A crítica dos Imbecis

Há anos, recebo xingamentos e supostas “refutações” ― mais para escarros de vaidade ― por ter mexido em algumas vacas sagradas da Literatura, tanto da direita quanto da esquerda. A mais recente polêmica foi em relação a meu ensaio “Tolkien e a Deformação do Imaginário”, que, por si, causa rebuliço desde o título. Porém, embora eu previsse reações violentas, subestimei a burrice dos pretensos críticos à crítica. O que deveria ser um debate constituído por ideias e argumentos, tornou-se a mais desprezível das baixarias acerca deste que vos fala.

Dadas as circunstâncias, aqui vão algumas das frases mais comuns ― produtos da destilação de litros e mais litros de bile e ódio dos fígados malsãos ― que revelam como alguns leitores se sentem ao ler certas críticas:

  • Eu até o refutaria se tivesse tempo e paciência.
  • O crítico é um invejoso arrogante.
  • Duvido que escreva melhor que [nome do escritor criticado]
  • A crítica não tem ponto ou parâmetros.
  • Que importa, se eu gosto do livro?
  • Não se pode dar crédito a quem critica [nome de seu escritor favorito].
  • Não se pode criticar um romance com base numa tradução.
  • [Insira aqui o nome de seu crítico ou filósofo favorito] diz que [insira aqui o nome de seu escritor favorito] é um gênio.
  • O autor é de direita.
  • O autor é de esquerda.
  • etc.

Que um crítico seja julgado pelo que diz, disso eu tinha consciência, mas, aparentemente a manada de antas não compreendeu este fato e me julga pelo que eu não disse, além de se crer plenamente capaz de julgar o que está sendo tratado sem ao menos compreendê-lo ou sem distorcê-lo.

Verdade seja dita: alguns leitores discordam bastante de certos pontos de minhas exposições, embora, normalmente, admitam preferências pessoais por este ou aquele tema, ou inclinações a esta ou aquela ideologia, por assim dizer. O leitor tem a liberdade de gostar do que bem quiser; e esse nunca foi o meu ponto. É preciso explicitar que o que é tratado em meus artigos não é uma questão de mero gosto pessoal, mas de realidade estética factual, baseada nas melhores obras já escritas. Agora, o que define este melhor? Esta é justamente a questão que investigo ao longo de vários artigos e ensaios, não apenas um ou dois, fato público e notório na abertura do ensaio sobre Tolkien, em que anuncio explicitamente:

A saber, qualquer escritor que julgo é julgado pelo único parâmetro que importa: o da arte verdadeiramente grande. Então, se você ainda não leu nenhum artigo anterior que escrevi sobre o tema, recomendo que volte e os leia, pois não pretendo elencar mais critérios do que os que eu já defini.”

Obviamente, à primeira vista, o que trato por truísmo em meu contexto ― pois já tratei em outra exposição ―, um recém chegado poderá crer estar diante de parâmetros vagos. Porém, incrivelmente, me parece que muitos, ao se depararem com termos e conceitos que lhes são estranhos, preferem, em vez de estudar o assunto, criar seus próprios significados imaginários para o que está de fato escrito. Ou seja, imprimem suas próprias razões no autor, buscando algum sentido oculto e esotérico em suas palavras. Isso é o juízo da humanidade pelo umbigo dos analfabetos funcionais. Se eu critico negativamente o aspecto artístico de um escritor ficcional, que escreveu num gênero artístico e se propôs a escrever Romance ― e não Ensaio ou outro gênero mais apropriado para Filosofia, Religião, etc. ―, porém falhou em alguns ou todos os aspectos, isso não deveria causar espanto. Porém, se o leitor deseja ler, digamos, Dostoiévski ou Balzac, se pretende tê-los por preferência intelectual: nada posso fazer, tampouco me incomodo com o gosto de pessoas alheias. Apenas aponto para a distinção entre uma coisa e outra, isto é: Literatura, Arte, e os conteúdos materiais, os temas. Conjecturar sobre Filosofia a partir de um romance é fazer Filosofia, não Crítica Artística.

Outra questão importante é esta sandice ― também uma espécie de projeção psicológica ― de acreditar que o crítico precisa ser melhor que um autor para poder criticá-lo. Sim, é uma projeção, pois quem diz esse tipo de coisa geralmente pensa que críticas são feitas meramente para denegrir, que o crítico se põe como alguém superior. Quem assim o diz, não diferencia a si mesmo dos outros. Mas, voltando ao ponto, se apenas quem pode criticar é quem tem uma obra melhor no campo em que ocorre a crítica, podemos jogar fora a Crítica Literária praticamente inteira, boa ou má. Otto Maria Carpeaux, por exemplo, jamais escreveu duas linhas de romance, do mesmo modo que Northrop Frye ou Harold Bloom. Ainda nisso, não escondo que tenho atividade no campo crítico e da escrita, a primeira, para mim, muito menos importante que a segunda. Alguns, por esse motivo, me acusam de ser “parcial para o modo como ele escreve”. Sou parcial para o que é Belo na Arte, não para o que eu gostaria de escrever (afinal, é para satisfazer essa vontade que escrevo). Se há um grupo de autores dispersos ao longo da História, que escreveram em diferentes períodos, sem se conhecerem, e suas obras são objetivamente melhores que as outras produzidas em suas épocas, unindo perfeitamente conteúdo e forma, me parece que é esse o caminho da verdadeira Arte; e não o fato de um autor “ter lido ou não Autran Dourado”, feito me acusou certo anencéfalo. Se há verdadeiro e falso, assim como o bom e mau, belo e feio, se esses valores existem e são objetivos fora da Arte, existem e são objetivos na Arte ― e aqui não estou falando de percepções de gosto mais subjetivas, feito a “beleza das ideias”.

Portanto, essas pessoas que, mesmo ao discordarem, o fazem cordialmente, tendo em vista os elementos citados, constituem um número ínfimo entre as hordas que se aglutinam para me xingar, vituperar, difamar, escarnecer e criar intrigas acerca de meu nome. Para esses, não há diálogo: há o choro e o ranger dos dentes de dezenas ou mesmo algumas centenas, jamais de forma individual. E, não, isso não acontece exclusivamente comigo, mas com qualquer um que exponha opiniões fora do status quo. Alguns, ao se pronunciarem, nem ao menos tentam uma refutação formal ― alegando a insignificância do crítico ou das afirmações e a falta de desejo para tal ―, porém, esta atitude paradoxal e generalizada denota, em alguns, o mero desejo de superioridade perante algo que não compreenderam, uma espécie de afirmação do ego auto-inflada. Esse fenômeno lembra outro, similar, que Ortega y Gasset descreve em “A Desumanização da Arte”:

Quando alguém não gosta de uma obra de arte, porém a compreende, sente-se superior a ela e não há lugar para irritação. Mas, quando o desgosto que a obra causa nasce do fato de não tê-la entendido, o homem fica como que humilhado, com uma obscura consciência da sua inferioridade que precisa compensar mediante a indignada afirmação de si mesmo frente à obra. A arte jovem, com só se apresentar, obriga o bom burguês a sentir-se tal e como ele é: bom burguês, ente incapaz de sacramentos artísticos, cego e surdo a toda beleza pura. […] Onde quer que as jovens musas se apresentem, a massa as escoiceia.

Tal fenômeno ocorre não só nas Artes, mas, analogamente, também na crítica literária e em outras áreas do conhecimento quando, diria Wilde, Caliban enxerga seu próprio rosto no espelho. Ou seja: ficamos ultrajados quando nos expõem nossa própria estupidez. Já ouvi inúmeros muxoxos sobre o feitio de meu estilo, que, por vezes, pode ser considerado agressivo, provocativo, polêmico, etc. Mas, ora, me utilizo de uma linguagem não científica, pois esta se limita apenas a meros dados sem beleza e sem cor. Além disso, a ironia constitui uma poderosa ferramenta estilística, ainda que muitos não compreendam esses aspectos sutis, feito minhas críticas à propaganda que fazem para vender cursos e palestras sobre Tolkien, sob alegação de “formar o imaginário”.

Ao apontar para a falta de uma aristocracia artística ― isto é, em tese, quem produz a mais alta cultura ― também evidencio a quebra nos parâmetros de qualidade e subjugação total de um povo à cultura de massas (pop). Nota-se que a morte da ironia é a morte da inteligência. O Estilo de um crítico também transmite sua sensação perante a obra, seja ela positiva ou negativa, mas o brasileiro pseudo-erudito gosta de fingir choque e indignação diante de sentimentos negativos, pois se crê completamente isento.  Esse tipo de neutralidade é para os velhos acadêmicos de universidade ou literatos oportunistas que querem galgar nas altas esferas tidas como intelectuais. Ninguém, em sã consciência, pode ser forçado a admirar ou respeitar aquilo em que não lhe parece haver elevação; o desprezo crítico é um direito.

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