Arte grega e tradição

Em pouco mais de duzentos anos os artistas gregos desenvolveram técnicas que imprimiram vida em blocos de mármore, fazendo-os parecer corpos humanos de carne e osso. Alguns historiadores da arte chamam esse período, entre VII e V a.C., de Grande Despertar ou Revolução Grega, tamanha foi a ruptura com qualquer forma de arte antes vista no mundo. Mas esse despertar não aconteceu por geração espontânea.

A cultura grega bebeu diretamente das águas do Nilo. Quando o Partenon de Atenas foi erguido, a Grande Pirâmide de Quéops já estava em ruínas. É possível notar a sofisticação dos egípcios na arte, principalmente nas esculturas. Podemos dizer que o busto de Nefertiti (1345 a.C.) ou a estátua do faraó Menkauré com a rainha Khamerernebti (2490-2472 a.C.) retratam a realidade tão bem quanto as esculturas gregas. Obras notáveis, principalmente se levarmos em conta a idade. É possível perceber a semelhança entre as tradições, e talvez um observador pouco atento possa até mesmo confundi-las, basta uma olhada em algumas esculturas gregas arcaicas, a exemplo de Kouros (590-580 a.C.), ou Cléobis e Bitão (615-590 a.C.).

Os gregos mantiveram a tradição egípcia, na qual um artista não era reconhecido como um por ser “original”, mas por dominar a perfeição técnica. Isso leva à evolução natural do conhecimento artístico: hoje sabemos mais sobre a feitura da arte do que em qualquer momento histórico, e ainda assim desprezamos esse conhecimento. Nunca antes no mundo se teve acesso a tantas técnicas, modelos, exemplos, críticas da arte, teorias estéticas, manuais. O homem moderno contenta-se em admirar a própria sombra na areia, ignorando as pegadas dos seres colossais que vieram antes.

Estudar arte antiga traz, em si, algumas dificuldades: essas areias pelas quais caminharam os gigantes apagam os rastros. Poucas obras sobreviveram ao tempo, principalmente no teatro e literatura. A exemplo de Sófocles, apenas a Trilogia Tebana e mais quatro peças chegaram até nós. Outros não tiveram tanta sorte. Seria como se soubéssemos que, no século XVI ou XVII, existiu na Inglaterra um bardo chamado Shakespeare, cujas peças Macbeth, Rei Lear e Hamlet chegaram até nós ― das trinta e sete que ele escreveu. Em pintura, quase nada restou da arte antiga, já as esculturas, em sua maioria, são réplicas que os endinheirados da época encomendavam para enfeitar os jardins.

O dito “padrão de beleza grego” de fato não necessariamente representa a realidade da época, embora isso devesse ser óbvio. Primeiro, por muitas das esculturas terem um fim mais estético do que documental, ao contrário dos retratos egípcios. E, segundo, porque raramente o gosto dos artistas é compatível com o gosto das pessoas comuns.

Se tomássemos pinturas de Picasso, feito “Mulher Nua Com Colar”, como um exemplo da beleza humana do século XX, bastaria uma breve olhada nas revistas de moda ou concursos de beleza da época para notar o real padrão da sociedade. Mas por que o ideal do artista não corresponderia sempre à realidade? No caso de Picasso, ele preferiu a caricatura, o feio e colérico ao belo e harmonioso; algo por si discutível, apesar de se tratar duma escolha estética consciente. É bem provável que ao ouvir dizerem “que coisa horrorosa”, sobre uma de suas pinturas, Picasso respondesse “muito obrigado”. Isso não torna suas obras boas, ou justifica a feiura.

Já no caso dos gregos, a explicação é bastante simples: além da exaltação dos valores apolíneos e da cultura bélica, o artista grego encontrou nos corpos atléticos a melhor maneira de aprimorar a expressão artística, a técnica. Não se trata ― como na cabeça de alguns historiadores ideológicos ou loucos, feito a britânica Mary Beard ― de uma alienação da realidade, já que a arte não deve satisfações direta a esta. Ainda assim, existem obras gregas ditas mais “realistas”, como a escultura em bronze do pugilista em repouso (330-50 a.C). Podemos ver um lutador veterano, surrado, nariz quebrado, repleto de cicatrizes, o corpo abatido, decadente. Porém mesmo nessas obras não há uma quebra na forma e técnica, como há em Picasso ou Matisse em suas fases tardias, há uma disruptura apenas no padrão de objeto representado. Trata-se de arte do feio, não de arte feia, tentativa de subverter a beleza, como crê a sra. Maria Barbuda.

O que impressiona mais? O corpo comum do faraó sem muitos traços físicos, ou a escultura do Discóbolo de Míron, com toda a sua musculatura bem detalhada, assim como a movimentação, a expressão corporal e a face? E que dizer da escultura romana de Laocoonte, no Museu do Vaticano? É uma experiência estética singular, aterradora. Nos perguntamos como pôde um simples homem dar tal forma a um bloco de pedra, com tantos detalhes e emoções como se dotado de vida.

Tudo o que é belo é conquistado através de muito esforço, seja o corpo e habilidades atléticas, seja a perfeição técnica na arte. Os detratores da beleza a invejam pois são incapazes de cultivar algo que não seja preguiça e inveja.

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