Dizia-se, nos velhos tempos, que todos os anos Thor circundava a Terra-Média, derrotando os inimigos da Ordem. Ele envelhecia, ano após ano, e o círculo ocupado pelos deuses e homens minguava. O deus da sabedoria, Odin, foi até o rei dos ogros, o imobilizou numa chave de braço e exigiu a resposta para como a Ordem trinfaria sobre o Caos.
Dê-me seu olho esquerdo – disse o rei dos ogros, – e lhe direi.
Sem hesitar, Odin arrancou o olho esquerdo.
– Agora me diga.
O ogro respondeu:
– O segredo é prestar atenção com os dois olhos.
– “On Moral Fiction”, John Gardner
GUERRA CONTRA O CAOS
Didatismo e verdadeira arte são imiscíveis, nos diz John Gardner em seu clássico “On Moral Fiction”. Além disso, ninguém nos garante que o didatismo será moral. A arte moral – aquela fiel a suas leis integrais e tradição, e que, por outro lado, promove a moralidade através do confronto entre o observador e o “conteúdo” retratado – põe à prova valores e suscita sentimentos verdadeiros sobre o melhor e o pior da ação humana.
Como escritor, acredito no poder moralizador da Arte. Ela ensina, não pela força da imposição do autor, mas através do hábito da contemplação e reflexão do leitor. Não escrevo, nem jamais escreverei, algo que julgasse falso ou mau, cujo balanço moral não trouxesse uma ordem superior em face à morte e ao desespero. Ao menos, creio, é isso o que as grandes obras nos mostram. Quando homens valorosos e bons, ainda que não sejam grandes, se corrompem, tornam-se o maior dos tiranos; e quando os grandes homens falham ao tentar feitos grandiosos – descomunais até para si mesmos – a isso chamamos de tragédia. As ações de uma narrativa somam-se ou subtraem-se e, como resultado, o acabamento da forma termina por restaurar o equilíbrio moral. O destino trágico – a morte – é um sacrifício necessário para a renovação do mundo ficcional; a forma dotada de beleza, através da contemplação estética, se torna um fator de redenção em nossas próprias vidas, uma chama face a treva e ao caos da destruição do mundo. Arte destituída de suas bases metafísicas não é arte; tampouco o é quando destituída de seus elementos formais. Em Arte, não há forma sem conteúdo e vice-versa: a bifurcação cartesiana logrou não só ciência e filosofia, mas também as artes. E para livrar-se do engodo, é preciso prestar atenção com os dois olhos.
Mas a dita direita brasileira, além de caolha, é míope e escolhe enxergar apenas conteúdo mais epidérmico. Ao ver suas próprias ideias superficialmente refletidas no texto – ou aquelas para as quais é mais simpática –, imediatamente anuncia estar diante de uma grande obra. Reclama que a arte moderna se tornou ideológica, quando a ideologia retratada não é, nem nunca foi, o problema, mas, sim, a falta de tratamento formal: a forma faz com que o conteúdo transcenda a ela mesma, tornando-o universal, compreensível e aprazível a homens de todas as épocas, sociedades e línguas.
Aliás, por que não falar da esquerda, criticar seus autores com mais ênfase? Por dois motivos. Primeiro, pelo simples fato de que a argumentação – para não dizer debate – é impossível: a inteligência esquerdista já foi corroída por ideologias e histerias a ponto que não se discute mais a realidade. A direita – mesmo em seu espectro político, de liberais a conservadores –, ainda que esteja aquém do debate estético, tende a concordar que há ciências e artes que transcendem a mera política do dia, ideologias e mesmo dogmas religiosos. Segundo, porque as obras da esquerda, no geral, caíram de nível, mas algumas das que chegam a premiações não são tão ruins quanto as obras dos conservadores. Não digo que prestem, mas são menos piores. Essas afirmações são severas, mas não as faço por aversão; aquele que tiver ouvidos, ouça.
Tendo em vista o que considero como arte imoral, não a concepção tacanha de arte cujo conteúdo seria despudoradamente imoral, chega de abstrações. Não tome o leitor minhas palavras por mera retórica inflamada: adentraremos, neste e nos próximos ensaios, num pequeno museu patológico do que vem sendo publicado no espectro conservador da direita; em específico, espécimes da “plêiade de gênios” posta em circulação pelo filósofo Olavo de Carvalho, cujas ideias empolgadas acerca de literatura, embora não menos desastrosas, geraram um miríade de sintomas mórbidos. Não tratarei de casos antigos que já examinei, feito o melodrama “Claridade”, exemplar em inépcia literária a ponto de se classificar o autor como daqueles que confunden el culo con las témporas, para utilizar a expressão de uma das personagens de García Márquez.
CONSERVADORES IDEOLÓGICOS
Vejamos o primeiro espécime de nosso museu: “A Exemplar Família de Itamar Halbmann”, de Diego Fontana. No prefácio, que o autor insiste em chamar de prólogo – algo de se estranhar em alguém que, em tese, deveria operar a linguagem com o máximo de eficiência –, encontramos uma confissão de culpa:
Tentei, a princípio, fazer um exercício de imitação de estilo, emulando deliberadamente a escrita de Balzac, e percebi, ao longo do tempo, como a forma balzaquiana era perfeita para o meu objetivo maior: fixar no papel um tipo humano com o qual me confrontei várias vezes durante o início da minha vida adulta, um espécimen fácil de encontrar no meio jurídico e universitário, o petista milionário, que vive do capital alheio, profere um discurso radical, mas não se furta de adotar os valores e o estilo de vida burguês.
Por obra do destino, competiu a mim, escritor iniciante, a tarefa de salvar do esquecimento esta figura extravagante, conferindo-lhe, assim espero, uma forma de imortalidade. Busquei em tudo ser justo, refreando minha animosidade, a fim de cumprir a obrigação maior do poeta, nunca se afastar da verdade.”
Não digo que admiração por Balzac seja crime contra a estética, mas descaradamente imitá-lo ultrapassa o mero mau gosto. Além da modéstia de se igualar a quem toma por modelo, o sr. Fontana admite aderir a certas ideologias que nunca, creio eu, parou para analisar, na sinopse do livro:
A partir da primeira página presenciamos uma narrativa escrita com receita balzaquiana mas com ingredientes brasileiros. O livro é um estudo de costumes com o método do século XIX e a matéria-prima do século XXI.
Voltaremos ao mimetismo amador depois, façamos antes uma anamnese das crenças implícitas no método que o autor diz aderir.
ANAMNESE DAS IDEIAS FEITAS
Por ora, é preciso nos debruçarmos sobre as implicações estéticas e filosóficas das visões de uma literatura aos moldes balzaquianos. Foge ao propósito, aqui, criticar a escrita de Balzac em seus pormenores; e creio que não será preciso raciocinar muito para notar que, ao publicar mais de 90 romances em vida, ele não dava trato artístico a suas obras, nem teria como fazê-lo. É exatamente isso o que observa o crítico Otto Maria Carpeaux ao comparar o método flaubertiano com o balzaquiano:
A lentidão do processo da transfiguração artística em Flaubert não teria sido, aliás, compatível com o espírito dramático que informa a obra de Balzac. Flaubert tem a cabeça épica,sabe dar aos assuntos certa permanência supra-histórica e supra-atual que Balzac, historiador de sua sociedade, não possui. ‘Madame Bovary’ e ‘Un coeur simple’, mesmo localizados exatamente em casas parisienses ou lugares da Normandia, passam-se em todos os tempos e países da história e do mundo. A distância entre as pessoas e fatos reais que forneceram o assunto ao romancista, e os personagens e acontecimentos do plano novelístico é incomensurável. Essa ‘distância épica’ é resultado do estilo de Flaubert.”
― História da Literatura Ocidental, Volume III, página 1780; Edições do Senado Federal
Já tratei do confronto entre os dois métodos em “Os Olhares de Salammbô”, parte X, e expliquei por que o método flaubertiano é o mais eficiente para fins artísticos. Não pretendo me repetir quanto ao que já foi dito, mas é preciso se ter em mente os conceitos aristotélicos de universal e particular expostos anteriormente, que conferem aos assuntos aquela permanência supra-histórica e supra-atual. Examinemos com mais atenção o método balzaquiano:
Balzac tem um método cuidadosamente elaborado – isso o distingue de Dickens – para dominar aquele turbilhão urbano. Dickens escreve reportagens, integrando-as até formarem histórias de tamanho considerável. Os romances de Balzac são, em geral, muito mais curtos: ele tem uma visão global da sociedade burguesa, decompondo essa visão até resultarem monografias de tamanho reduzido, mas dizendo tudo sobre certo bairro, certa profissão, certa classe. Balzac é um classificador, ‘o Linné da burguesia’. A própria composição da Comédie Humaine explica-se assim: depois de ter escrito certo número de romances, Balzac reuniu-os conforme um sistema de estática sociológica, e começou a escrever mais romances sociais para ocupar os lugares ainda vazios do esquema. À estática juntou-se a dinâmica: da província para Paris há um movimento contínuo no sendo de industrialização e aburguesamento; e na própria Paris esse movimento continua, como descida de classes decadentes e ascensão de elementos novos. O meio para simbolizar esse movimento social é a volta de certos personagens, aparecendo em vários romances em lugares diferentes da hierarquia social. Eis o cimento da construção literária da Comédie Humaine. Quer dizer, os personagens de Balzac, além de serem caracteres humanos, são tipos sociais, representando categorias inteiras da sociedade.
― “História da Literatura Ocidental”, Volume III, página 1720; Edições do Senado Federal
O que isso tem a ver com literatura, Carpeaux não se dá ao trabalho de explicar, tampouco parece saber a diferença entre arte e registro ao, no mesmo livro, enaltecer Balzac pelo registro e desdenhar de Flaubert pela arte. Mas algo é digno de nota sobre as observações do austríaco. Ao leitor que não saiba o que os termos em evidência significam – estática social, dinâmica, movimento contínuo –, são terminologias do positivista Auguste Comte, que cunhou o neologismo, à época de Balzac, sociologia. Nos explica Stuart Mill, em seu “A Lógica das Ciências Morais”:
As Leis Empíricas da Sociedade são de dois tipos: umas são uniformidades de coexistência, as outras de sucessão. Conforme a Ciência se ocupe em estabelecer e verificar o primeiro ou o segundo tipo de uniformidades, o sr. Comte dá a ela o título, ou de Estática Social, ou de Dinâmica Social, de modo correspondente à distinção, em mecânica, entre as condições de equilíbrio e as condições de movimento, ou, em Biologia, entre as leis da organização e as leis da vida. O primeiro ramo da ciência estabelece as condições de estabilidade na união social, a segunda, as leis do progresso. A Dinâmica Social é a teoria da sociedade considerada em um estado de progressivo movimento e a Estática Social é a teoria do já referido consensus existente entre as diferentes partes do organismo social. Em outras palavras, a Estática Social é a teoria das ações e reações mútuas de fenômenos sociais contemporâneos, teoria que faz abstração, na medida do possível e para propósitos científicos, do movimento fundamental que sempre os modifica gradualmente.
Ou seja, apesar de jamais ter utilizado a palavra sociologia, cunhada por Comte em 1839, Balzac compartilha de sua ideologia em seu método pseudoartístico; tratar homens com a ditosa indiferença de um pesquisador com seus ratos de laboratório dificilmente seria considerado ciência, quanto mais arte. Para a crítica francesa – Alain e Paul Bourget, por exemplo – Balzac teria sido pioneiro da sociologia na busca por “decifrar seu mundo contemporâneo” ou, sendo mais preciso, classificar e registrar a sociedade de modo similar ao que Lineu fez com a taxonomia dos animais. A abordagem zoológica, ou biológica, para o filósofo e economista Ludwig von Mises, é justamente um dos problemas da ideologia naturalista, encontrada tanto em Comte quanto em Balzac:
O naturalismo planeja lidar com os problemas da ação humana como a zoologia lida com todos os outros seres vivos. O behaviorismo quer apagar o que distingue aação humana do comportamento animal. Nestes esquemas, não resta lugar para a qualidade específica, o traço distintivo do homem, a saber, o esforço consciente por fins determinados. Eles ignoram a mente humana. O conceito de finalidade lhes é estranho. […]
As ciências sociais são comprometidas com a propagação da doutrina coletivista. Não desperdiçam uma só palavra na impossível tarefa de negar a existência de indivíduos ou provar sua vileza. Definindo como objetivo tratar das ‘atividades do indivíduo enquanto membro de um grupo’, e sugerindo que, nestes termos, cobrem tudo o que não pertence às ciências naturais, as ciências sociais simplesmente ignoram a existência do indivíduo. Na sua visão, a existência de grupos ou coletivos é um dado irredutível.”
– “O Fundamento Último da Ciência Econômica”, Vide Editorial, pgs. 129 e 133.
Espero que esteja claro que, aqui, não nego “importância histórica” aos escritos de Balzac, ou sua influência, ainda que acidentalmente benéfica, sobre outros artistas. Tampouco questiono sua originalidade para temas e situações dramáticas que, noutras circunstância, renderiam boa arte. O que se põe em cheque é, primeiro, seu método e, segundo, sua cosmovisão.
O método balzaquiano cai fatalmente no erro de causalidade eficiente: o autor escolheu fazer sociologia por meio do romance, quando poderia ter facilmente utilizado outro gênero literário mais apropriado e eficiente para tal. Ninguém em sã consciência defenderia que a abertura de “Ilusões Perdidas”, com a descrição detalhada duma tipografia provinciana e suas impressoras Stanhope, seria de grande interesse estético. Intelectual e histórico, talvez, estético, nunca.
O segundo erro, a cosmovisão positivista, pode ser sintetizado na máxima do naturalista Zola: “a arte deve imitar cientificamente a vida”. Não, a arte não imita servilmente a vida: antes recria e transfigura a realidade. A atividade do artista não se encerra na mera descrição de fatos, objetos, cenários e tipos humanos; ela é uma revelação, do homem para o próprio homem, sobre como ele age perante o universo – aqui compreendido para além das leis da física e da matéria. Ao artista não cabe a explicação profunda das estruturas da realidade, a construção sistemática do conhecimento, isso cabe ao filósofo; a ele cabe a representação viva da experiência humana e dos dilemas da existência na superfície e símbolo da arte. Em outras palavras, a ele cabe a representação dramática de como o homem age particularmente com relação a seu destino. É mediante o destino particular do homem que a arte atinge o universal: não há, nem poderia haver, peças sobre entidades coletivas, como uma classe ou categoria. Ainda que o artista retrate algum grupo da sociedade, ou que represente o ethos de um povo, toda ficção gira em torno da ação individual das personagens, não da coletividade abstrata.
Um terceiro erro surge em decorrência das visões positivistas. Ao se promover a arte para fins impróprios – sob pretexto de registro histórico ou didatismo –, cai-se no utilitarismo estético: ignorando as qualidades intrínsecas da obra de arte, é preciso justificá-la com a substituição de seu fim imediato e metafísico pela instrumentalização de um fim mediato e prático. Isso se dá, conforme nos aponta Mises, com o movimento de substituição das ciências humanas pela sociologia positivista:
Numa época em que o prestígio da ciência ultrapassou em muito o da literatura, e zelotes positivistas desdenhavam a ficção como um passatempo inútil, os escritores tentavam justificar sua atividade representando-a como um ramo da investigação científica. Na opinião de Émile Zola, o romance era uma espécie de psicologia social e economia descritiva, que deveria se basear na exploração meticulosa de instituições e condições específicas. Outros autores foram além, e afirmaram que apenas o destino de classes, nações e raças, e não o de indivíduos, deveria ser abordado em peças e romances. Eles destruíram a distinção entre um relatório estatístico e uma peça ou romance ‘social’.
Os livros e peças escritos de acordo com os preceitos desta estética naturalista acabaram sendo obras de má qualidade. Qualquer escritor de destaque que endossou esses princípios o fez da boca pra fora. O próprio Zola foi muito comedido na aplicação de sua doutrina.”
– “Teoria e História”, ed. Mises Brasil, pgs. 199 e 200.
Desde então, soa antiquado dizer que Arte não precisa de justificativas; mas, de fato, não precisa. É nesse erro que incorrem os conservadores brasileiros ao pregarem o didatismo (“educação do imaginário”) ou registro histórico como fim último da arte.
Creio que o Sr. Fontana, em seu mimetismo servil, não tivesse consciência das implicações da “forma balzaquiana” que julgou como perfeita para seu “objetivo maior”, ingenuamente crendo se tratar essa forma de mero capricho estilístico, como se o estilo não fosse resultado direto de uma determinada cosmovisão, sujeita a ideologias de seu tempo e contexto histórico. Vejamos o resultado do “estudo de costumes com o método do século XIX e a matéria-prima do século XXI”.
ROMANCE OU RELATÓRIO ESTATÍSTICO?
Seria de bom tom analisar a página de abertura do livro, porém pouparei o leitor do sacrifício. Resta dizer que o autor começa com um longo cenário, com descrições vagas e sem estilo, tendo direito a menção de ex-prefeitos de Curitiba. As futilidades se amontoam página após página, a ponto do autor, no topo de sua superioridade moral – já que nos disse que “buscou ser justo refreando sua animosidade” – nos descrever a família petista da seguinte forma:
A essa família arquetípica opõe-se outra, minoritária, rica, de dinheiro novo. Marido e mulher revestem-se de um verniz de cultura e zombam da ignorância dos vizinhos. Vão ao teatro uma vez por ano, em março, durante o festival; visitam as exposições do MON, mas não tão freqüentemente; apreciam filmes franceses no Espaço Itaú Cultural; dentro do carro ouvem MPB contemporânea, sintonizados na 97.1FM, a emissora do governo estadual. Sempre votaram no 13, mas de uns tempos para cá namoram o PSOL. Lêem o Veríssimo e o Paulo Henrique Amorim. Odeiam a Veja, desprezam a Globo.
Se essa é a alta cultura olavete, não quero imaginar a baixa. Número após número, informação em cima de informação, e eis que Fontana consegue piorar o troço no capítulo 5, ao citar até mesmo a Constituição Federal de 88:
Seu Flávio legou um patrimônio superior a dois milhões e meio de reais. Silvana Martins Halbmann herdou a fortuna em conformidade com o inciso III do § 1º do art. 155, da Constituição Federal. Incidiu sobre a herança a alíquota máxima de imposto, como estabelece a lei.
Itamar convenceu a esposa a comprar um terreno para a casa que planejavam construir. O saldo restante foi aplicado no banco, em um fundo de renda fixa, com previsão de rendimento anual líquido, descontados os impostos, de aproximadamente 19%.”
Ao longo de todo o livro, o Sr. Fontana escreve tão vexaminosamente mal que não podemos distinguir se temos em mãos um romance ou, precisamente, um relatório estatístico. É um efeito diametralmente oposto ao obtido por Graciliano Ramos, quando prefeito de Palmeira dos Índios, ao escrever um relatório tão literariamente rico que chamou a atenção dos editores da José Olympio. Seria de se espantar que alguém aceitasse publicar um folheto do feitio de “A Exemplar Família de Itamar Halbmann”, fato justificável por ser o autor ser seu próprio editor. Não se trata de má literatura, ou mesmo de subliteratura: o texto está abaixo do jornalismo, pois pelo menos uma reportagem serve de material para a crônica do historiador. O Sr. Fontana não escreve tipos reais, mas puramente imaginários e inverossímeis; descreve um petista da mesma maneira que um marxista descreveria um burguês, de modo meramente caricato, unidimensional, como se ele pertencesse a apenas um único grupo da sociedade. Acontece que o homem real não pode ser atomizado, pertencendo a apenas um único grupo, ocupando um único papel. O homem age individualmente, podendo ocupar múltiplos espaços e papéis dentro da sociedade. Pode ser, ao mesmo tempo, um pai de família, filho, marido, empreendedor, membro do Partido Comunista e fiel da Igreja Católica. O conflito entre os grupos, nos lembra Mises, “não é um conflito entre rebanhos de homens perfeitamente integrados entre si; é um conflito entre diversas preocupações nas mentes destes indivíduos” (Teoria e História, p.185).
Mas nada melhor que a ação pura – os bons e velhos diálogos – para mostrar o que este livro é uma verdadeira obra prima do delírio humano:
— Ela tem deixado entrar qualquer um no mestrado! Uns caras nada a ver, uns zé-ruelas, sem importância alguma. Não é assim que funciona! Tem que cuidar, filtrar. A universidade é nossa a gente não pode deixar entrar qualquer um! Deixa entrar essa molecadinha metida a besta, cheia de teoria, e depois dá merda lá na frente. […]
O Bruxo continuou, […] a censura foi explícita:
— Vocês têm que entender uma coisa: foda-se a tese, foda-se o “valor acadêmico”! — acentuou as duas últimas palavras com uma nota de deboche, fez um sinal de aspas com os dedos no ar — A maioria é uma merda mesmo. Então que se foda! Que-se-fo-da! Entendam que a universidade não é neutra, cara. A universidade é um instrumento na luta de classes; é um aparelho reprodutor da ideologia da classe dominante; precisa ser tomada pelas forças populares.
Itamar ouvia quieto, aprendia, aguardava instruções. Considerava-se fiel, não era um homem com tendências cismáticas. Ousou perguntar:
— O que ela tem que fazer, então? Eu falo pra ela.
— A coisa é simples, porra. Se for dos nossos, aprova, se não for, não precisa nem ler, caralho. Não pode ser boazinha. Direito natural, Tomás de Aquino, Aristóteles, essa bobajada toda, reprova na hora! — vituperou entre os dentes, para não ser ouvido por mais ninguém.
Trata-se de um diálogo expositivo – recurso barato, utilizado por aqueles que não conseguem demonstrar os temas através das ações das personagens –, com meia dúzia de gatilhos verbais para agradar a olavetada, sem nexo com a realidade. Que mundo é esse em que um petista confessa incessante e descaradamente suas intenções e ações mais ocultas? A aura de hipocrisia dos esquerdistas reside justamente no abismo entre a experiência e o discurso, de modo que eles jamais admitem, mesmo que internamente, os reais motivos de suas ações. A histeria vem dessa inversão tácita dos valores, atuando sobre eles mais ou menos como o feitiço das bruxas de Macbeth: bom é mau e mau é bom. O autor mirou no tipo meramente transitório, o petista, e perdeu do horizonte o arquétipo universal: o falso. Este, nos diz Scruton, é uma pessoa fabricada, que se moldou para ocupar uma posição social que não lhe seria, de outro modo, natural. Porém, essa falsidade não deve ser confundida com simples hipocrisia: o falso acredita nos próprios ideias, pois, do contrário, não poderia agir tão descaradamente. Reitero: o retrato esboçado pelo Sr. Fontana não é sequer possível, quanto mais verossímil. Nasci e me criei no Nordeste, mais especificamente em Pernambuco, terra que nas últimas décadas tornou-se infestada por pragas socialistas, conheci inúmeros petistas militantes: professores universitários, estudantes, padres da Teologia da Libertação, médicos, concursados, membros de MST, mas nunca vi o tipo descrito por Fontana andando por aí. Todos os falsos se enganam, mas cada um à sua maneira.
PRESTAR ATENÇÃO COM OS DOIS OLHOS
Além desses problemas, há outro fator que impede “A Exemplar Família de Itamar Halbmann” ser considerado arte: o didatismo. Não é um romance – ou novela, conforme queira o autor –, trata-se de mero panfleto para ideias distorcidas que vagamente lembram as ideias de Olavo de Carvalho, a quem o autor dedica o livro. Mas não basta dedicatória, é preciso bajulá-lo durante a própria narrativa. Durante cenas que pretendem retratar os protestos que culminariam no impeachment de Dilma Rouseff, o autor não nos poupa de slogans:
De repente, porém, a câmera focalizou um caminhão de som, carregado de bandeiras, desfilando lentamente. Lia-se uma faixa com grande nitidez:
INTERVENÇÃO MILITAR CONSTITUCIONAL!
A cena causou rebuliço no sofá da família curitibana. Transbordaram de ira santa. Todos falaram ao mesmo tempo, plenos de indignação. As meninas estavam num estado incandescente, histérico, à beira da desintegração mental. A transmissão cortou prontamente para outra imagem, uma filmagem da perspectiva da rua. Via-se o rosto dos manifestantes marchando sob o sol quente do Rio de Janeiro. Quase todos se vestiam de amarelo. Ostentavam um sem-número de slogans em cartazes. Dois puderam ser lidos:
FORA FORO DE SP
E logo em seguida:
#OLAVOTEMRAZÃO”
Naquela época, bem me lembro, pessoas realmente saíram às ruas, alguns poucos pediam intervenção militar, e, de fato, Olavo podia ter razão. Mas isso não é arte, é um escarro proselitista que passa longe da essência das coisas. Sr. Fontana é incapaz de adentrar no coração do homem, prefere nos dar uma caricatura burlesca e fácil do que nos revelar o medo que faz o homem cair no pecado, na mentira, que o faz se rebaixar da altura que voam os anjos, à condição de porquinho da índia. “É verdade que eles praticaram atos vergonhosos”, nos diz a Compadecida, de Suassuna, “mas é preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. A carne implica essas coisas turvas e mesquinhas. Quase tudo o que eles faziam era por medo. Eu conheço porque convivi com os homens: começam com medo, coitados, e terminam por fazer o que não presta, quase sem querer. É medo”. O homem erra, pois é de sua natureza ser falível; por pior que ele seja, ou seus pecados, ele ainda continua um homem. Somente um grande artista consegue ver além das aparências.
Frases feitas e caricaturas filosóficas agradam os tolos e rendem aplausos. O didatismo da direita, instrumentalizando a arte para propagar as ideologias de seu próprio grupo, é uma imoralidade. Não se combate má ideologia com má arte igualmente ideológica. A esquerda pôs a perder um século de tradição literária no Brasil, mas querer combater o mal, utilizando-se do mal, é entregar o olho necessário para derrotar os inimigos da Ordem. A guerra cultural começa no âmago do artista, na luta contra sua própria mediocridade. Mas aos inimigos da Ordem, não importa: basta proferir falsas palavras. Nos lembra o poeta-filósofo Ângelo Monteiro (em “Entre as Ondas”):
A falsa palavra desfaz todas as pontes,
como também nivela os abismos
por não ter nada que salvar.
E por não ter nada que salvar
destrói toda poesia
dos discursos do homem sobre o mundo.
Ganhar a todo custo, mesmo confundindo
um viveiro de pássaros com a calmaria de um esgoto.
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