A Triste e Breve Vida de Richard Strauss

A todas as vítimas do comunismo bolivariano.

Quando Richard Strauss nasceu, seu pai soube que estava destinado à grandeza. Ao segurá-lo no colo, pensou em batizá-lo Richard Wagner, mas, ao rememorar o fim de todas as óperas do compositor, decidiu-se por um nome menos trágico — embora igualmente imponente — do romantismo alemão; era um prenúncio do talento musical ao qual o pequeno Richard estava predestinado.

Ainda no ventre materno, seu pai colocava os Concertos de Brandenburgo para tocar em caixas de som próximas à barriga de sua mãe. Durante o parto, ele executou o solo do concerto para violino de Mendelssohn, em Mi menor, crente de que as vibrações das cordas gravariam para sempre na alma da criança a vocação para o instrumento; não obstante os esforços médicos, sua esposa morrera de hemorragia entre os acordes alegres do terceiro movimento e o choro do recém-nascido.

A tenra infância do pequeno Richard foi marcada pelas memórias de violinos na parede — dezenas, pois seu papai, além de músico de orquestra, era professor e luthier nas horas vagas. Naqueles tempos, desdobrava-se entre apresentações esporádicas no Teatro de Santa Isabel e as aulas particulares; não passava dum vulto magro. Além das encomendas dos clientes, achava ainda algum tempo para ministrar aulas gratuitas na escola paroquial. As festas de casamentos eram sempre um alívio para as finanças da família e maio costumava ser o melhor dos meses. Ao chegar no minúsculo sobrado em que habitavam, tarde da noite, após pegar dois ou três ônibus, jogava-se na poltrona e afundava no mais profundo sono. Era sua mãe quem descalçava-lhe os sapatos e desabotoava-lhe a camisa, depois abria as janelas para deixar entrar o vento úmido e morno do lago de Apipucos, defronte ao qual moravam.

Dessa época, o pequeno Richard pouco lembrava, mas uma imagem o acompanharia até o último de seus dias: sua avó rezando diariamente para que não faltasse trabalho ao filho; acendia velas no oratório para Nossa Senhora, Santa Cecília — padroeira dos músicos — e São José.

Somente quando completou quatro anos, seu pai passou no concurso para o Conservatório Pernambucano de Música; dinheiro deixara de ser um problema. Pouco depois, conseguiu um cargo fixo na Orquestra Sinfônica do Recife. Mudaram-se para uma casa maior, na Boa Vista, perto do trabalho do pai. Agora sobrava-lhe tempo para cuidar propriamente da educação musical de seu filho.

Fez-lhe um violino de um oitavo, ensinou-lhe a postura e o dedilhado; Richard apresentava talento inato para música e começara a ler partituras antes mesmo de aprender a ler o jornal. O pai tinha-lhe planejado toda uma carreira: entraria no conservatório assim que atingisse a idade mínima, se formaria e ingressaria na Sinfônica, com emprego garantido; havia sempre demanda para violinistas nas orquestras de todo o mundo.

Porém, quando o filho contava seis anos — um a menos do que o necessário para ingressar no conservatório —, ele próprio trouxe para casa o que viria a ser a causa de um de seus maiores desapontamentos: um disco de vinil. Ao voltar do trabalho, encontrou Richard ouvindo as gravações do legendário flautista Jean-Pierre Flageolet. Vendo-o abrir a porta, o garoto declarou:

— Quero ser flautista.

E todo aquele mundo que seu pai havia composto, baseado em cordas e arcos, desfez-se como se na desarmonia duma nota desafinada. Os cargos, as facilidades e as próprias esperanças de criar um gênio com suas próprias mãos — seguindo a escala traçada por Leopold Mozart — esvaíram-se entre seus dedos, como se fossem eles os responsáveis por estourar aquela corda delicada.

Por que, de todos os instrumentos, a flauta? Temia o piano, único capaz de rivalizar na popularidade e seriedade com o violino; estava preparado até para o violoncelo e a viola — que apesar de diferentes, ainda estavam sob domínio de sua maestria —, mas jamais poderia imaginar que seu filho trairia a família das cordas friccionadas para se juntar aos instrumentos de sopro. Ao menos não tinha aspirações a percussionista.

Apesar de todos os protestos paternos e distrações para dissuadi-lo, presenteando-o com um novo violino, maior, discos de grandes violinistas, o interesse do filho pelos flautins e pífanos não diminuiu. A avó interveio, lembrando de quando seu próprio filho enamorou-se do violino; eram os traços de um verdadeiro amor. Agradecia em suas orações que a escolha do neto tenha sido a flauta, não os versos — feito seu falecido marido —, pois a Música vinha com um pão debaixo do braço; dois poetas numa linhagem trariam infortúnios demais para uma família só.

No ano seguinte, Richard Strauss estava matriculado no curso de flauta transversal. Seus dias se dividiam entre a escola e as lições de música quase diárias no Conservatório — pela influência paterna, conseguiu ter aulas práticas, destinadas aos veteranos, ainda no primeiro semestre. Por essa época, começou a aprender francês com uma velha vizinha, professora aposentada, pois um músico decente deveria falar aquela língua; as melhores escolas estavam na França.

Certa manhã, aos dez ou onze anos, durante o desjejum, ouvindo o tilintar de um copo, Richard simplesmente declarou:

— Esse Si bemol foi fraco demais.

Demonstrava os sinais claros de um ouvido absoluto, o que agradou muito o coração de seu pai; seus esforços haviam convergido para o lugar certo e, embora Deus agisse por caminhos misteriosos, com o tempo ele também passou a ter afeição pelos instrumentos de sopro, que antes lhe causavam leve desgosto. Admirava o filho a tocar, corrigia-lhe o tempo, ajudava-o a interpretar as partituras, lecionava-lhe teoria musical.

A adolescência de Richard Strauss se passou quase integralmente entre os velhos portões de ferro do Conservatório, à luminosidade alaranjada dos finais das tardes quentes sob as velhas mangueiras centenárias, com o ruído constante dos carros na avenida ao lado. Nas semanas de provas, quando os alunos disputavam os lugares à sombra — para protegerem-se do sol do meio-dia —, ouviam-se as vozes desarmônicas dos instrumentos, cada qual ensaiando sua própria melodia. Um trombone ressoou ao longe, lembrando o lamento dum elefante triste. Os avaliados tremiam, inquietavam-se, entravam tensos no auditório e saíam empalidecidos. Richard permanecia sereno à porta, segurando o estojo com a flauta.

No exame daquele semestre, apareceu um homem que não conhecia. Falava em francês com seu pai, que também sentava-se à banca de avaliação. Chamaram protocolarmente o nome de Richard Strauss — que, devido à ordem alfabética, era sempre um dos últimos a se apresentar —, sortearam três peças do repertório e pediram para que as tocasse. Subiu ao palco sem partituras, pois sabia todas de cor. Executou cada peça mecânica e corretamente, sem uma gota de paixão. O estranho permanecia impassível, olhando-o friamente pelos óculos com armação de casco de tartaruga. Sacou um cigarro e pôs-se a fumar. O pai parecia ansioso.

Ao final das três execuções, o sujeito perguntou à banca — num francês com sotaque muito duro, de erres vibrantes — se poderiam pedir por uma peça livre, menos escolar. Para a surpresa dele, Richard o respondeu na mesma língua, de modo limpo e cadenciado, que poderia tocar uma sonata em Si menor de Bach.

Executou-a com total naturalidade, num simples sopro, como se a flauta fosse uma extensão de sua própria boca: as notas sucederam-se num andamento melífluo e nostálgico, e parecia que aquele garoto condensava na melodia toda a melancolia da humanidade, desde o dia em que foram expulsos pelos portões do Paraíso.

Ao final da apresentação, o estranho agradeceu, levantou-se e saiu acompanhado de seu pai, sem dizer mais nada. A banca entreolhava-se com espanto, Richard não conhecia aquele homem. Dimitri Melodovski era um dissidente soviético radicado em Paris, responsável pelas bolsas da École Normale de Musique. Como o pai de Richard conseguira aquela audiência, jamais ficariam sabendo, mas, meses depois, o jovem flautista recebeu uma carta da França, dizendo que procurasse pelo monsieur Melodovski na Boulevard Malesherbes, número 114 bis, mesmo endereço do remetente, quando terminasse seus estudos no excelentíssimo Conservatório Pernambucano.

Aos dezesseis anos, finalizou-os com o louvor dos antigos professores. Ao tocar a última nota no recital de formatura, Richard sentiu como se aquele silêncio viesse da própria vida; e talvez fosse sua última apresentação naquele auditório, que fora seu lar por quase uma década. Apenas algumas semanas se passaram — entre o tédio das tardes suarentas dentro de casa, com a flauta soando notas de cima a baixo das escalas, e as manhãs em que resolvia ir à praia para olhar o mar — quando seu pai pôs um envelope em cima da mesa. Havia dinheiro e uma passagem de avião, só de ida:

— Você parte para Paris depois de amanhã.

Richard aceitou seu destino sem hesitação, como se fosse apenas o novo movimento de uma sinfonia que a vida compunha enquanto ele a executava, mas cujas pausas eram os momentos de maior tensão e medo. No aeroporto, a avó de cabelos alvíssimos deu-lhe uma medalha de Santa Cecília, beijou-lhe a testa, ungiu-o com o sinal da cruz e despediu-se sem lágrimas. O pai o abraçou, dando um último conselho:

— Faça o que quiser, mas jamais se limite com o título de músico brasileiro. Você é flautista e nada mais.

Richard não entendeu aquele estranho vaticínio, mas obedeceu-o. Somente muito tempo depois, num concerto em que se apresentaria em Bruxelas, perceberia que o pai dera-lhe aquele nome alemão — que tanto lhe causara desgosto na escola — para não marcá-lo com a mácula brasílica: seus compatriotas raramente eram levados a sério, convidados apenas para performance de músicas brasileiras que, salvo Villa-Lobos, eram curiosidades excêntricas destinadas a públicos pouco acostumados aos grandes salões.

No primeiro dia em Paris, Richard Strauss foi golpeado por uma beleza implacável: os bulevares e avenidas lembravam-lhe em algo sua terra — que certamente um dia se inspirara na capital francesa —, mas sem a decadência estética; o passado vivia ainda glorioso nos nomes dos heróis, dos poetas e dos grandes músicos lembrados nas placas de cada rua, em cada esquina.

Sentiu-se desnorteado, com uma vontade irrefreável de caminhar, carregando apenas sua pequena valise com as poucas roupas que trouxera e o estojo da flauta. Andou não soube por quanto tempo, encantado com a imensidão da Champs-Élysées, indo até a Place de la Concorde, maravilhando-se nos Jardins das Tulherias, até que perdeu-se nos enrodilhamentos da cidade e já não sabia em qual bairro estava. Quando resolveu procurar um hotel no Quartier Latin, já era tarde da noite e não havia vagas — o verão era altíssima temporada. Rodou a cidade no táxi de um motorista árabe, que mal falava francês, em busca de um quarto. Encontrou acomodações perto do Mercado de Pulgas, numa pensão modesta, porém limpa.

Quando mostrou os documentos, a dona do estabelecimento, uma velha portuguesa, exclamou:

— Ah, sois brasileiro!

Aparentava ser latino-americano pelos traços e pela roupa, mas não nos modos: falava baixo, delicado nos gestos, chamava polidamente pelo pronome vous, não tu. E, como a cidade crescera tanto em número e variedade de imigrantes, nos últimos anos, ela já não sabia mais distinguir de onde vinham os hóspedes. E os estrangeiros traziam os hábitos mais estranhos: certa vez, um indiano besuntara a casa de banho inteira de azeite! O motivo daquilo, ela nunca soube, mas o fato era que os indianos banhavam-se com óleo de oliva. Levou o jovem Richard até o quarto e lá o deixou.

Na manhã seguinte, bem cedo, ele apresentou-se na École Normale de Musique antes que abrissem as enormes portas negras de madeira. Ficou estonteado com a decoração; o caminho até a secretaria mais parecia um museu, com tantos afrescos e vitrais coloridos, de modo que Richard demorou dez minutos para percorrer um percurso feito em menos de dois. Ao chegar lá, apresentou a carta. Foi informado pela secretária de que monsieur Melodovski não se encontrava em Paris, nem sabia como contatá-lo; estava em algum lugar do mundo, como de costume. Ademais, as admissões da escola já haviam sido encerradas poucos dias antes, e ele deveria tentar uma audição no ano seguinte. Pediu o telefone do monsieur Melodovski, mas ela não estava autorizada a dá-lo. Insistiu, então a secretária falou mais devagar para que a compreendesse melhor; Richard entendera perfeitamente da primeira vez — poderia recitar uma resposta em decassílabos alexandrinos se quisesse —, mas não queria saber de exames de admissão: procurava por Melodovski em pessoa e não sairia de lá sem vê-lo.

Todos os dias, durante uma semana, Richard Strauss repetiu o mesmo ritual. Apresentava-se com a mesma pontualidade, mostrando a mesma carta, e discutia com a mesma secretária loira, tão ríspida quanto era magra. Ela encarava-o, pelas lentes garrafais dos óculos, com minúsculos e frios olhos azuis.

Manhã após manhã, antes de sair, ele rezava para Santa Cecília, olhando a medalha dada por sua avó. Até que, no último dia, após mais uma negativa da entojada secretária, cansou-se e pôs-se a tocar sentado na calçada da encruzilhada com a Rue Cardinet. Os que o tomavam por artista de rua jogavam moedas no estojo da flauta; ao final de duas horas, haviam-no enchido. Porém, no início da tarde, quando já pensava em ir embora, duas pernas pararam à sua frente; não conseguiu distinguir o rosto ensombreado contra o sol. Estendia-lhe a mão:

— Dimitri Alexievich Melodovski, à vossa disposição.

Voltara a Paris no dia anterior — estivera brevemente no Paquistão, em busca de jovens talentos — e, somente alguns minutos antes, ao chegar em sua sala, a secretária informou-o que um jovem brasileiro estivera lá pontualmente, às sete da manhã, à procura dele, desde a segunda-feira passada.

Melodovski levou-o a seu pequeno escritório, no alto do antigo prédio histórico, subindo a escadaria. Era econômico, com mobiliário antigo, mas parco, escolhido a dedo. Títulos de vários livros na estante estavam em cirílico, ilegíveis para Richard. Havia panfletos antissoviéticos sobre a mesa. Durante a longa entrevista, o avaliador mais falou do que ouviu, sentindo uma estranha simpatia pelo jovem das terras tropicais. Tinha a mesma idade quando saiu de Moscou para o exílio.

Dimitri Alexievich era de uma linhagem nobre menor, já desprovida de dinheiro e prestígio, que teve a infelicidade de permanecer na Terra-Mãe após a revolução. Seu avô fora morto pelos bolcheviques em 17, mas seu pai, renomado matemático, fora poupado até os expurgos de Moscou, por ter sido um acadêmico útil aos fins propagandísticos do governo. Infelizmente o velho Alexei Fiodorvich não sobreviveu ao trabalho escravo na Sibéria, mas antes conseguiu mandar filhos e esposa para a França. Dimitri, que havia frequentado o Conservatório de Moscou e era exímio pianista, logo conseguiu sustentar-se em Paris.

Era um anticomunista tão convicto que, pouco mais de um ano depois, o encontrariam morto na poltrona da sala, de robe, com um sorriso congelado no rosto e o jornal do dia noticiando a queda da União Soviética; seu velho coração eslavo — tão acostumado às mazelas e aos infortúnios da vida — não fora feito para comportar tamanha alegria.

Após a entrevista, Dimitri Alexievich disse ter se certificado de que Richard Strauss possuía as melhores indicações para a bolsa, mas que teria de demonstrar suas habilidades na frente de uma banca avaliadora; por ele, estaria aprovado, pois vira indícios incontestes de seu potencial no Brasil, mas certas formalidades necessitavam ser cumpridas.

Em telefonema brevíssimo, no estilo telegráfico, devido aos custos exorbitantes das chamadas internacionais, o pai aplacou sua indignação:

— Seja humilde. Ninguém merece nada até conquistar.

Richard Strauss domou o ego. Retornou na semana seguinte para a audição marcada, mal sabia ele, na renomada Salle Cortot, com outros dois concorrentes à bolsa: um venezuelano de Maracaibo, muito alto, e um chinês de Pequim. Foram informados de que havia três flautistas extraordinários e apenas duas vagas. Não seriam permitidas interpretações de Bach — que, nos testes de conservatório, eram tão comuns quanto os monólogos shakespearianos nas escolas de teatro —, portanto, queriam algo surpreendente.

O chinês irritou-se em ser pego desprevenido, disse não saber, num francês meio enrolado com inglês, que seria um teste surpresa. Executou as danças da Suite Paysanne Hongroise, de Bartók, com precisão matemática nas dissonâncias estranhas do compositor, utilizando toda amplitude de seu instrumento, indo de pianíssimos sussurrantes a fortíssimos estrondosos. Mudava de compassos e tonalidades feito quem cruza a calçada, numa naturalidade que fez a mão do jovem Richard tremer pela primeira vez na vida.

A banca, composta por três músicos e por Melodovski, ocupava poltronas em frente ao palco. Ouvia-se apenas o friccionar das canetas nos papéis e o farfalhar de páginas entre um pigarro e outro.

O venezuelano era o próximo. Antes de se levantar, gracejou em espanhol para o colega brasileiro — pensava ser de origem hispânica — que sorriu de volta, mas não compreendeu nenhuma palavra. Tocou uma partita de Telemann com execução tradicional, mas sem cor.

Chamaram por Richard Strauss. Estava decidido pela ária da bachiana número cinco, de Villa-Lobos, inconsciente de que o compositor havia regido aquela melodia naquele mesmo salão, décadas antes. O jovem Richard subiu ao palco, lembrando-se de suas apresentações no pequeno conservatório em Pernambuco, e o pensamento absurdo de que morreria sem jamais retornar à sua terra natal o assolou como um dilúvio derramando-se por todas as notas, numa torrente tão intensa, que fez até os lábios do impassível concorrente chinês tremerem de tristeza.

Ao sair dos holofotes, a vista acostumou-se à pouca luz do salão e ele reconheceu, ao lado de Melodovski, um rosto familiar: Jean-Pierre Flageolet, o lendário intérprete que revelara a vocação do jovem como flautista.

Melodovski, dissimulando a comoção — desculpava-se assoando o nariz, irritado certamente pela mudança de clima —, disse que o resultado seria anunciado em poucos dias. O venezuelano se despediu, pois não havia motivos para adiarem o resultado; sabia que estava fora. Virou-se para Richard e disse:

— Se o amigo um dia se apresentar na Venezuela, me procure no Sistema Nacional de Orquestras.

E saiu do auditório.

Dois dias depois, Melodovski bateu à porta do quarto de Richard. Anunciou oficialmente que sua bolsa de estudos integral fora aprovada juntamente com a do senhor Xiao Sheng, o pequinês. Quando o jovem músico se retirou da pensão no Mercado das Pulgas para se instalar num pequeno apartamento alugado próximo ao Sena, a velha estalajadeira sentiu a ausência da flauta, naquelas longas e ensolaradas tardes de verão, como se tivessem lhe levado todos os cômodos da casa.

Richard Strauss se sustentou em Paris com dignidade graças a seus trabalhos como músico e professor particular. Resistiu à tentação — como lhe ordenara o pai — de rotular-se como músico brasileiro; mas como esse tipo de apresentação rendia-lhe um bom dinheiro nos bares do Quartier Latin, adotou o nome artístico de Richard da Silva, e assim manteve sua reputação incólume enquanto enchia os bolsos de francos.

Logo chegaram os convites para apresentar-se nos salões europeus, por indicação de seu benfeitor. Àquela altura, já era íntimo de Dimitri Alexievich, quem lhe abrira as portas da Europa Ocidental, fato que muito acirraria a rivalidade com o talentoso Xiao Sheng. Frequentemente, um conseguia trabalhos negados ao outro e vice-versa.

Durante suas frequentes visitas na casa do velho pianista russo, Richard tornou-se conhecido de um grupo que facilitava a fuga de dissidentes da União Soviética, utilizando-se de contatos da – agora recém-aberta – Alemanha Oriental para trazer refugiados ao ocidente. Estavam crentes de que cedo ou tarde o regime cairia: havia documentos secretos de um economista austríaco, datados de 1930, que provavam a inevitabilidade colapso. Era apenas questão de tempo; só não sabiam nem o dia, nem a hora.

Nesses encontros, foi apresentado à cantora lírica ucraniana Mária Adrianovna, com seus belos olhos glaciais e cabelos naturalmente platinados; sonhava em voltar para Kiev quando a Ucrânia fosse livre outra vez. Não demorou a se encantar com os dotes do exótico Richard Strauss, que logo também extrairia doces notas da deliciosa soprano em suas pequenas serenatas noturnas.

No ano seguinte recebeu um convite para tocar no Castelo de Windsor, na Inglaterra, com seu rival chinês. Ao atravessar o Canal da Mancha, sentiu-se em outro mundo: mesmo a triste Normandia não parecia tão triste comparada àquela chuva irritantemente britânica, fina e renitente mesmo nos gélidos dias de inverno. Apresentaram-se numa manhã de sol, em que a própria Rainha Elizabeth II surpreendeu a todos por aparecer sem aviso no meio daquela apresentação; chegara inesperadamente de Buckingham para passar o final de semana em seu castelo de campo. Richard era o solista da vez e chamou tanto a atenção de Vossa Majestade, executando a ária final de Tristão e Isolda para flauta — sem os típicos salsichões sinfônicos de Wagner —, que os músicos foram convidados a jantar no castelo. Mas, naquela noite, Xiao Sheng não apareceria a pretexto de uma forte dor de cabeça.

Já em Londres, Richard recebeu a notícia da morte de Dimitri Alexievich. Voltou imediatamente de trem, para o enterro. Mária Adrianovna chorava, não sabia se de tristeza pelo amigo, ou se de alegria por sua pátria com a queda do Comunismo; não houve quem a fizesse ficar, e o jovem Richard faria seu último dueto com a soprano naquela noite.

Richard Strauss nunca se esqueceria dos cabelos loiros sobre as costas nuas de sua amada, na cama daquele pequeno sótão — que ele chamava de apartamento —, contra a pequena janela com vista ínfima do Sena. Despediram-se para sempre na Gare du Nord, onde ela pegaria um trem rumo à Alemanha, depois Polônia, e de lá encontraria seus caminhos para a Ucrânia. Entre lágrimas e beijos, insistiu para que fosse com ela — o verão era agradável, passeariam nas estradas, entre as negras bétulas ao final de tarde e os campos de trigo dourados com o pôr do sol —, mas ele, acostumado a chamar de frio qualquer temperatura abaixo de vinte graus célsius, imaginou a infelicidade de um homem de sua terra em estepes tão gélidas.

Décadas depois, Mária Adrianovna pensaria ainda como sua vida teria sido diferente se tivesse casado com o jovem músico; lembraria-se dele na maturidade, alheia ao triste destino de seu cálido brasileiro, enquanto lamentaria a perda do marido e dos filhos na guerra russo-ucraniana, durante bombardeios a Kiev.

Em casa, após o adeus, Richard encontrou um lenço embebido no perfume de sua emotiva eslava, e pensou seriamente em tomar o primeiro trem noturno para Varsóvia, mas logo foi dissuadido pela flauta em cima da mesa. Nos próximos meses, sua música se tornaria ainda mais triste e bela, despertando a admiração de seus professores, em especial do exímio Jean-Pierre Flageolet, que se debruçava sobre aquele singular estudante com uma torrente de perguntas: como posicionava a língua para tocar? Qual contração especial dava aos lábios para este ou aquele efeito? O jovem Richard nunca havia parado para pensar naquelas nuances, o que enervou mais do que nunca seu concorrente chinês — a esta época, Xiao Sheng, não podendo vencê-lo, desenvolveu com aquele sagui de circo brasileiro uma estranha amizade.

O chinês passava os dias a segui-lo, perguntava seus métodos, suas técnicas — já conhecia todas e inclusive as dominava —, mas queria saber como fazia para comover tanto com seu sopro. Richard repetia os exercícios, beijava a flauta com uma paixão ardente; os olhos de seu rival brilhavam, não de inveja, nem de ódio, mas com a profunda angústia de sua alma. Tratara a música, até então, como aritmética, um objeto de todo racional e lógico, que poderia ser reproduzido por qualquer um, como lhe ensinaram no Conservatório de Pequim: a técnica daria conta de tudo. Mas faltava-lhe algo, que não sabia o que era, um elemento subjetivo — completamente alheio aos livros de teoria e ao ensino dos melhores mestres —, que buscou desesperadamente nos meses vindouros.

O encontrariam ao início da primavera com uma bala na cabeça. Xiao Sheng deixou uma carta, na qual expressava laconicamente sua profunda admiração pelo amigo brasileiro e confessava o amor por sua música. De uma maneira que lhe era inexplicável, não conseguia superá-la, nem sequer replicá-la: restou-lhe obter êxito ou morrer tentando, à maneira dos asiáticos. Ao final, deixava para Richard Strauss sua coleção de flautas, para que fizesse bom uso.

Richard olhou aqueles estranhos instrumentos – flautas de vários povos e civilizações – que vieram com um bilhete: acaso quisesse ser o maior flautista de todos os tempos, tinha de aprender todas as técnicas e sons de flautas do mundo. Após a graduação na École Normale, passou algum tempo estudando em Londres, depois foi aprovado no teste do Conservatoire National e voltou para a França, concluindo o curso com excelência.

Agora, Richard Strauss já não era mais tão jovem, e sua presença se fazia requisitada nas orquestras de todos os países da Europa. Sempre que encontrava um flautista de outras nacionalidades, aproveitava para aprender os ritmos e tradições de lugares longínquos. Quando em Roma, após apresentar-se para o Papa, passou na Igreja de Santa Cecília no Trastevere, onde acendeu velas para a avó, falecida no início daquele verão, e encomendou-lhe uma missa. Seu pai havia telefonado dando a notícia antes daquela turnê, mas ordenou que tampouco retornasse; duas semanas depois, apareceu à porta de Richard em Paris, de surpresa. Não havia mudado em nada, à exceção dos cabelos mais brancos. O filho precisava procurar gravadoras de grande porte se quisesse dar mais um salto em sua carreira.

Monsieur Flageolet, já nonagenário, mas ainda se apresentando com o fôlego de uma criança, foi quem lhe introduziu a seu agente, Mark Treiber, responsável por tornar Richard o flautista mais disputado dos cinco continentes e além — talvez Herr Treiber tivesse pretensões de divulgá-lo na Antártida, porém a falta de público ao sul do Ushuaia era um impeditivo. Alemão típico, com sotaque carregado e bigodes loiros, era eficiente e minucioso no trato; cuidava de Richard como uma peça de porcelana valiosíssima a ser vendida nos leilões internacionais. E as melhores gravadoras compravam seus artistas pelo único fato de serem indicados por ele. Apesar do repentino sucesso — seu primeiro disco ficaria na lista dos mais vendidos por meses —, Richard Strauss não sentiu grande prazer naquele triunfo. Vieram mais contratos.

Satisfeito, o pai retornou para a velha casa da Boa-Vista, com sua coleção de discos. Richard faria uma grande turnê pela Ásia, e aproveitou para tirar do armário a coleção de flautas orientais seu falecido amigo chinês. Em Pequim, aprendeu os tons e segredos do dizi, tradicional pífano de bambu. Navegou pelo Rio Amarelo, entre os vales verdes de gargantas pedregosas, ouviu as areias uivantes na imensidão tartárica do deserto de Gobi, observou os os sons pentatônicos anelados das escalas e aprendeu os seus cinco modos. Passou por montanhas, planícies e florestas, por vilas e cidades com mercados de peixes nos quais se encontravam bebês abandonadas entre os barris; e, navegando os rios, coletores de arroz cantoneses, naquela língua rápida e tonal, empolgavam-se com o nascido do sopro que trazia música em sua canoa. Ao chegar em Macau, onde teve de reportar sua chegada à delegacia da Polícia de Estrangeiros, surpreendeu-se ao ouvir português da boca dum oficial; à época, a região ainda era colônia lusitana.

Contudo, voltando a Pequim, seu guia — Fa Suo — alertou-o de que estava na mira da polícia secreta do Partido, pois suspeitavam que fosse um espião a serviço das potências primeiro-mundistas. Após se apresentar no Conservatório Central, palestrou para inúmeros Xiao Shengs em miniatura, como se produzidos em escala industrial, com dedilhado impecável e estudos semanais de mais de oitenta horas. Observavam atentamente o grande flautista francês — não sabiam que Richard Strauss era brasileiro, pois os ocidentais eram todos iguais — e dissecavam-lhe os gestos com a mesma frieza matemática de seu falecido amigo.

Ao chegar no hotel, porém, foi interceptado por um oficial de roupas negras, que contrastavam fortemente com sua tez amarelada. Levaram o estrangeiro para a delegacia, onde prestou depoimento; o interrogatório duraria mais de doze horas. Questionaram-no minuciosamente, num parco inglês misturado com mandarim, sobre onde esteve e com quem falou, o que fizera nos territórios ocupados pelos imperialistas — Macau e Hong Kong —, e a qual propósito viera à China. Depois, sem dizer nada, o deixaram numa sala branca. Lá ficou por não soube quanto tempo, sob o zumbido ensandecedor das lâmpadas fluorescentes, até que foi conduzido à sala do polígrafo, onde respondeu novamente às mesmas perguntas ilógicas; só então alguém teve a sensatez de trazer sua flauta para que provasse ser quem afirmava.

Tocou o lamento milenar da Dama Meng Jiang, cujo pranto pelo marido morto — forçado, pela dinastia Qin, a servir como construtor — desmoronou parte da Grande Muralha, conforme as lendas. Quando Fa Suo — que, além de intérprete, era advogado de porta de cadeia nas horas vagas — finalmente entrou na sala, conseguindo a liberação de seu cliente mediante suborno de um superior do Ministério de Segurança, todos os policiais choravam com a música; menos o oficial amarelo que levara Richard, alheio aos sentimentalismos daquela arte burguesa, sobretudo a imperial.

Richard Strauss achou que era hora de se retirar da República Popular da China. Mais do que imediatamente, tomou o primeiro trem e desceu no porto de Tianjin, no Mar Amarelo, onde apanharia uma balsa para a Coreia. Mas como tinha pressa, e o próximo barco passaria apenas no dia seguinte, conseguiu que um navio pesqueiro o levasse. Porém, confundiram-se de rota, pensando que aquele estranho europeu, ao buscar um transporte clandestino, na realidade queria ir para a outra Coreia, do norte. O coração do pobre Richard gelou ao desembarcar e ver, além dos rostos magros e empalidecidos pela anemia, a bandeira de outro país comunista. Voltou à embarcação, prestes a desatracar, e, apontando no mapa, negociou que o deixassem na Coreia do Sul pelo dobro de yuans.

Entre suas estadias em Paris para gravações de discos e seus concertos internacionais, nos próximos anos, Richard Strauss viajaria por toda a Ásia em busca dos sons perdidos das flautas primordiais: foi do topo do Monte Fuji, com os misteriosos estilos japoneses, cortantes feito katanas, porém dotados da delicadeza das cerejeiras em flor na primavera, aos rios caudalosos da Índia, margeados por selvas densas de místicas figueiras, onde aprendeu com os Yogues da Morte um tipo de sopro diferente, capaz de colocar quem o ouvia numa espécie de transe, como se diante do rugido dum tigre; lá também conheceu os lamas tibetanos e assimilou os tons de seus mantras milenares, tingidos pela púrpura melancólica do exílio. Ainda assim, não encontrou o que buscava.

Aproximando-se dos trinta anos, tendo também deslizado pelas areias dos desertos árabes e cortado as trevas das florestas subsaarianas — sempre a trabalho e nunca a turismo —, Richard Strauss fez sua primeira apresentação no Brasil desde que partira há mais de uma década, porém, por uma triste coincidência — um atraso de voo simplesmente inadmitido por seu cronograma — não pôde tirar um único dia de folga em sua cidade natal, antes do concerto. Viu o Recife ao longe, da janela do avião, e lembrou-se de seu velho pai, na solitária casa da Boa-Vista, há anos sem a avó, acompanhado apenas pela coleção de discos, aos quais Richard felizmente acrescentara vários exemplares.

Em São Paulo, foi recebido por um grande maestro — outrora exímio pianista, cujo destino lhe preparara o mais ingrato dos tormentos, tolhendo-lhe os movimentos das mãos — e lá permaneceu pelo restante da temporada. Conheceu músicos talentosíssimos, cuja carreira não progredira devido à falta de apadrinhamento; só então Richard Strauss tomou consciência da sorte que teve, e agradeceu no íntimo pelos sacrifícios do pai e da avó. No Brasil, a própria metafísica era invertida, e as regras do mundo real não valiam para lá: naquela terra, os talentosos eram julgados pelos medíocres e a carreira de um gênio poderia ser destruída por conchavos provincianos. Essa possibilidade parecia absurda nos salões de Paris, mas era norma nas salas de concerto paulistanas.

Passaria os próximos anos cultivando uma rede de contatos pela América do Sul, do Ushuaia a Punta Gallinas. São Paulo tornou-se sua residência entre as turnês, mas Richard sempre arranjava um pretexto para apresentações em Buenos Aires: a charmosa cidade com sotaque chiado o encantava sobremaneira, a ponto de cogitar seriamente morar lá, não fossem os mandos e desmandos nas finanças do país. Talvez por isso os portenhos carregassem a trágica compostura dos aristocratas arruinados, que se impunha nos dramas de seus tangos. Lá, Richard era tomado pela mesma vontade irrefreável de caminhar que sentia em Paris; e andava dos jardins floridos de Palermo até os túmulos assoberbados da Recoleta, cuja última vontade de seus moradores fora certamente transformar o campo-santo numa galeria de arte.

Em São Paulo, após sofrer uma tentativa de sequestro, quando saía do cinema num bairro nobre, Richard Strauss convenceu-se de que seu país não era lugar de gente direita e partiu para Nova Iorque. Durante o voo, teve de aturar por dez horas a indignação ininterrupta dum famoso músico popular brasileiro — um tal de Arlindo Galindo —, inconformado com o fato de aquele flautista não conhecê-lo. Ao pousar, sentiu-se livre outra vez da gaiola provinciana. Por intermédio de Mark Triber, conseguira uma apresentação no Metropolitan, o que por sua vez lhe abriria caminho para o consagrado Carnegie Hall.

Era sua primeira vez na América; lá trabalhou por dois anos, ganhando um dinheiro que jamais sonhara mesmo trabalhando na Europa. Foi convidado para palestrar em centros de renome, viajou aquele país de leste a oeste, indo das mornas praias da Flórida — onde os homens espantavam jacarés de seus gramados com frigideiras —, às Montanhas Rochosas de lagos cristalinos, habitadas unicamente pelos ursos. Na estrada, conheceu as profundezas do sul estadunidense, lar de pianistas cegos do blues, com suas vozes negras de saudades hereditárias; apaixonou-se pelo improviso sensual — ainda que iletrado — dos ritmos crioulos de Nova Orleans, com trompetes e clarinetes, baixos e contrabaixos, naquela cidade pantanosa que, nos bairros históricos afrancesados, lhe lembrava o coração de seu velho Recife. Ouviu também o uivo solitário dos chacais, nas noites pedregosas texanas, e a gaita desolada dos caubóis. Em tudo Richard Strauss reconhecia algum elemento de sua própria terra — não do que era, mas do grande país que poderia ter sido, caso seu povo, ainda colonizado pelo medo, tivesse preferido a incerteza da liberdade à certeza duma segurança ilusória.

Um dia, porém, um maestro mexicano amigo seu convidou-o para tocar em Cuba, no jubileu de Fidel Castro. Richard Strauss, acreditando ter passado por experiências ditatoriais o suficiente em sua vida, recusou. Mas depois, pensando melhor, foi vencido por sua curiosidade antropológica. Exigiu se hospedar, com o dinheiro que pagaria o hotel, na casa duma família tipicamente cubana, para ver como aqueles seres humanos parados na década de cinquenta viviam.

Impressionou-se com o grau de cultura de seu anfitrião — Félix Cuentera, romancista e docente na Universidade de Havana —, profundo conhecedor de música erudita e obras da literatura ocidental. Vivia com a esposa e uma filha, que acabara de dar à luz a um neto, cujo paradeiro do pai desconheciam após tentar a sorte na travessia do Estreito da Flórida. Félix pedia perdão pelo estado do sofá, que o gato arranhara todo, mas não tinham dinheiro para trocá-lo; e mesmo que tivessem, tampouco havia onde comprar outro. Falava com Richard em perfeito francês e perguntava de sua admirada Paris, que conhecia por inteiro sem jamais ter pisado lá — as únicas vezes que saíra da ilha foram para o México e para a finada União Soviética, onde concluíra o doutorado em Literatura Russa. Fora um escritor de muito prestígio, mas, devido à escassez de papel, suas obras pararam de ser publicadas pelo governo e ele se via, dia após dia, cada vez mais esquecido.

Apresentaram-se no Grande Teatro de Havana com pompa e circunstância; entre os convidados ilustres estavam praticamente todos os presidentes da América Latina; os que não compareceram, mandaram representantes, exceto o Paraguai. Do palco, podia-se ver El Comandante no camarote, vestido no icônico uniforme verde-oliva e fumando seu interminável charuto; ao lado dele, os presidentes do Brasil e da Venezuela. Depois do concerto, houve um espetáculo de fogos de artifício que durou meia hora.

No histórico Hotel Saratoga, Fidel exibia-se para um fotógrafo americano, tripudiando da incompetência da CIA e de outras forças imperialistas fadadas ao fracasso. Quando a imprensa saiu e as portas se fecharam, Richard Strauss viu um festival de opulências que não presenciara nem mesmo nas cortes europeias onde se apresentou: os champanhes mais caros eram servidos como se brotassem de fontes infinitas, os garçons traziam um banquete de luxos, com presuntos ibéricos, trufas enormes, queijos europeus e lagostas de três quilos; desperdiçavam uma lata de caviar inteira para cada general. Dentre os convidados, havia embaixadores, políticos, comitivas de estado, escritores e artistas internacionais simpáticos ao regime. Nem nos séculos de colonização espanhola se havia visto tanto ouro e brilhantes quanto os que circulavam ali, naquela noite.

Ao final da festa, a música parou e tudo se esvaziou como se por feitiçaria. Nas ruas desertas dos subúrbios, apenas os cachorros circulavam entre os entulhos nas ruas de terra. Voltando para a casa de seus anfitriões, Richard Strauss foi acometido por uma náusea que não passaria até deixar a ilha. Ao despedir-se, decidiu doar seu cachê inteiro ao señor Cuentera, que o agradeceu imensamente, beijando-lhe as mãos: era dinheiro para muitos meses.

Porém, quando já havia embarcado as malas no táxi, pronto para tomar o rumo do aeroporto, onde apanharia um avião até o México, a filha dos Cuenteras o abordou. Trazia o bebê no colo:

— Por favor, senhor Strauss, leve meu filho.

Em lágrimas, colocou-lhe a criança nos braços; ele, não sabendo como reagir, devolveu-a e mandou que o taxista arrancasse para o aeroporto.

Aquele instante selou definitivamente o destino de Richard Strauss; jamais conseguiria esquecer a jovem mãe, cujos olhos, mais do que os lábios, imploravam: tire-o daqui ou o condenará à morte. Dali em diante, até seu último suspiro, Richard Strauss concentraria todas as suas suas ações para pagar pela omissão daquele pecado.

Em seus próximos anos na América Latina, encontrou um intervalo para suas desventuras em Assunção, La Madre de las Ciudades, e lá ficou contratado como professor do Conservatório Nacional, naquele estranho país em que a sopa era sólida e ainda se falavam as línguas nativas. Nesse hiato — no coração obscuro da América do Sul, onde os olhares internacionais eram incapazes de penetrar —, Richard encontrou um lado desconhecido de sua própria alma. Quer pelo silêncio, quer pela fervorosa religiosidade colonial — memória viva das missões civilizatórias dos jesuítas —, com suas Virgens cabeludas, rezas entremeadas de guarani e autos nos quais um Cristo indígena encarnava as dores da Paixão, Richard Strauss reviveu o catolicismo sertanejo de sua falecida avó, que agora melhor compreendia. Ainda assim, nada era capaz de aplacar os pesares de seu coração, e sentia um chamado ao longínquo, inquietante, que só poderia vir dos misteriosos desígnios Dele.

Mas, como sua alma de desbravador lusitano tropical não permitia tais calmarias, logo partiu pelos Andes até o Pacífico; a verdade é que se enamorara por uma bela harpista paraguaia de negros cabelos, mas a perspectiva de ter dez filhos e morrer de velhice à beira do rio, tomando mate, parecia afastá-lo daquele chamado. Peregrinou pela pedregosa espinha dorsal andina, por onde subiria até o mar do Caribe.

Conheceu os povos das montanhas, com quem mascou coca e dançou em frente à fogueira, naquela altitude que os deixava mais perto do céu, e aprendeu os ritmos ancestrais dos povos indígenas — inclusive da famigerada siku, dos quéchua, ou flauta peruana, presente nas praças de todo o continente. Do topo do mundo, sob o brilho das galáxias, povoadas por infinitas estrelas, Richard Strauss contemplou a vastidão desolada da humanidade; era certamente o flautista mais habilidoso que já caminhara sobre a terra, mas isso nada significava. E sentiu uma profunda saudade dos que o impeliram àquele caminho: sua avó, Dimitri Alexievich, Xiao Sheng, Mária Adrianovna — o que a vida fizera de sua amada eslava? —, por fim, imaginou seu melômano pai na morna casa da Boa-Vista, apreciando o disco mais recente do filho.

Em Quito, foi convidado pela Sinfônica Nacional para homenagear um grande compositor equatoriano. Na noite da apresentação, Richard Strauss sentara-se ao palco, de olhos fechados, como de costume, concentrando as emoções necessárias para dotar de sentimento sua impecável técnica. Quando a orquestra começou e ele já estava quase pronto para entrar com o solo, o maestro parou de súbito. Richard sentiu um toque sobre o peito. Era o spalla, apontava para os lustres que tremiam e o fino reboco que caía do teto.

O maestro virou-se, para tranquilizá-lo:

— Não é nada.

Mas, como os tremores de terra não cessavam, logo evacuaram o teatro. O spalla indicou a saída. Richard via a massa coordenada de gente esvaziar o auditório. Alheio à situação, lembrou-se de suas flautas. Voltou ao palco para apanhá-las, quando se deparou com uma violinista cadeirante, deixada para trás, que gritava: tenho filhos, que será de meus filhos? Richard Strauss calmamente apanhou a bolsa com seus instrumentos e levou a mulher nos braços. Quando pisou fora do palco, uma nuvem de poeira espalhou-se pelo teatro, e ele sentiu braços guiando-o para fora; o teto havia desabado. Em sua mente, a cena durara minutos, mas na realidade passaram-se segundos. Aquele fora um terremoto de oito graus na Escala Richter e destruíra metade de Quito, matando milhares.

Cansado de planícies e montanhas, Richard pensou que seria boa ideia passar um tempo nas praias caribenhas. Aceitou um convite para palestrar no Sistema Nacional de Orquestras da Venezuela, conhecido carinhosamente como El Sistema. Impressionou-se com o fato de, num país tão pobre, encontrar tal qualidade de instrumentos musicais, câmaras acústicas, equipamentos de gravação e materiais de ensino; possuía tudo o que havia de mais avançado em Música, superando inclusive o Conservatório de Paris. Ele não estava preparado para as maravilhas que testemunharia: apresentaram-lhe um auditório com um imenso órgão de tubos e tecnologias sonoras mais modernas, salas de aula perfeitamente equipadas para a necessidade de cada estudante, exibiram orgulhosamente o planejamento nacional do ensino de música, que atingira mais de um milhão de jovens e crianças por toda a Venezuela. Aquela nação fora destinada a ser a maior potência musical do mundo pelo falecido El Comandante Chávez; mas o som daquelas palavras levou-o de volta à noite em Havana, defronte ao camarote do outro comandante, onde os ditadores aplaudiam o espetáculo — só então o feitiço se desfez, e Richard Strauss notou que quase caíra na maior propaganda já feita pela ditadura bolivariana: o próprio El Sistema.

Em suas oficinas e apresentações, Richard vira tanto talento nos jovens músicos, tão fervorosos em sua arte — pois era único meio de resistir à brutalidade totalitária daquela existência —, que pela primeira vez seu coração sentiu ter encontrado a origem daquele chamado, e ele resolveu permanecer por mais algum tempo ministrando aulas gratuitas; assim os dias viraram semanas, que por sua vez se tornariam anos.

Presenciara as exatas mesmas cenas que em Cuba: filas quilométricas por um saquinho de pão, os desabastecimentos nos mercados — muito piores do que os de sua infância, na década de 80 brasileira —, as cartelas de racionamento, os apagões. Porém, para os estrangeiros, que ganhavam em dólar e gastavam em bolívares, a vida de milionário era acessível por uma bagatela, de modo que don Richard — a quem dinheiro não era problema — tinha chofer e morava numa cobertura à beira-mar, perto de Caracas; coisas que nunca sonhou em ter na vida, quem diria por menos de cem dólares mensais.

Certo dia, antes de um concerto, um homem de sua idade, mas cuja magreza e altura o faziam parecer mais velho, se aproximou. Dizia conhecê-lo: era o flautista venezuelano com que disputara a bolsa na École Normale, em Paris. Manuel Lira estava desempregado e pedia trabalho: era um flautista excelente — não tanto quanto o intercontinental Richard Strauss —, mas sabia de seu valor e não era músico de se desprezar. Sua desgraça teve início quando, nas eleições anteriores, votou no candidato da oposição; poucas semanas depois, o exoneraram do cargo no El Sistema, alegando comportamento inadequado aos valores pedagógicos e sociais da instituição. Havia sido coordenador geral dos instrumentos de sopro por dez anos, e o mandaram embora sem nem pagar os termos de sua rescisão. Inúmeros outros colegas passaram pelo mesmo.

Richard nada podia fazer, mas prometeu que pensaria numa maneira de ajudá-lo. Antes de se despedir, deu-lhe dez dólares — o salário de um músico era dois dólares mensais, à época — e Manuel Lira agradeceu-o com um apertadíssimo abraço de urso magro, deixando endereço e número de telefone do vizinho; haviam cortado sua linha, mas poderia chamar por lá, que estaria disponível a qualquer momento e para tudo o que precisasse, pois tinha muitos contatos em toda a Venezuela.

Naquela noite, Dimitri Alexievich aparece-lhe em sonho. Estavam no auditório do velho Conservatório Pernambucano, e novamente avaliavam Richard Strauss, mas, desta vez, por sua vida; era como se cada uma de suas ações fossem uma nota a ser julgada. Na banca, estavam todos os seus mortos queridos — mas seu pai, mesmo vivo, encontrava-se inexplicavelmente entre eles — e Dimitri Alexievich sentava-se ao lado de outro homem, cuja face iluminada Richard não era capaz de distinguir, embora acreditasse conhecê-lo. Não fora reprovado por média, mas iria para o exame de recuperação. O velho amigo dera-lhe um último conselho ao ouvido antes de mandá-lo se retirar do palco.

Então, acordou assustado na sala de seu apartamento, com a brisa morna daquele eterno verão tropical balançando as cortinas; o luar prateava toda a costa do Caribe e adentrava a janela. Olhou para a flauta sobre a mesa de centro, as partituras espalhadas pelo vento. Lembrou-se de Dimitri Alexievich. Sob a luz da lua cheia, toda a sua existência iluminou-se por completo; e Richard soube exatamente o que fora chamado para fazer.

Nos próximos dias, reuniu os músicos mais talentosos que Manuel Lira pôde contatar. Convidava-os, um por um, para entrevistas privadas, em longos e despretensiosos almoços, onde os conhecia, ouvia suas histórias, ambições e sonhos frustrados; por fim, revelava seu projeto de gravar um disco por mês, utilizando-se da infraestrutura do El Sistema. O salário — vinte dólares mensais para cada músico — seria pago diretamente por ele; como prova, adiantava metade do valor. Muitos saíam incrédulos, outros choravam, ou se empolgavam brindando com rum até cair de alegria. E assim contratou mais de setenta músicos. Todos compareceram pontualmente no primeiro ensaio de orquestra.

Alguns desculpavam-se antecipadamente ao maestro Strauss pela falta de prática — venderam seus instrumentos para terem o que comer —, mas Richard impressionou-se com a precisão da performance na primeira leitura; era o som mais limpo que já ouvira, não havia um erro sequer, e puderam gravar na segunda execução.

Após algum tempo, a fama do maestro Strauss aumentara a ponto de músicos de toda a Venezuela comparecerem em romarias buscando trabalho. Richard não tinha mais onde empregar tanta gente: possuía mais músicos do que a Filarmônica de Berlim. Foi então que começou a enviá-los para fora do país. Os mais novos e talentosos, deu um jeito de mandar para a Europa, fornecia contatos, dava-lhes instruções e um abraço; os mais velhos, sem condições de adaptar-se, despachava para o Brasil — muitos chegavam em Manaus e por ali se assentavam, devido aos programas musicais daquela cidade —, ou para outros países da América Latina e mesmo Estados Unidos, quando ocorria a feliz coincidência de terem parentes lá. Era uma diáspora dispendiosa, pois um passaporte oficialmente custava quinhentos dólares, mas era preciso mais de três mil para obtê-lo mediante subornos. Apesar disso, Richard não media esforços: todo o dinheiro das gravações — sucesso internacional imediato devido ao velho Mark Treiber — era revertido para o sustento dos músicos locais e financiamento dos exilados; muitas vezes ele tirava do próprio bolso para cobrir os custos.

Quer pelo sucesso comercial daquela empreitada, quer pelo aumento incomum na fuga de dissidentes, as engrenagens estatais começaram a se mover, e agora a máquina da ditadura bolivariana apontava lentamente sua mira para o estrangeiro Richard Strauss. Após a morte do fundador do El Sistema — substituído não por um músico, mas por ninguém menos do que a própria vice-presidente do regime —, o maestro foi abordado pela nova diretoria. Exigiam que pagasse diretamente à instituição os salários dos músicos, para serem repartidos igualitariamente como mandava a lei. Recusou-se.

Vieram as primeiras críticas dos jornais, antes elogiosos, que o noticiavam como um imigrante oportunista se aproveitando do povo venezuelano. Logo depois, demitiram os contratados de Richard e o proibiram de utilizar qualquer estrutura pública para suas gravações. Isso em nada o afetaria; logo mandou importar os equipamentos que necessitava e montou o próprio estúdio.

Começavam os protestos: a população se revoltava contra o governo em passeatas, mas Nicolás Maduro respondia-os com voracidade sanguinária, e as engrenagens da máquina miraram outros alvos, deixando Richard em paz. Foi então que ele dedicou-se a uma atividade inesperada: a composição. Em seus quarenta e dois anos, sempre fora intérprete e jamais sentira as angústias da criatividade, até aquele momento. Toda a música acumulada ao longo de décadas, dormente em seu coração, irrompeu como numa tempestade tropical; sentado ao piano, segurando a caneta, rogava a Deus por uma Beleza que ouvido humano algum jamais ouvira. Depois, solfejava os temas e motivos de uma única vez, levando os manuscritos para a orquestra, que os executavam precisamente em seguida.

A situação política degringolava: a mídia noticiava inimigos externos que todos sabiam ser fictícios, e Nicolás Maduro pronunciava-se diariamente, atribuindo a culpa da crise à CIA e ao recém-eleito presidente americano, cuja tez certamente lhe causava obsessivo incômodo, pois, a cada duas frases, sentia a necessidade de se referir a ele como o Homem Laranja. O governo dos Estados Unidos estaria utilizando tecnologia ultrassecreta — um armamento quântico de última geração — para alterar o clima na República Bolivariana, interrompendo o ciclo de chuvas numa tentativa de causar a fome, pois temiam que a Venezuela se tornasse a maior potência do mundo; declarava, assim, guerra ao imperialismo ianque. Richard lembrou-se de ouvir similar ladainha em Cuba e, antes disso, na China; por fim regrediu até os tempos em que seu velho amigo Dimitri Alexievich caçoava do fato que, no comunismo, o único gordo do país geralmente é o ditador: todo totalitarismo era igual, mas cada regime era infeliz à sua maneira.

Richard Strauss saiu do escritório após muitos dias compondo: finalizara a obra-prima que o elevaria ao nível dos grandes mestres; e não estava errado em sua intuição, pois aquele disco superaria um milhão de ouvintes na internet em seu lançamento. Sabia que uma guerra civil era iminente e aquele barril de petróleo estava prestes a explodir. Também chegara a seu conhecimento que as engrenagens sanguinolentas daquela máquina finalmente se movimentavam para capturá-lo. Grande foi a surpresa de seus músicos ao lerem o título da obra a ser executada: Um Réquiem Para a Venezuela. Os violinos repousaram em choque sobre os colos, as flautas permaneceram atônitas entre as mãos e os tambores calaram-se num silêncio atroz. Temiam os rumos desconhecidos do exílio, ou os destinos piores do que a morte no Helicoide, prisão que se erguia entre as favelas de Caracas, onde os gritos dos encarcerados políticos sumiam para sempre.

Richard Strauss admitiu: seria a última vez que estariam juntos. Já havia elaborado um plano de fuga para cada um que desejasse fugir do país; ninguém deixou o estúdio. Do lado de fora, diante dos protestos massivos, as tropas da revolução bolivariana alvejavam com metralhadoras o povo que protestava desarmado. Não havia para onde ir, o estúdio era o lugar mais seguro de toda a Venezuela; havia água, comida e suprimentos para quinze dias. Ao final daquela semana, souberam que os cachorros do estado — aos quais Maduro chamava de força policial — assassinaram mais de trezentas pessoas num único dia.

Richard Strauss liderou uma grande operação de fuga, utilizou-se de toda a sua pequena fortuna — numa época em que vinte dólares operavam milagres — para retirar seus músicos do país em segurança. Quando finalmente lançou o disco, o sucesso internacional foi imediato. Logo vieram as manchetes o acusando de traidor e agente infiltrado americano; a Guarda Bolivariana arrombou a porta de seu apartamento com ordens de prisão por crimes contra a segurança nacional. Não encontraram senão as sombras da mobília. Richard Strauss partira sem deixar vestígios.

A muitos quilômetros de distância, na fronteira com a Colômbia, sobre a Ponte Internacional Simón Bolívar, Richard Strauss se preparava para atravessar com documentos falsos, quando o oficial da alfândega tentou extorqui-lo: só carimbaria o passaporte por quinhentos dólares. Richard se recusou, pois, mesmo que quisesse, não tinha um único tostão no bolso. Cruzou a ponte a pé e seus passos ecoaram no escuro. Quase do outro lado, ouviu-se um único disparo de rifle rasgar o silêncio a noite.

Continuou a marcha. Estava na Colômbia. Só então, o corpo de Richard Strauss caiu sem vida diante da polícia de imigração. Seu velho pai também morreria ainda naquele ano: encontrariam-no à sala da solitária casa da Boa-Vista, com um copo de conhaque na mão, enquanto ouvia o aclamado último disco de seu pequeno Richard.

Ciudad del Este – 05/07/2025

Comentários

4 respostas para “A Triste e Breve Vida de Richard Strauss”

  1. Avatar de Vicente Cruz
    Vicente Cruz

    Excelente conto. Richard morreu certamente com a sensação de dever cumprido.

  2. Avatar de Bruno
    Bruno

    Conto Maravilhoso. Me lembrou muito os contos de Gabo, inclusive o título.

  3. Avatar de Juan
    Juan

    Excelente conto, Paulo — O Strauss da literatura.

  4. Avatar de Vinícius
    Vinícius

    Excelente conto, Paulo!

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