“Um cínico é um homem que sabe o preço de tudo, e o valor de nada.” – Oscar Wilde
Tudo o que é escasso é valioso; contudo, há produtos do gênio humano que são inestimáveis: a Eneida de Virgílio, a Appassionata de Beethoven, o Davi de Michelangelo, a Catedral de Notre-Dame de Paris, de anônimos construtores para sempre eternizados em seu trabalho na pedra. Nenhuma dessas obras, embora passíveis quantificação em ouro, podem ser medidas na dimensão do espírito humano. Dinheiro algum compra a genialidade, embora permita as condições materiais para desenvolvimento do talento; e é estranho notar que justamente quando estamos mais abastados, quando não falta conforto, informações ou meios de ação, não observamos o nascimento de novos artistas, escritores, filósofos ou pensadores; ao menos não os de alta estirpe. Em termos estritamente materiais, a civilização nunca esteve melhor, em termos espirituais, nunca fomos tão pobres e inférteis. E essa infertilidade é apenas sintoma de um mal maior.
Meus leitores conhecem bem os alertas que faço contra a subintelectualidade insurgente que vem crescendo no Brasil, nos últimos anos, pelas mídias sociais. Subintelectualidade numerosa, porém fraca e autoritária; sendo esse autoritarismo fruto justamente de sua impotência moral e mental, que se revela na tentativa impor suas pseudoideias malformadas na base do grito e da histeria, não do livre-debate racional, justo e ordenado. Embora se arrogue de possuir as qualidades mais escassas do espírito humano — virtudes, maestria, inteligência, erudição — essa subintelectualidade carece de feitos e obras que as comprovem. Quando cobrada, tergiversa ou calunia quem lhes fez a cobrança. O Homo Mediocris julga-se superior a todos, sem jamais precisar provar seu próprio talento, ou ser consistente no que diz; muda de opinião como se mudasse de roupa, opina sobre tudo, conhecedor do universo e além. Na realidade, não é preciso ser coisa alguma, basta a manifestação verbal de certos valores, o mero parecer e aparecer diante da plateia inapta. Onde quer que se olhe — literatura, filosofia, economia — a investigação da realidade deu lugar à retórica midiática. O surgimento do Homo Mediocris e sua proliferação massiva só se tornou possível numa era de imediatismo e hedonismo.
Quando me perguntam por que ando sumido do Entender Ficção, por que não gravo mais podcasts ou vídeos, a resposta é simples: não sou blogueiro (ou seu primo mais velho, já datado, o jornalista). Meu trabalho não é agradar ao público, ou mesmo desagradá-lo; é simplesmente escrever as melhores obras que eu puder, enquanto artista, ou, enquanto teórico, investigar a veracidade da crítica literária e seus juízos de valor. Essa tarefa, por si, não é acessível à maior parte da população, por vezes, nem mesmo linguisticamente. Num país com quase um terço de analfabetos funcionais, não me espanto mais quando algum leigo não entende o que estou dizendo — oral ou textualmente — sequer em nível sintático. Quando algum objetor opera em nível semântico, já é quase um milagre; resta, depois de entender o que digo, entender do que estou falando. No mais das vezes, o pretenso entendido cria uma barafunda de interpretações propositalmente confusas sobre o que foi dito, por vezes utilizando-se ele mesmo dos argumentos que deseja “refutar”. Nessas situações, mais abundantes do que eu gostaria de ter testemunhado em minha vida, resta lembrar do sábio conselho de Virgílio a Dante, na Comédia: non ti noccia la tua paura, não deixe que teu temor te tolha, ignore a confusão do demônio e siga teu caminho. Ou, como bem traduziu Ítalo Eugênio Mauro, “não discrepe tua mente da razão”, pois Pappe Satàn aleppe nada significa. Esse é apenas um dos motivos pelos quais meu trabalho não é, nem nunca poderia ser, voltado para as massas.
A Alta Cultura pode ser acessível a todos, materialmente falando: aquelas obras inestimáveis podem ser virtualmente consumidas pelas pessoas de qualquer classe social, de qualquer espectro político ou origem geográfica. Isso não significa que serão compreendidas, tampouco que a mera apreensão eleve o leitor ou apreciador ao patamar de quem as produziu. Não hesitaríamos em meter na cela do hospício um psicótico que, por conseguir cantarolar as cantatas de Bach, se julgasse o próprio Bach, mas, por algum motivo, qualquer semiletrado, capaz de repetir Louis Lavelle ou Olavo de Carvalho, é tido como autoridade de alguma coisa. Sendo esse último pensador, aliás, responsável por arrebentar — além da extinta hegemonia esquerdista — os juízos do populacho conservador.
Agrave-se à falta de recursos humanos o fato de as próprias pessoas, que supostamente teriam inclinação para as ciências do espírito, não terem a paciência e perseverança que o ofício demanda. Poucos são os que aceitariam se dedicar anonimamente a uma arte a vida inteira, feito Kafka, ou mesmo demorar anos, talvez décadas, para finalizar uma obra, feito Michelangelo com a Capela Sistina. A essa preferência pelo longo prazo, os economistas chamam de baixa preferência temporal, o seu oposto, a alta preferência temporal (pelo agora) é típica do imediatismo de nossos dias. Certa vez, fui abordado por um desses editores, à direita, que me perguntou se eu possuía alguma obra pronta para publicação. Respondi que tinha meus ensaios — aos quais ele recusou, vide serem ideologicamente contra a má arte que tal editora pulica —, mas também lhe contei de um romance que estava escrevendo. Após me pedir amostras do original, fez apenas dois comentários: um “só isso?”, referindo-se às sessenta páginas do manuscrito inacabado, e um comentário sobre ouvir Villa-Lobos (referenciado-se a uma menção que fiz ao Choro Rasga-Coração, na epígrafe) ser “coisa de veado”. Romance bom, segundo ele, se leria “ouvindo pagode e tomando cachaça”. Não preciso dizer que não mantive a negociação após isso.
É preciso uma preferência temporal muito baixa, sem perspectivas de retornos financeiros ou sociais de curto prazo, para escrever tinta que não se apaga. Costumava ser comum que editores, feito um Maxwell Perkins, dessem adiantamentos consideráveis de direitos autorais para que seus escritores pudessem se dedicar a entregar as melhores obras possíveis; mas esse tipo de relação está há muito extinta. Não fiz nenhum tipo de exigência comercial, pois não tenho pretensão de querer que a Literatura me alimente, mas talvez devesse ter feito, pois os editores brasileiros pensam fazer grande favor aos autores por simplesmente publicá-los. No Brasil, a inflação de medíocres em circulação sempre foi um problema para os homens de gênio, nunca para o mercado editorial.
A alta cultura é cobiçada por muitos e integralmente acessível a poucos. Alguns pagam um preço caríssimo para obtê-la, sacrificando algo mais valioso que dinheiro: tempo de vida. Muitas vezes, como no caso de Sócrates, a moeda foi o próprio sangue. Portanto, algo tão valioso não é, nem poderia ser, adquirido nas mídias sociais, nos documentários ou vídeos do youtube, nem em podcasts de massas. O único meio é metendo a cara nos livros, refletindo e escrevendo, pois aculturar-se é cultivar uma vida interior, educar-se no mais elevado sentido; e educação real é sempre um processo ativo, nunca passivo.
Somente ao fim de uma longa jornada — de crescimento moral e espiritual — pode o intelectual ou artista partilhar seus talentos com a comunidade, a fim de multiplicá-los. Porque àquele que tem, será dado em abundância, e daquele que não tem, até o que julgava ter será tomado. Um conhecimento não partilhado perde-se nos confins da memória, uma habilidade não praticada definha, a inteligência inutilizada, sem obras, corrompe-se. Quando o homem age no ser (na beleza, bondade e verdade), seus talentos se multiplicam e nada falta aos que lhe cercam. A verdadeira Cultura, o cultivo dos valores mais sublimes, é uma caridade não só com nosso próximo imediato, mas com as gerações futuras; como nos lembra o Apóstolo: “ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade (amor), sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine”.
Os pobres de espírito jamais terão senão um vago vislumbre do que é ser culto, pois desejam apenas o aspecto mais burguês da cultura: o da ascensão social. Há escadas mais rápidas e mais eficientes para isso, do que falar de livros, filosofia e literatura num país em que quase ninguém lê; e quem lê, em sua maioria, mal entende o que está escrito. Utilizar a cultura como meio de ascensão social é para fracassados que não deram para nada na vida, pois, caso já tivessem dinheiro e sucesso, é provável que nem mesmo fingissem intelectualidade, e estivessem gastando melhor seu tempo em viagens para Fernando de Noronha com alguma top-model de aluguel.
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