4 de maio de 2020
“Trata-se de tornar a alma monstruosa.” ― Rimbaud, em carta a Paul Demeny, 15 de maio de 1871
“É o segredo deste homem”, pensa o médico, Garcia, ao vislumbrar o mistério ― “A Causa Secreta”, feito o próprio título nos diz ― que movimenta o derradeiro protagonista do conto, Fortunato. Toda boa ficção faz isto: nos instiga a nos questionarmos o porquê, as causas e anseios psicológicos por trás das ações das personagens. É por este motivo que, nesta história curta, de aproximadamente oito páginas, Machado de Assis se consagra numa das maiores narrativas em língua portuguesa.
No Brasil, infelizmente, o conto é um gênero demasiadamente subestimado; e afirmar que Machado revela seu gênio mais nos contos que nos romances seria, para muitos, um insulto. Não sejamos injustos: “Dom Casmurro” é outra grande manifestação de engenho e força do artista. Porém, de fato, creio que seja no conto que um escritor precisa provar a magnitude de sua força: é necessário sintetizar toda uma explosão dramática em poucas páginas. Diria Cortázar que o conto é uma luta na qual se vence por nocaute, enquanto, no romance, se vence por pontos. Se num romance o escritor pode se dar ao luxo de gastar algumas páginas com longos cenários ou monólogos que dão tom à narrativa, ou tecendo toda uma extensa e detalhada trama de ações cheias de potências e causalidades, no conto isto deve se dar em poucas páginas, ou mesmo parágrafos. É preciso intensificar os efeitos da Técnica.
Logo nas primeiras linhas, Machado nos apresenta um quadro em movimento:
Garcia, em pé, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço, olhava para o teto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um trabalho de agulha. Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada.
O uso do pretérito imperfeito, mais uma vez, causa a sensação de uma ação infinita, capturada e cristalizada em algum lugar no tempo, o tempo mítico da memória, sem início ou término definidos. Machado inicia a narrativa no meio da ação ― ou, para utilizar o termo amplamente difundido e largamente incompreendido, in media res, “no meio das coisas” ― e os fatos que serão apresentados já correm soltos; somos imediatamente fisgados pela intriga da situação, feito borboletas que cedem ao olor de certas plantas untuosas e carnívoras, apenas para serem capturadas em suas presas. Uma das características principais do bom ficcionista é a sedução. Machado continua a narrativa com um discurso indireto, resumindo o que fora falado pelas personagens até então:
“Tinham falado do dia, que estivera excelente, – de Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa de saúde […].
Movimento extremamente leve sutil, que, infelizmente, é quebrado pelo comentário que se segue, de um narrador intruso e onisciente:
[…] de uma casa de saúde, que adiante se explicará. Como os três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço.”
É preciso pontuar que, na época de Machado ― e incrivelmente até hoje ― havia uma grande confusão sobre o que era Literatura e quais suas funções; basta lembrar do rebuliço que a estreia de “Les Liaisons Dangereuses”, de Choderlos de Laclos, causou na França, em 1782 . E creio que, queira por serem publicados em jornais, queira para fugir da censura, vários escritores lembravam aos leitores que aquela história era ficcional, feito um diretor de teatro que se apresenta ao público, quebrando o sonho vívido e contínuo criado pela peça:
― Senhoras, senhores, desculpem-me a intromissão: o autor pediu para avisar que as lágrimas derramadas são falsas, o drama é inventado; não se impressionem com nossas dores e martírios, o sangue derramado: não somos de carne e osso.
Com relação a esse aspecto, a ousadia, talvez Machado estivesse um passo atrás de autores europeus feito Flaubert ou Tchekhov, mas não muito distante. Em “A Causa Secreta”, este é apenas um detalhe, uma mera sujeira numa lente cristalina, fácil de se ignorar. Cabe a nós, modernos, beneficiados pela distância e pelo tempo, não incorrermos nos mesmos erros, por menores que sejam.
“Tinham falado também de outra coisa, além daquelas três, coisa tão feia e grave, que não lhes deixou muito gosto para tratar do dia, do bairro e da casa de saúde. Toda a conversação a este respeito foi constrangida. Agora mesmo, os dedos de Maria Luísa parecem ainda trêmulos, ao passo que há no rosto de Garcia uma expressão de severidade, que lhe não é habitual. Em verdade, o que se passou foi de tal natureza, que para fazê-lo entender é preciso remontar à origem da situação.“
A partir deste ponto, há poucos comentários do onisciente linguarudo, a narrativa sendo contada, em sua maior parte, pela perspectiva de Garcia. A única dos três protagonistas cujo ponto de vista não será abordado é Maria Luísa. Teremos um vislumbre do olhar de Fortunato apenas nos últimos parágrafos. Machado, creio que por insegurança, preferiu atenuar a elipse que se segue, para que o leitor comum pudesse compreender melhor a analepse narrativa ― vulgo flashback ― que ocorrerá. O comentário em negrito, acima, não faz falta, de modo que teríamos:
Agora mesmo, os dedos de Maria Luísa parecem ainda trêmulos, ao passo que há no rosto de Garcia uma expressão de severidade, que lhe não é habitual. […]
Seja pela insegurança, ou até mesmo para criar mistérios, esse tipo de comentário soa antipático à maioria dos leitores com bom gosto. Porém, o que se destaca aqui é a habilidade de manipulação temporal do Bruxo do Cosme Velho. Iniciamos o conto com o pretérito imperfeito, logo em seguida, Machado nos traz para o presente do indicativo, com muita habilidade, através de uma frase de passagem:
“Agora mesmo, os dedos de Maria Luísa parecem ainda trêmulos, ao passo que há no rosto de Garcia uma expressão de severidade, que lhe não é habitual.”
Agora mesmo, neste instante. Esta breve frase permite ao artista a quebra dos pretéritos, tempo escolhido para a narrativa. Em outras circunstâncias, mais abruptas, seria um erro estilístico. Deste modo, não: a pintura ganha vida, vemos a agitação enquanto ela acontece, para, em seguida, sermos levados à origem dos fatos; uma montagem de gênio. A estrutura narrativa de “A Causa Secreta” é circular, somente ao final retornaremos à cena de abertura. No terceiro parágrafo, temos uma bela cena indireta, a exemplo do que ocorre em “A Missa do Galo”.
“Garcia tinha-se formado em medicina, no ano anterior, 1861. No de 1860, estando ainda na Escola, encontrou-se com Fortunato, pela primeira vez, à porta da Santa Casa; entrava, quando o outro saía. Fez-lhe impressão a figura; mas, ainda assim, tê-la-ia esquecido, se não fosse o segundo encontro, poucos dias depois.“
Dos anos na escola de medicina, nada nos interessa, exceto o primeiro encontro com Fortunato. Assim, Machado mata os tempos mortos ― trechos de narrativa em que nada realmente ocorre, e que servem para ligar um ponto mais importante do enredo a outro ― com perfeição. Não somos entediados com detalhes irrelevantes, tampouco temos informações frívolas ou explicações que quebrem a imersão.
“Uma de suas raras distrações [de Garcia] era ir ao teatro de S. Januário, que ficava perto, entre essa rua e a praia; ia uma ou duas vezes por mês, e nunca achava acima de quarenta pessoas. Só os mais intrépidos ousavam estender os passos até aquele recanto da cidade. Uma noite, estando nas cadeiras, apareceu ali Fortunato, e sentou-se ao pé dele.“
Aqui temos uma breve antecipação, um detalhe que irá se somar a outros mais adiante, por meio de um comentário sob perspectiva próxima de Garcia:
“Só os mais intrépidos ousavam estender os passos até aquele recanto da cidade.“
Isso pode passar despercebido pela maioria dos leitores, porém, garanto, é um grande fator para o sentimento final do conto: vemos o conjunto de potências serem plantados e se desenvolverem perfeitamente. Por esse comentário, o narrador nos sugere o caráter de Fortunato, entre os mais intrépidos:
“A peça era um dramalhão, cosido a facadas, ouriçado de imprecações e remorsos; mas Fortunato ouvia-a com singular interesse. Nos lances dolorosos, a atenção dele redobrava, os olhos iam avidamente de um personagem a outro, a tal ponto que o estudante suspeitou haver na peça reminiscências pessoais do vizinho.“
Pouco em pouco os detalhes se revelam, porém, nós, do mesmo modo que Garcia, não sabemos como interpretar aquelas ações. Furtunato é facilmente confundido com um romântico, amante dos melodramas; porém, desde o início, sentimos estranheza perante tamanha atenção nesse dramalhão cosido a facadas.
“No fim do drama, veio uma farsa; mas Fortunato não esperou por ela e saiu; Garcia saiu atrás dele.“
Ainda mais intrigante: a tragédia se revela uma comédia, através duma farsa, e Fortunato perde o interesse. Garcia segue-o, evidentemente perplexo com a figura que fez-lhe impressão. Começamos a nos questionar vagamente sobre quem é aquele homem e por que ele age daquela maneira, a tal causa secreta.
Fortunato vai embora, Garcia no encalço, e Machado nos mostra outro desses detalhes aparentemente insignificantes:
“Ia devagar, cabisbaixo, parando às vezes, para dar uma bengalada em algum cão que dormia; o cão ficava ganindo e ele ia andando.“
A composição psicológica da personagem vai nos sendo apresentada gradualmente: um gesto, um olhar, uma frase. Fortunato parava e atiçava cães dormentes, feito uma criança travessa; ou assim nos parece. Contudo, os cães ganiam de dor, revelando, ainda que discretamente, um traço mais sombrio e profundo de personalidade.
Garcia segue com a vida, passam-se algumas semanas e ele encontra novamente Fortunato por uma fatalidade: Gouveia, um vizinho, fora esfaqueado na rua. Esta terceira aparição de Fortunato requer atenção:
“Deposto o ferido na cama, Garcia disse que era preciso chamar um médico.
― Já aí vem um, acudiu alguém.
Garcia olhou: era o próprio homem da Santa Casa e do teatro.”
Temos um uso sofisticado do discurso indireto ― “disse que” ― interagindo com com um discurso direto, a fala do “alguém”. Em vez de criar um mistério barato na marcação de diálogo, como seria de se esperar ― ex: Já aí vem um, acudiu uma voz misteriosa ―, Machado finge não dar atenção a esta fala, apenas para nos surpreender na próxima linha, através do olhar de Garcia. “Garcia Olhou: era o próprio homem da Santa Casa e do teatro”. Simples, feito na vida, quando se encontra um conhecido onde menos se espera.
Seguimos ainda na perspectiva de Garcia, que se impressiona ainda mais com os atos do então desconhecido. Vejamos a sequência das ações dramáticas, retirados os perfis e monólogos:
“A ferida foi reconhecida grave. Durante o curativo ajudado pelo estudante, Fortunato serviu de criado, segurando a bacia, a vela, os panos, sem perturbar nada, olhando friamente para o ferido, que gemia muito. […] Garcia estava atônito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranqüilamente, estirar as pernas, meter as mãos nas algibeiras das calças, e fitar os olhos no ferido. […] De quando em quando, voltava-se para o estudante, e perguntava alguma coisa acerca do ferido; mas tornava logo a olhar para ele, enquanto o rapaz lhe dava a resposta.“
Temos também um perfil físico psicológico, omitido no último excerto:
“Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a expressão dura, seca e fria. Cara magra e pálida; uma tira estreita de barba, por baixo do queixo, e de uma têmpora a outra, curta, ruiva e rara.“
O olhar de Garcia denuncia a subjetividade daquele rosto, em “a expressão dura, seca e fria”. A priori, trataria-se de uma impressão particular, uma intromissão do narrador, mas não é. Não saberíamos o que seria esta expressão dura e seca, não fossem os outros detalhes objetivos: olhos cor de chumbo, movendo-se devagar, a cara magra e pálida, etc. Machado paga o preço da subjetividade e ainda emprega-lhe bom uso, através do olhar da personagem. A seguir, também é Garcia quem reflete:
“A sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de curiosidade; não podia negar que estava assistindo a um ato de rara dedicação, e se era desinteressado como parecia, não havia mais que aceitar o coração humano como um poço de mistérios.“
Aliás, o trecho em negrito pode ser tanto um discurso indireto livre, “[eu] não podia negar”, quanto uma falsa terceira pessoa, “[ele] não podia negar”; o sujeito oculto permite ambos. Devido à técnica machadiana, na qual encontramos pouco o discurso indireto livre deliberado ― além de este ser ainda pouco difundida, na época ―, acredito que ele conscientemente tenha utilizado a segunda opção, muito embora o conto termine com um perfeito indireto livre, como veremos. Podemos trocar “o estudante”, por “eu”, sem perda de sentido, o que qualifica perfeitamente a falsa terceira pessoa. Porém, sendo ou não a intenção inicial de Machado, após o ponto-vírgula, não é errado dizer que temos um indireto livre.
Temos outro jogo de cenas indiretas ― chamadas, também, em inglês, de narrative summary, ou resumo de narrativa ― em que os episódios de alguns dias passam-se em poucas linhas; ao contrário da cena anterior, que se alonga por parágrafos para mostrar as ações com mais importância psicológica.
“Fortunato saiu pouco antes de uma hora; voltou nos dias seguintes, mas a cura fez-se depressa, e, antes de concluída, desapareceu sem dizer ao obsequiado onde morava. Foi o estudante que lhe deu as indicações do nome, rua e número.
― Vou agradecer-lhe a esmola que me fez, logo que possa sair, disse o convalescente.“
Agora, uma mudança ― das poucas que há no conto ― de ponto de vista. Veremos um jogo único de perspectivas: a narrativa é dada a Gouveia, o convalescente, que relata o caso a Garcia e este, por fim, fará um breve monólogo sobre a situação.
“Correu a Catumbi daí a seis dias. Fortunato recebeu-o constrangido, ouviu impaciente as palavras de agradecimento, deu-lhe uma resposta enfastiada e acabou batendo com as borlas do chambre no joelho. Gouveia, defronte dele, sentado e calado, alisava o chapéu com os dedos, levantando os olhos de quando em quando, sem achar mais nada que dizer. No fim de dez minutos, pediu licença para sair, e saiu.
― Cuidado com os capoeiras! disse-lhe o dono da casa, rindo-se.“
Ora, se o narrador onisciente se ausenta do texto, embora isso não seja evidente a olhos menos treinados, quem está guiando a narrativa? Das duas uma: ou Gouveia, ou Fortunato. Impossível ser Fortunato, pois, mais adiante, em outra cena, o narrador nos relata:
“No fim contou ele próprio [Fortunato] a visita que o ferido lhe fez, com todos os pormenores da figura, dos gestos, das palavras atadas, dos silêncios, em suma, um estúrdio. E ria muito ao contá-la.“
Por eliminação, o ponto de vista só pode ser de Gouveia, que contou a história a Garcia; o narrador não poderia tê-la relatado à personagem. E é de Garcia o breve falso monólogo interior que se segue, e cujo ponto de vista é esclarecido apenas no parágrafo posterior:
“O pobre-diabo saiu de lá mortificado, humilhado, mastigando a custo o desdém, forcejando por esquecê-lo, explicá-lo ou perdoá-lo, para que no coração só ficasse a memória do benefício; mas o esforço era vão. O ressentimento, hóspede novo e exclusivo, entrou e pôs fora o benefício, de tal modo que o desgraçado não teve mais que trepar à cabeça e refugiar-se ali como uma simples ideia. Foi assim que o próprio benfeitor insinuou a este homem o sentimento da ingratidão.
Tudo isso assombrou o Garcia.”
Portanto, é Garcia quem pensa. Coisa de gênio, o que mais pode-se dizer? O restante do parágrafo continua na falsa terceira pessoa de Garcia, “este moço possuía, em gérmen, etc.”.
O mistério de Fortunato foi enraizado e, agora, Machado semeará a causa secreta de Garcia. Este é convidado por Fortunato para um jantar. Só então Maria Luísa, esquecida naqueles primeiros parágrafos, volta à narrativa:
“Garcia foi lá domingo. Fortunato deu-lhe um bom jantar, bons charutos e boa palestra, em companhia da senhora, que era interessante.“
O interesse de Garcia por Maria Luísa crescerá e se tornará um amor platônico despercebido aos olhos de Fortunato, que o descobrirá apenas nas últimas linhas do conto.
Neste mesmo parágrafo, há um belo contraponto:
“A figura dele não mudara; os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias; as outras feições não eram mais atraentes que dantes. Os obséquios, porém, se não resgatavam a natureza, davam alguma compensação, e não era pouco. Maria Luísa é que possuía ambos os feitiços, pessoa e modos. Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove.“
É preciso dizer que Machado foi extremamente sutil neste contraste: não temos um narrador apontando as diferenças entre marido e esposa, apenas sentimos o choque de comportamentos. Em outro conto, “O Machete”, o próprio Machado de Assis se atrapalha ao tentar obter o mesmo efeito, comparando dois cônjuges:
“Era uma mocinha de dezessete anos, parecendo dezenove, mais baixa que alta, rosto amorenado, olhos negros e travessos. Aqueles olhos, expressão fiel da alma de Carlota, contrastavam com o olhar brando e velado do marido. Os movimentos da moça eram vivos e rápidos, a voz argentina, a palavra fácil e correntia, toda ela uma índole, mundana e jovial.“
Subjetivo demais: olhos negros e travessos, expressão fiel da alma, etc. No contexto do conto ― diferentemente do que analisamos aqui ―, não vemos o que isso quer dizer, não sentimos. A comparação é válida para notarmos como a escrita de Machado evoluiu em alguns anos, de 1878, data de publicação de “O Machete”, a 1885, quando foi publicado “A Causa Secreta”. A discrepância se torna mais evidente quando o narrador descaradamente força o contraste, explicitando-o. Em “A Causa Secreta”, com o autor mais maduro, esse contraste se revela nas ações. Aqui também teremos um comentário, mas, desta, pelo viés de Garcia, sobre a diferença moral entre marido e mulher. É ele quem pensa, não o narrador:
“Garcia, à segunda vez que lá foi, percebeu que entre eles havia alguma dissonância de caracteres, pouca ou nenhuma afinidade moral, e da parte da mulher para com o marido uns modos que transcendiam o respeito e confinavam na resignação e no temor.“
Logo após, Garcia relata como conheceu Fortunato, e este conta-lhe a história que já foi relatada por Gouveia. Surge um excelente uso de vozes internas da narrativa, um discurso direto no corpo do texto, com uma breve instância de enunciação na voz do narrador ― “concluiu ele” ― que, estivesse ausente, poderia ter se caracterizado como discurso indireto livre.
“Maria Luísa ficou desconsolada com a zombaria do marido; mas o médico restituiu-lhe a satisfação anterior, voltando a referir a dedicação deste e as suas raras qualidades de enfermeiro; tão bom enfermeiro, concluiu ele, que, se algum dia fundar uma casa de saúde, irei convidá-lo.
― Valeu? perguntou Fortunato.
― Valeu o quê?
― Vamos fundar uma casa de saúde?“
Essa passagem da voz do narrador, ligeiramente, para a voz da personagem cria grande rapidez no texto, e liga-o ao diálogo externo ― marcado pelos travessões, fora do parágrafo ― de modo exemplar. Não sentimos emendas, costuras, a narrativa segue fluida e ininterrupta. Fortunato se mostra interessado na hipótese lançada por Garcia, e passa a insistir nela com interesse singular. Abrem uma casa de saúde, Fortunato era, ele mesmo:
“[…] o próprio administrador e chefe de enfermeiros, examinava tudo, ordenava tudo, compras e caldos, drogas e contas.
Garcia pôde então observar que a dedicação ao ferido da rua D. Manoel não era um caso fortuito, mas assentava na própria natureza deste homem.
Começamos a crer, do mesmo modo que Garcia, na natureza caridosa, embora estranha, de Fortunato. Uma figura exótica, pensamos. Mais uma vez, as ações ocorrem de modo sutil:
“Via-o servir como nenhum dos fâmulos. Não recuava diante de nada, não conhecia moléstia aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a qualquer hora do dia ou da noite. Toda a gente pasmava e aplaudia. Fortunato estudava, acompanhava as operações, e nenhum outro curava os cáusticos.
― Tenho muita fé nos cáusticos, dizia ele.“
Fortunato curava os cáusticos, ou seja, era ele quem administrava as cauterizações nos enfermos, coisa que, subentendemos, não deixava nenhum outro fazer. Aparentemente, uma alma solícita, que não confia a outros cuidados tão delicados.
Garcia fica mais íntimo do colega:
“A comunhão dos interesses apertou os laços da intimidade. Garcia tornou-se familiar na casa; ali jantava quase todos os dias, ali observava a pessoa e a vida de Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente. E a solidão como que lhe duplicava o encanto. Garcia começou a sentir que alguma coisa o agitava, quando ela aparecia, quando falava, quando trabalhava, calada, ao canto da janela, ou tocava ao piano umas músicas tristes. Manso e manso, entrou-lhe o amor no coração. Quando deu por ele, quis expeli-lo para que entre ele e Fortunato não houvesse outro laço que o da amizade; mas não pôde. Pôde apenas trancá-lo; Maria Luísa compreendeu ambas as coisas, a afeição e o silêncio, mas não se deu por achada.“
A causa secreta de Garcia é exposta: apaixonou-se pela esposa do amigo. O dilema moral é óbvio: ceder às tentações, ou não consentir, mantendo o sentimento puro, e até esquecê-lo? Esta história, como poderia parecer inicialmente, não será mais uma de adultério. Enquanto isso, Fortunato afunda-se mais nos estudos:
“Fortunato metera-se a estudar anatomia e fisiologia, e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar gatos e cães. Como os guinchos dos animais atordoavam os doentes, mudou o laboratório para casa, e a mulher, compleição nervosa, teve de os sofrer.“
O caráter doentio da personagem começa a se evidenciar. As bengaladas nos cães evoluíram para experimentos e vivisecções. Maria Luísa começa a apresentar sinais de tuberculose, criando, assim, a última causalidade montada para o término do conto:
“Tossia de quando em quando; Garcia perguntou-lhe se tinha alguma coisa, ela respondeu que nada.
― Deixe ver o pulso.
― Não tenho nada.
Não deu o pulso, e retirou-se. Garcia ficou apreensivo. Cuidava, ao contrário, que ela podia ter alguma coisa, que era preciso observá-la e avisar o marido em tempo.“
Um evento ligeiro, quase irrelevante para o leitor desavisado ― e Machado faz-nos esquecer dele, bom bruxo que é ―, mas que se somará a outros na sensação de um final lógico e verossímil; a única solução possível para o término do conto.
Em seguida, voltamos ao dia em que a história se iniciou. Somos lembrados disso pelo comentário desnecessário do narrador alheio ao espaço e tempo narrativos:
“Dois dias depois, ― exatamente o dia em que os vemos agora ―, Garcia foi lá jantar. Na sala disseram-lhe que Fortunato estava no gabinete, e ele caminhou para ali; ia chegando à porta, no momento em que Maria Luísa saía aflita.“
É preciso ser enfático, e expor o porquê de esta interrupção ser desnecessária: mais adiante, veremos as mesmas ações se repetindo:
“[…] depois foi sentar-se à janela com as suas lãs e agulhas, e os dedos ainda trêmulos, tal qual a vimos no começo desta história. Hão de lembrar-se que, depois de terem falado de outras coisas, ficaram calados os três, o marido sentado e olhando para o teto, o médico estalando as unhas.“
Provavelmente por insegurança, Machado resolve explicitar a montagem do conto; o que incomoda um pouco, mas, sem dúvida alguma, não diminui o efeito. Toda a disposição dos acontecimentos, das potências e das causalidades é exemplar. Aristotelismo encarnado.
Retornamos a exatamente o dia em que os vemos no início do conto, isto é, dois dias após as primeiras tosses de Maria Luísa, Garcia muito provavelmente querendo advertir o amigo sobre os sintomas da esposa. Porém, o que vemos suficientemente hediondo para que tire de nossa memória ― e aqui entra o passe da magia de Machado ― o incidente recém testemunhado. Maria Luísa entra em cena aflita:
“― Que é? perguntou-lhe.
― O rato! O rato! exclamou a moça sufocada e afastando-se.“
Segue-se a história do rato e, mais uma vez, entramos em outro drama. Note-se quantos dramas já foram apresentados nesta breve história, todos em redor de Fortunato: o teatro, o enfermo vítima da facada, a casa de saúde e, agora, o incidente inicial, do rato. O próximo será a morte de Maria Luísa. Uma trama finamente tecida e tingida com o mais puro extrato das emoções humanas.
Garcia chega ao gabinete de Fortunato e dá de cara com uma das cenas mais perturbadoras ― e talvez mórbidas, se tal coisa existisse para a Arte ― em Machado:
“Garcia lembrou-se que na véspera ouvira ao Fortunato queixar-se de um rato, que lhe levara um papel importante; mas estava longe de esperar o que viu. Viu Fortunato sentado à mesa, que havia no centro do gabinete, e sobre a qual pusera um prato com espírito de vinho. O líquido flamejava. Entre o polegar e o índice da mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. No momento em que o Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz até a chama, rápido, para não matá-lo, e dispôs-se a fazer o mesmo à terceira, pois já lhe havia cortado a primeira. Garcia estacou horrorizado.
― Mate-o logo! disse-lhe.
― Já vai.”
Fortunato ― ironia do nome ― se revela quem é. Livre das aparências, do jogo de falsidades que ergueu em torno de si, deixa trespassar a índole predatória que se esconde sob a máscara de homem caridoso, à semelhança de certas criaturas abissais que se escondem nas sombras, expondo à luz somente um simulacro de seres indefesos, apenas para capturar presas menores. O falso não se choca com o fato de ter sido desmascarado: finge uma irritação protocolar. Garcia segue em mais um monólogo, intercalado com as ações sórdidas do enfermeiro, até que, após três parágrafos de agonia, o rato morre:
“A chama ia morrendo, o rato podia ser que tivesse ainda um resíduo de vida, sombra de sombra; Fortunato aproveitou-o para cortar-lhe o focinho e pela última vez chegar a carne ao fogo. Afinal deixou cair o cadáver no prato, e arredou de si toda essa mistura de chamusco e sangue.
Ao levantar-se deu com o médico e teve um sobressalto. Então, mostrou-se enraivecido contra o animal, que lhe comera o papel; mas a cólera evidentemente era fingida.“
As ações não precisam ser explicadas: uma imagem vale por mil palavras. Machado conta-nos do modo mais simples possível o que houve, sem arrodeios ou grandiloquência. Garcia, por fim, chega à causa secreta que nos inquieta desde as primeiras linhas do conto:
““Castiga sem raiva”, pensou o médico, “pela necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo deste homem”. “
As aspas, praticamente ausentes no restante do conto ― em minha edição, 50 contos reunidos por John Gledson, não há outro uso ―, aqui chegam para acrescentar carga dramática ao pensamento, atribuindo mais gravidade ao discurso. Depois, o retorno ao momento, já comentado, em que:
“[…] ficaram calados os três, o marido sentado e olhando para o teto, o médico estalando as unhas. Pouco depois foram jantar; mas o jantar não foi alegre. Maria Luísa cismava e tossia; o médico indagava de si mesmo se ela não estaria exposta a algum excesso na companhia de tal homem. Era apenas possível; mas o amor trocou-lhe a possibilidade em certeza; tremeu por ela e cuidou de os vigiar.“
É preciso, agora que o evento central da trama foi revelado, dar uma conclusão ao conto, Machado acelera o andamento dos movimentos finais, em cenas indiretas, o tempo passa rapidamente enquanto Maria Luísa:
“[…] tossia, tossia, e não se passou muito tempo que a moléstia não tirasse a máscara. Era a tísica, velha dama insaciável, que chupa a vida toda, até deixar um bagaço de ossos.“
Garcia, que cuidou de os vigiar, agora observa Fortunato, que recebeu a notícia como um golpe. De um parágrafo a outro, a mulher cheia de vida decai, murcha e morre. Fortunato, sabemos, parece se deliciar naquela morte lenta, ainda que tivesse afeição à esposa:
“Não a deixou mais; fitou o olho baço e frio naquela decomposição lenta e dolorosa da vida, bebeu uma a uma as aflições da bela criatura, agora magra e transparente, devorada de febre e minada de morte.“
Garcia não contém o desprezo:
“Egoísmo aspérrimo, faminto de sensações, não lhe perdoou um só minuto de agonia, nem lhos pagou com uma só lágrima, pública ou íntima. Só quando ela expirou, é que ele ficou aturdido. Voltando a si, viu que estava outra vez só.“
Aqui nos despedimos do ponto de vista de Garcia, aquele moço que possuía, em gérmen, a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres. Apenas na última cena, há uma inversão de perspectiva: vemos o mundo pelos olhos do caçador, Fortunato:
Chegando à porta, estacou assombrado.
Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lenço e contemplara por alguns instantes as feições defuntas. Depois, como se a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na testa. Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta. Estacou assombrado; não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero.
Finalmente, Fortunato acha a causa secreta de Garcia ― enfim, uma fraqueza! ―, e o conto termina numa exposição sádica e cruel de um predador que não trai a própria natureza:
“Não tinha ciúmes, note-se; a natureza compô-lo de maneira que lhe não deu ciúmes nem inveja, mas dera-lhe vaidade, que não é menos cativa ao ressentimento.
Olhou assombrado, mordendo os beiços.
A personalidade psicopática não sente dor, nem tristeza: apenas orgulho. Maria Luísa nada mais fora que um troféu e, mesmo na morte, servirá de flagelo ao marido sádico:
“Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver; mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranqüilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.“
A voz de Fortunato se mescla, em discurso indireto livre, à voz do narrador; um riso doentio que triunfa ao final. E, com o tríptico “longa, muito longa, deliciosamente longa”, Machado fecha o conto com uma chave de ouro estilística: dois advérbios, um de intensidade e outro de modo ― muito e deliciosamente ―, acentuando a sensação causada pela repetição do adjetivo longa. Longa, muito longa, deliciosamente longa, num crescendo. É a vitória do desespero e das dores do mundo; desta vez, o mal prevalece.
Em face de tudo o que foi exposto e analisado, faltam-me elogios mais eloquentes: só posso concluir dizendo que, por esse trabalho de ourivesaria, qualquer escritor merece uma estátua de doze metros e um mausoléu de mármore. Este é um conto que não deixa a desejar a nenhum romance, por extenso que seja, no uso das técnicas e no desenvolvimento psicológico das personagens: a habilidade de artesão vem para alinhavar as causas íntimas e secretas que se passaram na mente do artista. A Arte não nasceu para mostrar-nos o mundo fielmente qual ele é, qual desejamos que ele fosse, ou como deveria ser; tão somente existe para nos revelar a impressão de uma mente criadora. E Machado nos revela, cena após cena, perfil após perfil, o segredo de uma alma monstruosa.
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