem mim. Aceite, é o óbvio. Você não pode se transformar em uma espécie de noivo viúvo, um solteirão ferido pela vida . Se ficar com pena de você mesmo, vai me decepcionar demais. Seria ridículo.

— Devagar, moça! Quem a ouve falar assim pensa que você é uma pedra de gelo! Não me esqueço de como a durona chorou de saudade, só porque passou uns dias sem ver o sobrinho…

— Mas melhorei e não chorei mais. Pelo meu sobrinho, você me entende. E pare de despistar, isso não tem nada a ver com que estou dizendo.

Nina tornou a olhá-lo com seriedade:

— Querido, não suporto pensar que você talvez fique por aí, largado, sem buscar ninguém. Preso em um mundinho de recordações.

Se o autor fez algo de bom e mostra alguma qualidade após os dois capítulos iniciais, não tenho como dizer. Não gosto de fazer análises de livros que não li por inteiro, mas este é um dos casos que não tenho a menor vontade de ler o resto das 500 páginas para descobrir. Só posso dizer o mesmo que Autran Dourado: se o escritor não acertou nem nas primeiras dez páginas, dificilmente acertará no resto.

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