Antes de começar a análise, gostaria de lembrar de que não sou poeta, portanto tudo o que eu disser será da perspectiva puramente crítica, de leitor e não criador, ao contrário dos demais artigos sobre prosa de ficção, em que me posiciono como escritor. Métrica e forma específicas do Poema não serão abordadas diretamente, assim como outros problemas próprios de sua criação poética. Não que isso seja uma defesa ao verso livre inconsequente e inconsciente, de modo algum, é simplesmente que não me atento tanto para esses detalhes, nem os conheço tão profundamente. Conhecê-los intimamente é dever do poeta. O poeta deve, sim, saber todas as formas do poema, assim como suas dificuldades, e unir esses elementos aos princípios estéticos que aqui apresento. Certos aspectos gerais da arte não objetiva, esses princípios estéticos, são aplicados em qualquer gênero literário (prosa, poesia ou teatro). E a principal regra da Literatura é: uma imagem vale mais do que mil palavras.
I – O KITSCH
No sentido empregado aqui, o lirismo não é sinônimo de “prosa poética” que Rimbaud ou Guimarães Rosa deram. Lirismo aqui é o lirismo comedido, político, raquítico e sifilítico, como dizia Manuel Bandeira. Esse tipo de lirismo — melhor dizendo falso lirismo — é um sentimentalismo, uma falsificação da arte que redireciona a emoção do objeto para o sujeito, criando uma falsa sensação de emoção, sem o real preço de criá-la. É muito próximo, ou idêntico, ao Kitsch, definido muito bem por Milan Kundera:
O Kitsch nos provoca duas lágrimas contínuas. A primeira diz: como é bom ver crianças correndo na grama! A segunda diz: como é bom nos emocionarmos, junto a toda humanidade, por ver crianças correndo na grama!
II – SOM, FORMA E COR
Desta vez vamos para o gênero que já foi considerado a mais alta literatura, e que hoje foi reduzido, em grande parte, a uma prosa mesquinha, sem cor nem brilho, entrecortada e distribuída aleatoriamente em “versos”. A exemplo disso, temos Paulo Leminski, cujos poemas parecem mais frases de efeito que muito bem poderiam ser tweets. Mas não é dele de quem irei tratar hoje.
Vamos ao caso de Conceição Evaristo:
Vozes mulheres
A voz da minha bisavó
Ecoou criança
nos porões do navio.
ecoou lamentos
de uma infância perdida. A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.
Hoje, com o mundo cheio de escritores envolvidos em militâncias, movimento disso e daquilo, a literatura sofreu, tornou-se engajada. Isso, como já repeti várias vezes, é arte imprópria (Benedetto Croce nem de arte chamaria, embora não seja este o caso, Evaristo é poeta e nos cabe julgá-la pelo mérito do trabalho). Não nos interessa se a poeta é do movimento negro, branco, indígena, asiático, hétero, homossexual, transexual, pansexual, pobre, rico, burguês, proletário. Nos interessa a condição humana; e com isso qualquer marxismo, criticismo social ou outra ideologia são convidados a se retirar da análise da obra de Arte. Para isso temos a Estética, que é universal por tratar do humano em sua forma mais pura; ao poeta cabe o Universal, aquilo que é compartilhado por toda humanidade.
Antes de continuar a crítica a Evaristo, façamos uma análise comparada com “Morte e Vida Severina”, de João Cabral. O poema começa assim:
— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte Severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.
Em contrapartida ao que acabamos de ler em Cabral, o poema “Vozes Mulheres”, de Conceição Evaristo, não aborda a condição humana, assim como na maioria dos poemas dela. Aborda a condição feminina-negra, que poderia ser uma condição completamente válida de ser explorada, não fosse um fator que falta: a transcendência; o aspecto universal de que tanto falo.
O poema de Cabral, por outro lado, não aborda a condição nordestina, mas a condição de toda a humanidade perante a morte e a miséria. Por serem temas polêmicos, ou minimamente sensíveis nos dias de hoje, podemos dizer que tratam-se de dois grupos étnicos e sociais que passaram (e passam) por situações de preconceito e baixa qualidade de vida, os negros e os nordestinos retirantes. Mas não há espaço para esse tipo de discussão na literatura, não há espaço para o que quer que esteja fora dela.
João Cabral, se fosse um poeta ruim, diria: “Severino, filho miséria, não tinha sobrenome, igual a todos os miseráveis da seca, oprimido pelos coronéis etc., etc., etc…”; ao contrário diz: “O meu nome é Severino, como não tenho outro de pia”, ou seja, Severino sem sobrenome ou outro nome de batismo (de pia), Severino sem mais nada. O nome, depois do corpo, talvez seja a coisa mais pessoal dum ser humano, tirando-nos o nome, não temos identidade, desejos, esperanças; somos desumanizados, nos tornamos apenas um pedaço de carne que não se distingue dos outros, parte de uma massa. Em qualquer obra de ficção, o nome é uma metáfora para o homem. O nome é o homem.
Ao se comparar com o poema de Evaristo, vemos no poema dela o tão falado lirismo (falsificado): “A voz de minha avó / ecoou obediência / aos brancos-donos de tudo” ou “A voz de minha mãe / ecoou baixinho revolta / no fundo das cozinhas alheias / debaixo das trouxas / roupagens sujas dos brancos”.
De fato, são inegáveis os efeitos da escravidão até os dias de hoje, porém também o são os da seca que assola o nordeste e do regime autoritário dos coronéis, que ainda se perpetua nos descasos políticos. Então, João Cabral nos mostra esse traço cultural: “Mas isso ainda diz pouco: / há muitos na freguesia, / por causa de um coronel / que se chamou Zacarias / e que foi o mais antigo / senhor desta sesmaria”.
Vemos os traços de sentimentalismo naquela: “A minha voz ainda / ecoa versos perplexos / com rimas de sangue / e / fome”. A palavra “perplexo”, assim como outras expressões utilizadas anteriormente, como “brancos-donos-de-tudo” ou “ecoou baixinho de revolta”, nos revelam demais, nos transmitem a opinião da autora acerca do texto (e bastante ressentimento). Tudo bem, que retrate a fome, as injustiças e o racismo, mas o faça com imagens! “Somos muitos Severinos / iguais em tudo na vida: / na mesma cabeça grande / que a custo é que se equilibra, / no mesmo ventre crescido / sobre as mesmas pernas finas / e iguais também porque o sangue, / que usamos tem pouca tinta.”. Que metáfora, qualquer outro teria dito “a fome que nos assola nos tornou raquíticos, nos afinou o sangue”, mas o verdadeiro poeta acha uma maneira de fugir do comum, de nos rasgar a alma através do verso.
A diferença entre o grande poeta e o poeta menor é que o grande poeta não tenta nos forçar a sentirmos compaixão ou terror, ele cria esses sentimentos, nos joga diretamente nos horrores do eu-lírico, sentimos a emoção estética. Ele não tenta nos convencer de quão a vida é árdua, ele nos mostra. O que é o eco de revolta que Evaristo fala? Ou pior, o que é “o eco da vida-liberdade”? Não sabemos, mas sabemos o que é a vida e a morte severa que Cabral nos apresenta. Não sabemos o que a autora quis dizer, podemos apenas imaginar um sentido não contido no texto, que não está pintado. Não há som, forma ou cor. Evaristo transfere a emoção do objeto (poema) para o sujeito (observador), coloca a uma emoção subjetiva, emoção nervosa, no texto e apela para que o leitor se emocione. A poeta não fala através das insígnias das coisas, das imagens concretas, como nos lembra Ariano Suassuna em “Carrero e a Novela Armorial”:
[…] Homero e Dante pensavam e falavam através de imagens concretas, de contornos nítidos e firmes, pois suas palavras eram verdadeiras insígnias das coisas, insígnias que me apareciam como que desenhadas, gravadas e iluminadas, ao passo que aqueles outros poetas eram conceituais e meio abstratos. Descobri que tais poetas conceituais empregavam mais palavras que imagens concretas. Diziam, por exemplo, num poema, ‘a vida é cheia de mistérios’ e julgavam, com isso, que tais palavras tinham eficácia suficiente para despertar em nós o sentido do enigma da vida. Acontece que a palavra ‘alegria’, abstrata, não é o suficiente para causar a sensação da alegria no leitor, assim como a palavra ‘tristeza’ não basta para sugerir, no leitor que não está triste, o sentimento que ela guarda.
III – POETA DO CU DA VIDA
E ainda há um erro gravíssimo, Conceição Evaristo não tem cuidado com o trato artístico das palavras, a mot juste em que Flaubert tanto falava. Ainda na frase “eco da vida-liberdade”, além do lirismo, carrega um cacófato: “é cu da vida”. O som da vogal “O” se assemelha muito com o da vogal “U”, neste caso específico. O mesmo erro ocorre no título da tradução dum livro que, em português, se chama “Hibisco Roxo” (Purple Hibiscus). Total falta de tato. Quem traduziu não notou que, ao falarmos, temos um “cu roxo” no meio do título. Com um riso a imersão é quebrada, perde-se o leitor, o drama acaba junto ao efeito e a força pretendidos pelo escritor. Esse é o problema do cacófato. Literatura, sobretudo o poema,também é som.
IV – POETA OU JUIZ DO MUNDO?
Também convém lembrar que a Literatura não tem uma “mensagem” a transmitir, seja qual for. Como nos lembra Tchekhov, não é o escritor quem deve resolver os problemas do mundo, nossa missão é apenas retratar o humano da melhor forma possível. Deixemos a crítica social para o ensaio, e que a política ou militância fique de fora da arte. Reitero: quanto mais sentimentalmente envolvido com o tema o autor estiver, mais fria deve ser a escrita.
Graciliano nos fala, ainda que se referindo ao ofício do romancista, sobre a importância da imparcialidade do artista:
“A obrigação do romancista não é condenar nem perdoar a malvadeza: é analisá-la, explicá-la. Sem ódios, sem ideias preconcebidas, que não somos moralistas.
Estamos diante de um fato. Vamos estudá-lo, friamente. Parece que este advérbio não será bem recebido. A frieza convém aos homens de ciência. O artista deve ser quente, exaltado. E mentiroso.
Não sei por quê. Acho que o artista deve procurar a verdade. Não a grande verdade, naturalmente. Pequenas verdades, essas que são nossas conhecidas.“
— Graciliano Ramos em “O fator econômico no romance brasileiro”, “Linhas tortas”.
A literatura transforma o homem, redime-o através da Beleza, mesmo que esta Beleza retrate o Feio. Mais angustiante do que a vida severa é a morte, que é certa. Porém a Arte nos lembra dessa redenção pela Beleza, o único consolo em face à desolação num mundo de feiura. Lembrem-se de que o subtítulo de “Morte e Vida Severina” é “Auto de Natal Pernambucano”.
Em ambos os poemas, temos um final “positivo”, no sentido de trazer esperança. Porém o de Conceição Evaristo nos diz isso, meramente, sem que haja no discurso poético imagens fortes. Atribuir a qualidade do poema meramente ao tema “ousado”, o racismo, é um erro. Releiam o final: “A voz de minha filha / recolhe todas as nossas vozes / recolhe em si / as vozes mudas caladas / engasgadas nas gargantas.A voz de minha filha / recolhe em si / a fala e o ato / O ontem – o hoje – o agora. / Na voz de minha filha / se fará ouvir a ressonância / o eco da vida-liberdade.”; quantas já não foram escritas as imagens da voz presa na garganta, ou vozes caladas, ou ainda dizer “o ontem, o hoje, o agora”, etc., etc., etc…. As imagens não têm tanta força (talvez tenha para quem possui pouca leitura), falta originalidade. A autora nos diz o que pensar, o que interpretar. O poema de Conceição Evaristo pode até denunciar as questões do racismo, pode, sim, ser um grito contra as injustiças, a maneira que ela encontrou de se expressar; mas o fato é que o poema não nos ajuda em nada a entender a condição humana da maneira que foi exposta.
A poeta também nos diz para esperar o “eco da vida-liberdade”. Cabral nos deixa abismados com a perspectiva do futuro, de um lado há esperança, do outro o gosto amargo da realidade:
“— Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, Severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida Severina.“
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