Após várias postagens em nosso grupo do Facebook, não pude deixar de notar que muita gente não vem lendo as recomendações bibliográficas indicadas, que são bastante necessárias para que saibamos o que estamos falando. É primordial estudarmos para sabermos falar, isto é, utilizar os termos corretos para nos expressarmos. Do contrário podemos falar algo que pode significar o oposto do que realmente queremos dizer. Também é preciso entender o que é dito aqui, internalizar esse conhecimento, estudando e escrevendo, não apenas concordando ou discordando, mas testando na prática. Na criação literária é preciso experimentar.
Nosso primeiro postulado é que não analisamos um livro pela história. A função das técnicas (não da Técnica, com T maiúsculo, o ofício do escritor) é a de ferramenta, o uso da linguagem para um fim. Não é mais que um meio, sendo o fim a melhor forma de se desenvolver o estilo do texto; em outras palavras, a melhor forma de se contar uma história. Também em outra postagem falei que a história não nos interessa, é verdade. Porém a história é um dos cinco pilares da narrativa, de acordo com o formalismo russo, sem os quais não há literatura. São estes:
Personagem, História (antiga Estória ou Fábula), Narrador, Tempo e Espaço (Para fins didáticos, lembrar PENTE). Então, por que devemos esquecer a história? Ou melhor, o que é história? É o mesmo que enredo?
História é uma série de eventos cronológicos puros, diz Forster. Enredo é uma série de eventos cronológicos mais a causalidade. Por exemplo: o rei morreu. Eis uma história. O rei morreu assassinado e a rainha se suicidou de tristeza. Este é um enredo, uma história com causa e efeito. Uma história é movida pela pergunta: e então?; o enredo por: e por quê?; numa história queremos saber o que vem depois, num enredo é preciso inteligência para se perguntar a causa de algo. Histórias de Conan Doyle, Agatha Christie ou qualquer mero escritor policial nos move pela curiosidade pura e simples sobre o que vem a seguir. Os motivos do assassino são menos relevantes do que o assassinato em si e suas causas materiais. Já quando lemos “Angústia”, de Graciliano Ramos, o menos importante é o crime; nos é relevante a condição humana por trás dele, a causa oculta do criminoso.
É nisto que consiste parte de nossas inquietações. Para Foster, o enredo é como você apresenta a história, transformando-a em arte (o que diferencia o enredo de um mero melodrama). Já Raimundo Carrero usa a nomenclatura “montagem”. Enredo ou montagem, no que proponho aqui, é como nós transformamos a mais simples das histórias em algo belo. Não se mede uma narrativa pela quantidade de peripécias (vulgo plot-twist) ou pela grandiosidade da história, mas pela maneira como autor a escreveu. Em suma: o que nos importa é como a história é contada, não o quê ela conta. O tema e história são conteúdos materiais, não literários, e por isso aspectos impróprios de nossos estudos. Qualquer tema é interessante, basta se dedicar a ele por tempo o suficiente.
Tirando a história, o que temos de belo para admirar na escrita? Qual emoção estética resta? A história nos distrai de partes mais profundas do processo criador. Já falei que dizer que um escritor é um contador de histórias é uma regressão; somos isso e ao mesmo tempo não somos mais: evoluímos. Um diretor de cinema, um roteirista, quadrinista, compositor de óperas, todos eles contam histórias, mas o que os diferencia? Não só a mídia, o meio em que cada um trabalha, mas também a poética, as técnicas de criação. Um escritor não vai contar uma história da mesma maneira que um cineasta ou dramaturgo pelo simples motivo de que o meio é diferente. Cada mídia tem sua poética. E quando tocamos em poética, tocamos em Arte.
Mais do que o meio, a Técnica (Ofício) é o domínio da arte. Os medievais tinham menos problemas em ver a relação entre técnica e arte, já que para eles “arte é a reta razão do fazer” (definição que tem um dedinho, ou todos os cinco, em Aristóteles). Nesse sentido, a própria palavra Arte vem do latim, Ars, técnica. Ou seja, embora o objeto da arte não seja a técnica em si, é impossível realizá-lo sem alguma técnica. É preciso ter muita intimidade com as técnicas, conhecê-las bem. Não basta, para o escritor, saber um ou outro nome de técnica, sem ter domínio sobre ela; do contrário estamos falando de tecnicismos bestas, malabarismos verbais e exibicionismos. Tomemos o exemplo dos artesãos: não basta conhecer os nomes a as funções dos instrumentos do carpinteiro, para fazer um móvel tem de se saber como utilizá-los. Em arte, não se cria sem domínio técnico, poético, sem o ofício.
Com isso, as técnicas não significam um entendimento ou interpretação dos críticos sobre o texto. Elas são os próprios meios pelos quais o autor se utilizou para escrever. O uso delas é, na maior parte das vezes, consciente, busca uma função e um efeito, mesmo que haja algumas interpretações divergentes do sentido original ou que o escritor não tenha total noção do alcance delas. Não é porque nós não conseguimos identificar a técnica de um autor (ou até ele mesmo) que ele não utilize nenhuma; e o uso de técnicas significa a escolha e operação de muitas regras. É o que nos lembra Adler, em “Como ler livros”:
“A propósito, nem todos entendem que ser uma artista consiste em executar operações de acordo com regras. As pessoas apontam para o pintor ou escultor altamente criativo e dizem: ‘ele não segue regras. Está fazendo uma obra de arte totalmente original, algo que nunca foi feito antes, algo para o qual não há regras’. Mas elas falham ao não perceberem as regras que o artista está seguindo. Não há regras finais, inquebráveis, estritamente falando, para se fazer uma pintura ou escultura. Mas há regras que o pintor e escultor precisam seguir, sob pena de não conseguirem fazer aquilo que planejaram. Não importa a originalidade da obra de arte, não importa se poucas ‘regras’ parecem ser obedecidas na execução da obra — o que importa é que o artista tem que estar apto a reproduzi-la. Essa é a arte — habilidade técnica — da qual nos falando.”
Crítica não é o mesmo que criação. A criação literária é um processo consciente de saber (ou procurar saber) a razão de ser em cada palavra no texto, cada elemento da narrativa, enquanto se escreve. É uma habilidade que demanda tempo e experiência para se desenvolver, junto à criação de parâmetros.
Portanto, chegamos a um segundo postulado: não avaliamos um livro pelo sucesso comercial, mas pelo êxito; o quão bem o escritor conseguiu atingir seu propósito. Isto ainda será tema de outras discussões, mas por ora, tomemos o exemplo de Kafka: era um autor anônimo quando morreu, vindo à posteridade como um grande gênio pelo êxito que obteve. Ou Flaubert que era um escritor massacrado pela crítica e quase caiu esquecimento após a morte, não fosse Proust. Por outro lado, temos inúmeros best-sellers esquecidos por não terem obtido êxito e, por isso, não são admirados por gerações posteriores; não possuem a beleza necessária para perdurarem por si.
Para o escritor, dominar a técnica é dominar sua própria razão de ser.
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