As questões do narrador vão muito além da pergunta “devo escrever em primeira ou terceira pessoa?”. Este é um dos pilares da literatura, ao qual devemos prestar bastante atenção. Meus artigos, vale lembrar, não são por si suficientes para compreender plenamente a teoria dos narradores, é necessário que vocês pesquisem nas fontes citadas.
Devemos lembrar, sempre, que o narrador é uma personagem. Sempre. Até mesmo quando é inominado. E é a personagem mais importante do livro, quem constrói toda a narrativa e o jogo de cenas. Diz Vargas Llosa na terceira parte de “A Orgia Perpétua“:
“O narrador é sempre um personagem inventado, um ser fictício, como todos os outros personagens cuja história ele ‘conta’, mas é o mais importante deles porque a maneira como age – mostrando-se ou escondendo-se, atrasando-se ou saindo em disparada, sendo explícito ou evasivo, falastrão ou taciturno, brincalhão ou sério – determina se os outros personagens irão nos convencer da sua verdade ou nos impedir de crer nela, levando-nos a vê-los como marionetes ou caricaturas. O comportamento do narrador é fundamental para a coerência interna de uma história, o que, por sua vez, é um fator essencial para a existência do seu poder de persuasão. “
Temos por consenso que Flaubert matou o velho narrador onisciente tradicional. Mas que narrador seria esse? O narrador que vê tudo e sabe tudo, me diriam por óbvio. Mas o que significa essa onisciência? Quem é esse narrador? Llosa nos dá a resposta em “A Tentação do Impossível“:
“O personagem principal de ‘Os Miseráveis’ não é o monsenhor Bienvenu, nem Jean Valjean, nem Fantine, nem Gavroche, nem Marius, nem Cosette, mas sim aquele que os conta e inventa, um narrador linguarudo e que surge continuamente entre as suas criaturas e o leitor. Presença constante, arrebatadora, a cada passo ele interrompe o relato para opinar, às vezes em primeira pessoa e sob um nome que nos faz acreditar que é o próprio Victor Hugo, sempre em voz alta e cadenciada, para interpolar reflexões morais, associações históricas, poemas, lembranças íntimas, para criticar a sociedade e os homens em suas grandes intenções ou suas pequenas misérias, para condenar seus personagens ou elogiá-los. […] Suas características mais óbvias são a onisciência, a onipotência, a exuberância, a visibilidade, a egolatria.”
Devo salientar, por honestidade intelectual, que a análise de Llosa, no contexto em que foi feita, é mais elogiosa ao narrador onisciente e toda essa grandiloquência – coisa que o próprio Llosa dispensa em seus romances. Porém, devemos convir que esse o narrador, o narrador cuja mão-de-ferro pesa sobre os textos de Vitor Hugo e Dostoiévski, é antiquado justamente por ser intrometido e linguarudo, um reflexo do autor no texto.
Sigo a filosofia flaubertiana de que num romance não deve haver derramamentos líricos, grandiloquência, reflexões ou personalidade de um autor ausente (que não faz parte do mundo ficcional). É como o próprio Flaubert escreve a Louise Colet: “Eu quero que não haja no meu livro um só movimento, uma só reflexão do autor”. Em outras palavras: trata-se de um procedimento inverso, partir do texto para o autor. O autor deve descobrir o ritmo e pulsação do romance, o estilo que brota das personagens, devemos ouvir nossos textos da mesma maneira que Michelangelo teria sentado diante dum bloco de mármore para ouvi-lo até descobrir a forma escondida sob a rocha; e assim nasceu David. Citando Raimundo Carrero: “escritor não tem estilo, quem tem estilo é a personagem”.
Vamos a “Os Miseráveis”, de Hugo:
“Tentemos explicar.
É realmente necessário que a sociedade olhe para essas coisas, já que é ela que produz. Jean Valjean, como dissemos, era um ignorante, mas não um imbecil. A luz natural brilhava nele. O infortúnio, que também possui a sua claridade, aumentou um pouco a luz que havia naquele espírito. Apesar dos castigos, das correntes, do calabouço do cansaço, do sol ardente da galés, da cama de tábuas, ele voltou-se para sua consciência e refletiu.”
Para revelar o personagem Jean Valjean, o narrador onisciente tradicional não conhece reservas, fala demais, diz, diz, diz, hesita em mostrar, sempre dramatizando, apelando ao melodrama e ao sentimentalismo. E acima de tudo: o narrador onisciente julga. Julga tudo e todos, diz ao leitor o que interpretar. A diferença deste narrador para o narrador moderno é gritante.
Diz Carrero em “A Preparação do Escritor”:
“É natural que o leitor confunda, quase sempre, o narrador com o autor. E – muito mais ainda – é natural que o autor se confunda com o narrador. Às vezes nem conhece mesmo a diferença. Ou, se conhece, não admite. Acredita-se narrador, envolve-se, joga-se no texto que é seu apenas na aparência, interfere. Mas há uma verdade absoluta: narrador não é autor. Autor não é narrador.”
Podemos agora classificar os narradores, inicialmente conforme Vargas Llosa:
I. Narrador-personagem: narra na primeira pessoa do singular, ponto de vista este em que o espaço do narrador coincide com o espaço narrado.
- Um narrador onisciente tradicional (ou narrador filósofo), que narra na terceira pessoa e ocupa um espaço distinto e independente do espaço onde ocorre a narrativa. É externo a ela.
- O narrador oculto (ou onisciente invisível): parece narrar apenas as impressões momentâneas e visíveis naquele único instante. A princípio não reflete, não questiona, não indaga, não entra na mente das personagens, e é classificado por Vargas Llosa, em “A Orgia Perpétua”, como relator invisível na subdivisão de M. Bovary e na companhia do relator onisciente clássico ou filosófico.
Sobre o narrador oculto, diz Carrero:
“Aparentemente, narrador oculto pensa, questiona e reflete mas, tudo numa ‘falsa terceira pessoa’ – narrativa em terceira pessoa com técnica de primeira – através do ‘olhar do personagem’ com foco nos cenários – natural, humano, psicológico e metafórico – em que mostra suas preocupações, questionamentos, perspectivas… O melhor exemplo é Vidas Secas, de Graciliano Ramos, em que os personagens realizam ‘falsos monólogos’ a cada capítulo. Ou simplesmente na primeira pessoa, utilizando as mesmas técnicas.”
Há outras teorias sobre narradores, como a do narrador ambíguo, ou em segunda pessoa, de Llosa. Futuramente nos aprofundaremos mais em outros tipos de narradores e nas técnicas mencionadas (falsa terceira pessoa, monólogo interior, etc.). Mas esses são assuntos para outro momento.
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