A ferro e fogo: o dever do crítico

11 de setembro de 2018

  “Desde a época de João Batista até o presente, o Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam. ” ― Mateus 11:12

Do estudante de ensino fundamental ao pós-doutor em letras, ou mesmo o mais vendido dos autores best-sellers, todos repetem ad nauseam o adágio “ler faz bem”. Mas faz bem exatamente para quê? E ao quê? Como nos lembra John Gardner, no clássico “A Arte da Ficção”, em todos os níveis educacionais ouvimos a recomendação de qualquer tipo de leitura, como se fosse uma dose diária de vitamina C, cujo mero consumo nos faz bem por si só. Contudo, em nível intelectual, mesmo pequenas doses de má literatura, ou má filosofia, podem ser bastante nocivas para a inteligência; em doses cavalares, podem destruí-la por completo.

Ainda assim, muitos argumentam que qualquer tipo de leitura é, sim, bastante saudável, pois abre portas para outro tipo de leitura, supostamente mais elevada. Os críticos esnobam a literatura popular, nos dizem, e com isso afastam o grande público da cultura. Mas até onde isso seria verdade? G. K. Chesterton abre “O Defensor”, no artigo “Em Defesa dos Folhetins”, com as seguintes palavras:

 “Um dos mais estranhos exemplos do nível ao qual a vida comum é subestimada é no exemplo da literatura popular, cuja grande maioria descrevemos, com muita satisfação, como vulgar. A novela do garoto pode ser ignorante num sentido literário, o que é somente a mesma coisa que dizer que um romance moderno é ignorante no sentido químico, ou econômico, ou astronômico; mas ele não é vulgar intrinsecamente ― é o verdadeiro centro de milhões de imaginações flamejantes.”

Tradução livre do artigo “In the defense of penny dreadfuls”, no livro “The Defendant”, do citado autor.

Embora seja verdade que muitos dos nossos críticos torçam o nariz para best-sellers, o melhor exemplo de literatura popular de nossos dias, e que também seja verdade que desconheçam, em maioria, as causas de qualquer qualidade literária que seja, agindo mais ou menos feito Íon, garanto que Chesterton não seria menos ávido em reclamar da falta de teologia num livro sobre São Tomás de Aquino, ou falta de filosofia num ensaio sobre Aristóteles. Em Arte, é preciso a todo custo defender o que há de mais elevado; e o obeso polemista inglês defendia com unhas em dentes apenas seu próprio mau gosto mórbido. Em literatura, a qualidade literária (ou sua falta) é crucial para entendermos o tipo de educação ela pode nos propiciar, direta ou indiretamente.

Como bom aristotélico extremista, acredito que a arte é um bem em si mesma, cujo valor é estético, feito para a contemplação, não para o didatismo, a propaganda ou a pornografia. Contudo, isso não significa, de modo algum, que a apreciação da obra de arte não possa acarretar em reflexões para fora de seu campo; basta rememorar alguns dos grandes livros da humanidade, a começar por Platão, para constatar o sem-número de reflexões filosóficas, sociais e históricas motivadas por situações retratadas em obras de ficção ou poemas. Essas reflexões são consequência natural da contemplação estética da verdadeira Beleza, que reverbera na alma humana na forma de uma espécie de assombro que desperta verdades inatas e universais adormecidas no homem. Não obstante, para o estudo da arte, o que realmente interessa à análise é puramente o problema artístico da forma: como o artista tratou de transmutar o conteúdo, as vivências, os temas e as filosofias em arte. Mas não em qualquer arte: a boa arte; idealmente a excelente.

As demais ligações culturais podem, e devem, ser apontadas numa fase posterior à análise: a crítica propriamente dita. A crítica literária preocupa-se, ou deveria se preocupar, não apenas em traduzir a experiência do crítico — a rigor, um leitor mais experiente — ao leitor médio, ou espectador comum, sem iniciação artística. Ela deve criar pontes entre esse leitor médio e uma cultura superior, expondo vínculos e relações antes ocultas; deve “puxá-lo para cima”. Não há ignorante que seja bom leitor e sabemos que este último busca sempre “se educar” através da arte, conscientemente ou não, obtendo alguma compreensão da vida mediante a contemplação da beleza, ao se confrontar com o “mistério” apresentado pelo discurso poético. Donde podemos deduzir a importância da educação — ou formação — que a arte pode nos propiciar.

Uma ideia mais sólida de educação pela arte vem de Platão aos dias de hoje, de modo que não devemos subestimar o valor da educação da imaginação (ou pela imaginação), termo usado por Northrop Frye, ou educação do imaginário, ideia amplamente difundida no Brasil por Olavo de Carvalho, ainda que utilizada ad prostitutio pelo espectro político conservador como pretexto para proselitismo ideológico e autopromoção. Seja qual for o nome dado à teoria, com suas sutis nuanças de diferenças, a educação imaginativa talvez seja a etapa mais básica e importante de uma formação humana integral. Esse tipo de educação se dá, idealmente, desde a tenra idade, através do contato com as coisas mais belas, portanto, mais próximas dos universais. A privação da beleza durante as fases de formação do indivíduo provoca uma patologia mental já conhecida pelos gregos antigos: a apeirokalia. Aquele que não experimenta o que há de mais belo desde a infância torna-se como que um raquítico intelectual, cuja mente, por falta um arcabouço que lhe dê sustentação, é incapaz de compreender os saberes mais elevados.

Tomemos imaginação pela capacidade de construir modelos possíveis da experiência humana, de forma mais simples: é nosso “órgão” de empatia. Através da imaginação temos uma consciência maior sobre nossos atos, como nossos desejos e vontades afetariam o universo ao nosso redor caso postos no campo da ação, compreendemos melhor nosso lugar no mundo, além de percebermos melhor a inelegibilidade das coisas nele (em outras palavras, nossa inteligência, no sentido de percepção da realidade). Nesse sentido, toda ficção especulativa é pura perda de tempo, mas isso é assunto para outro momento. Por ora, basta saber que quanto mais a literatura se afasta do eixo humano ― o plano das ações e dos sentimentos humanos ― e se abstrai para o eixo temático ― o plano tanto da imaginação desenfreada quanto de reflexões filosóficas ou sociológicas ―, mais ela se afasta de sua natureza literária.

A personagem é o alicerce da boa ficção: sobre ela se ergue o aspecto psicológico e existencial da narrativa. É dela que derivamos o valor humano da obra, e a educação moral propiciada pela arte se revela na contemplação dos conflitos humanos, na representação da ação, não através de reflexões e explicações impostas pelo autor, ainda que descaradamente disfarçado de narrador onisciente. É vivendo imaginativamente os conflitos internos, desejos e angústias das personagens, que tiramos lições da arte, seja por meio do exemplo ou conta-exemplo. Mediante a experiência imaginativa em confronto com nossas próprias vivências e percepções sobre a vida, podemos conhecer uma verdade inerente às boas obras. Conhecer, já dizia já dizia Aristóteles, provoca uma espécie de prazer no ser humano; e a arte, igualmente como algo a ser conhecido, provoca um duplo deleite: estético e intelectivo, que não se distinguem na realidade. Se o que é mostrado ou apreendido é fútil, dificilmente será belo, portanto, indigno de ser conhecido, experienciado.

Ainda nesse sentido, também devemos lembrar Horácio, para quem a poesia é um modo singular de educar com deleite; vence o poeta que melhor unir o útil ao agradável. Mas, para propiciar esse docere cum delectare, o artista precisa de uma vida de preparo. Nem todos estão dispostos à dedicação e disciplina quase marcial à arte, além da educação intelectual ― visto que nossas limitações morais e filosóficas limitam nossa obra e capacidade técnica, afetando diretamente, é claro, a cosmovisão retratada. Nenhum ignorante tampouco produziu algo que preste. Por outro lado, para se possa ensinar deleitado, o artista não pode mirar na didática, do contrário, termina com uma obra retórica, anti-poética; de igual forma ele não pode mirar na beleza em si, pois terminará com algo artificial e afetado. Isso se dá pela mania de querer enfeitar — e só se enfeita aquilo que está feio. O verdadeiro artista vive na Beleza, suas ações devem estar em conformidade com o que é belo, bom e verdadeiro, num exercício diário de excelência, para que possa ter êxito. Ao se doar à obra, num total esquecimento de si, ele se torna um receptáculo para a Beleza do mundo — a qual não cria, apenas descobre como parte da Criação — e transmite da melhor maneira possível suas experiências reais e imaginárias em linguagem poética, abarcando o indizível numa gama de impressões e emoções, objetivas ou subjetivas, que de outro modo não poderiam ser expressas. O sonho ficcional criado pela arte, seu efeito mágico, se quebra quando o artista tenta explicar e interpretar sua obra ao observador; por isso, não há nada mais chato que um artista metido a crítico de sua própria obra: ele não respeita o direito à livre interpretação do espectador, confinando para sempre os significados de seu trabalho num cercadinho semântico. Toda poesia é uma profunda investigação do humano, o “fator moralizador” surgindo na consciência do observador em meio ao palácio de signos e símbolos que, quanto mais ele adentra, mais descobre os sentidos e significados ocultos arquitetados pelo artista.

Porém, ainda que toda obra de arte contenha a moral como elemento constitutivo, para a contemplação, não existe obra bem feita que seja moral ou imoral, verdadeira ou falsa. Isso significa apenas dizer que o artista pode mostrar objetos falsos e mesmo imorais, não afetando a qualidade estética de seu trabalho. Há, contudo, certos erros de concepção de mundo, ou cosmovisão, que afetam a qualidade da obra mediante uma espécie de falsificação da realidade. O artista com a imaginação deformada, quer por ideologia , quer por outra psicopatologia, não consegue perceber a realidade, tornando-se incapaz de mostrar as coisas tais como são ou como de fato elas chegam a sua percepção. A imaginação é como que turvada por uma lente defeituosa, tornando indistinguível um enorme paquiderme de uma pedra gigantesca. Há artistas que, apesar da loucura, tornam-se grandes artistas justamente por domarem sua imaginação e suas patologias, não sucumbindo a essas distorções; por outro lado, aquele que se força a criar ideologicamente, como militante, logo corrompe seus dons artísticos, perdendo até mesmo aquilo que julgava ter.

Uma anedota conta que o pintor realista pinta o que vê, o impressionista, o que sente, mas o engajado, aquilo que o partido manda. Em outras palavras, ele não está agindo segundo a moral de um verdadeiro artista, vendendo seu dom por um prato de lentilhas. É preciso que o artista crie de seu âmago, livrando-se de todos os pactos de hipocrisia social, expressando sem medo de sanções o que julga ser verdadeiro. Senão uma verdade sobre o homem, ele nos dá um “retrato do artista”, revelando as profundezas de sua própria alma. Contudo, uma terceira forma de falsificação, que pode surgir disso, significa a morte do escritor: uma espécie de autoplágio, a repetição incessante dos mesmos temas e conflitos, histórias e estruturas narrativas livro após livro. Geralmente, esse decaimento poético é acompanhado de um solipsismo atroz, que de pouco em pouco engole o mundo, restando apenas o eu suas sensações mais mesquinhas. O salto do particular para o universal inexiste, restando apenas o particular pelo particular: um sistema planetário inteiro em torno do próprio umbigo.

Por conta dos inúmeros aspectos acidentais que circundam a obra — as circunstâncias de cada autor, o gosto individual, a parte inconsciente e involuntária da escrita, o mistério oculto de nossa existência, que foge ao campo da técnica e que compõe o próprio ser do artista, junto a todos os seus medos, anseios, amores e paixões que definem os temas de cada artista individual, cujas inclinações não podem ser de todo controladas, apenas direcionadas e refinadas — é impossível formular uma lei estética que dite sumariamente quais temas, estilos, conteúdos e técnicas um artista poderá abordar, ou de qual forma eles deverão ser abordados. O êxito nessas escolhas depende exclusivamente de capacidade artística, do gênio individual. Toda lei estética é geral e abstrata, manifestando-se em cada caso particular de modos diferentes. É preciso que um bom crítico encontre a regra particular de cada obra — sua ordem interna— e a hierarquize conforme uma ordem externa superior; a tradição universal. Ele deverá levar em conta o que já foi feito de melhor naquele determinado campo, e avaliar os méritos do artista sem preconceitos ou opiniões elogiosas de segunda mão.

Aqui vemos mais claramente o papel da crítica literária para a educação do leitor: o bom crítico é necessariamente alguém com muita leitura, que relacionará as obras catalogadas ao longo de anos de estudo, decifrando, traduzindo as mais diversas nuances do texto literário. Só assim ele revelará ao leitor o que se pode tirar de melhor de um livro. É preciso sempre se ter em mente que o dever do crítico é em relação aos leitores, não necessariamente a seus pares ou artistas; a estes últimos, ele tem pouca ou nenhuma serventia, já que os criadores das obras-primas souberam executá-las. Não há crítico no mundo que possa ensinar um verdadeiro artista a criar, justamente por não saber fazê-lo ou nunca tê-lo feito. Mais úteis são as opiniões de outros artistas que, dominando a disciplina da forma, lançam-se num mar dialético, sistematicamente analisando obras de seu ofício, obtendo por resultado uma espécie de crítica quase que acidental, mas voltada mais a seus pares, os outros artistas, que ao público leitor.

Existe, portanto, uma relação simbiótica entre crítico e leitor: um existe perfeitamente para o outro, perdendo o crítico sua razão de ser quando começa a querer agradar seus pares — outros críticos, ou criticastros —, em vez de iluminar as mentes dos leitores com seu gênio analítico, seu poder de síntese e seu refinamento estético. O verdadeiro erudito não é aquele capaz de tagarelar sobre infinitas obras e curiosidades acadêmicas; mas aquele capaz de achar um fio condutor no emaranhado da realidade, inteligindo pontos de outro modo ocultos, sem sua interferência, explicando-os de modo singelo ao leigo. O público leitor, por sua vez, definha na falta daquela opinião letrada que deveria guiá-lo para longe dos manguezais de mediocridade e mau gosto literário.

Assim, o crítico exerce uma função não de todo agradável ao artista: explicar o porquê das coisas serem como são. Algo que para o espírito criador é tão evidente quanto a leveza dos pássaros, não é tão óbvio quanto ele próprio pensa: e ele perde a paciência de explicar seus gostos e preferências artísticas aos leigos. Por isso, a maior parte dos gênios artísticos prefere a resignação e o silêncio. O crítico, para ele, exerce uma função execrável comparada à altura de seus voos literários. Mas ele sabe que precisa do crítico, principalmente por não ser sua função explicar sua própria obra; e tampouco deveria fazê-lo, pois não interessa ao público o que o artista quis dizer, mas o que ele efetivamente disse.

Os críticos observam a literatura de um extremo e os escritores do outro, não num cabo de guerra, mas num jogo de cooperação por amor à arte. Nenhum crítico pode entender a angústia criativa, nem nenhuma filosofia está preparada o preparo que o ofício exige; e embora todos os escritores devam ser críticos em algum nível, ainda que acidentalmente, o crítico puro não é um artista. A atividade crítica demanda sua dose de dedicação intelectual, que extenua o intelecto para a criação artística; e aqui digo como artista: é dispendioso exercer ambas as funções ao mesmo tempo. Faço-o — e digo sem medo de ser injusto ou tomado por soberbo — por inexistir crítica literária séria na República de Banânia.

É preciso que se forme uma nova geração de críticos, conscientes de seu dever social, que propague a verdadeira literatura entre os leitores; não enterrados em suas tocas subterrâneas, falando apenas para sua congregação de toupeiras, ou recluso numa alta torre de marfim, onde o próprio oxigênio, essencial a circulação de ideias, é escasso. Nos tempos em que vivemos, a formação dos leitores é uma obrigação moral que beira o trabalho do evangelista, pois o contato com a Beleza, fornecido pela Literatura, tem papel fundamental na manutenção do tecido da civilização. Quando best-sellers e passatempos de minuto se tornam as principais obras em circulação, é sintoma de que a sociedade padece de uma profunda enfermidade espiritual e toda uma dimensão metafísica da realidade se perde, dando espaço ao mero entretenimento. Nesse cenário, algo se perdeu no decorrer das décadas; a Cultura não é algo estático, que uma vez estabelecida, perdura pela eternidade, feito uma pedra. Ela precisa de zelotes que a defendam e passem-na à geração posterior. Cada geração da humanidade tem apenas duas obrigações fundamentais: se formar e passar seu conhecimento — no qual se confunde também o das gerações anteriores — adiante. Quando esse elo se parte, basta apenas duas ou três gerações para que se caia novamente mais completa barbárie; abismo para a qual, acredito, estamos rumando desde a segunda metade do século XX.

O folhetim, centro de milhões de imaginações flamejantes, é apenas a fagulha que reduzirá Alexandria às cinzas. Dificilmente as gerações mais jovens pegarão um bom livro, ficcional ou não, daqueles que abalam as estruturas interiores do ser por livre e espontânea vontade. Nenhum adolescente, que não tenha uma estante munida de bons livros em casa, acorda com o desejo de ler “Guerra e Paz” ou “Crítica da Razão Pura”. Se tudo o que se tem à mão são livros comerciais, subliteratura de gênero, tais como aventuras policialescas, distopias políticas socialistas enrustidas, fantasias tresloucadas onde o herói sempre será salvo no último minuto por forças ocultas sem que nada de mal jamais lhe ocorra, o jovem se corrompe a partir da própria imaginação, que posteriormente se tornará vontade e moldará suas ações. Sem quem o tire dessas circunstâncias, salvo um forte gênio e vontade pessoal, o meio encerrará a mente desse leitor num mar de mediocridade, sucumbindo-lhe a inteligência.

Por outro lado, se houver na vida desse indivíduo um bom leitor que seja — pai, mãe, avô — dotado de sagacidade e clareza, capaz de se fazer entender e transmitir alguma instrução a esse jovem leitor, há alguma esperança de que a leitura, de fato, abra-lhe a mente para obras mais elevadas. Aos que me interpelassem, acusando-me de elitismo, valendo-se do fato de estarmos no Brasil, e que propagar a leitura já seria grande avanço, respondo apenas que nem ao menos estou me referindo a uma iniciação artística mais complexa, apenas a um mínimo de instrução e exemplo no seio familiar.

A educação artística, em minha opinião, é sine qua non para o melhor proveito das artes, e não é um elemento tão inacessível quanto se poderia supor. Livros e críticas são mais acessíveis do que nunca, e um indivíduo com força de vontade pode se valer de publicações como esta para se autoeducar. Mas esse ímpeto dificilmente surgirá sem as condições adequadas, e nossa sociedade precisamente as dificulta, embora não as impeça de todo. Por isso a necessidade de uma nova geração de críticos e escritores bem formados, alheios às porcarias ideológicas transmitidas pelo mainstream da “cultura pop” ou das ruínas acadêmicas. É preciso buscar certo purismo intelectual para compreender o mundo para além das meras sombras. Para tal, é preciso blindar-se do efêmero, do particular, que turvam a mente para o universal.

Hoje, qualquer ignorante é capaz de produzir conteúdos para a internet, arrogando-se de autoridade devido às métricas de suas redes sociais, como se ser ouvido por um número maior ou menor de pessoas fosse sinônimo de qualidade. Apesar das facilidades, o aliteratado sequer se preocupam em construir uma obra, pois a mediocridade vive de publicidade, não de trabalhos duradouros: parecer traz mais lucros do que o ser. Enquanto isso, o gênio pode publicar seu pensamento com a mesma facilidade, apesar de correr o risco de ter a voz abafada pelos gritos dissonantes da turba dos medíocres, que vencem momentaneamente pela quantidade. Ele terá de se fazer ouvir ou pela força, ou pela paciência, perdurando numa espécie de resignação até que as fraudes sejam relegadas ao mutismo do esquecimento.

Por isso, é indispensável que tanto o crítico quanto o artista desenvolvam uma ética de trabalho impecável, preocupando-se mais com seu êxito intelectual, seu brilho pessoal e único que o guiará — e aos seus liderados — pela selva escura das mentiras, feiuras e maldades, na qual um intelectual prova seu valor. Por onde olhe, forças corruptoras tentarão dissuadi-lo da verdade, bondade e beleza, sendo optar pelos seus inversos o caminho mais fácil para sobreviver. Em determinado ponto, ambos se depararão, de um lado, com o mercado editorial dos best-sellers, com seu público amplo e promessas de dinheiro fácil; do outro lado, o establishment, composto mais ou menos pelos mesmas empresas editoriais, porém com um verniz de vanguardismo e engajamento descarado. São apenas duas cabeças da mesma hidra. Optar pelas pelas glórias mundanas é o mesmo que ser engolido pelo monstro, o que significa a morte eterna do gênio. O que não quer dizer que o verdadeiro talento seja condenado a uma existência de impopularidade e incompreensão, mas que não deve se vender nem se deixar dissuadir pela agitação do mundo.

Quantos livros, das prateleiras de mais vendidos, não foram vítimas do tempo voraz? E de quantos críticos badalados, alegria para aquele mesmo banquete de traças, se ouve falar? O que perdura é o talento individual, independente das honrarias: Liev Tolstói perdeu o primeiro Nobel para Sully Prudhomme. Hoje, quem é Tolstói e quem é Prdudhomme? Um prêmio nada significa; é vento que vai e volta sobre seus giros. A Tolstói foi destinada singular imortalidade conferida a poucos, justamente pelo peso de suas obras; já o parnasiano Prudhomme foi imortalizado apenas em placas de ruas francesas que ostentam seu nome, despertando interesse de uns poucos críticos arqueológicos.

Hoje, os prêmios brasileiros — sejam quais fores: cágados, jabutis ou outros quelônios — são incapazes de reconhecer a qualidade de uma obra. Isso se dá tanto pela esterilidade intelectual da crítica quanto pela impotência literária dos escritores: não há obra-prima que seja reconhecida por uma jurados ineptos, salvo à sorte; tampouco há juri, ainda que capacitado, capaz de transformar merda em ouro, por dourados que sejam os louros.

Por fim, acima de tudo, é urgente quebrar o monopólio da política de boa vizinhança, tão caro ao brasileiro, incapaz de ouvir críticas sem levá-las como insultos personalíssimos. O crítico não deveria temer ressentimentos ou represálias e boicotes, mesmo que a quebra daquela política signifique que ouvirá respostas atravessadas, para sempre mal-afamado em certos círculos de influência. Ser benquisto por farsantes é caro aos alpinistas sociais. Ao verdadeiro intelectual, não. O homem vulgar pode se chocar com a opinião alheia, principalmente dos estudiosos, cujos vastos horizontes do conhecimento sequer lhe seriam possíveis de imaginar; já o intelectual não tem esse direito, não pode se indignar com a opinião alheia, salvo os casos de verdadeiras atrocidades morais contra a humanidade. Ele deve tentar compreender as coisas com a mais fria dialética, sem pedantismos e afetações afrescalhadas. E deve dizer a verdade, que com certeza ofenderá a muitos. Onde houver críticas, a ofensa não é somente um risco: é uma probabilidade estatística.

É preciso, portanto, lutar pelo direito de ser ofensivo, sem se esquecer que se pode ser ofendido. Somente com tal liberdade será possível o florescimento de novas ideias. Se a critica que estiver errada, podemos ignorá-la ou rebatê-la; se estiver correta, podemos rechaçá-la de pronto, por orgulho, mas podemos também levá-la em profunda consideração, agradecendo nosso crítico por encontrar um erro, equívoco ou escotoma, nos poupando tempo e esforços numa reformulação do pensamento ou da obra. Mas, apesar das reveses, nunca haverá impedimentos àqueles que honestamente busquem a verdade, o bem e a beleza, pois, já dizia o evangelista: o Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam.

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