Escritores iniciantes, geralmente, chegam a mim com a seguinte pergunta: o que é mais importante, forma ou conteúdo?
Para respondê-la, é preciso saber que, em Literatura, há dois principais tipos de leitura: próxima e distante do texto, em dois níveis, o “micro” e o “macroscópico”. Utilizo-me do primeiro nível de leitura, a próxima (ou cerrada), como ponto de partida para minhas análises. Essa leitura exige o exame minucioso de letra por letra do texto, linha após linha, esmiuçando estilística, imagética, técnica ficcional, tudo o que possa ser relacionado à poética e à forma do texto. Somente após essa análise será possível começar a julgar criticamente a feitura da obra. Num segundo momento, por assim dizer, após o termino da leitura daquele trecho ou obra, busco me distanciar e fazer outra leitura — ou releitura — com livro fechado. É somente nesse momento, após o artista ter provado sua virtuosidade, que creio ser a obra digna de uma leitura integral, de corpo inteiro, em que me deixo levar pelo sonho ficcional. Finda a obra como um todo, será possível se distanciar para as reflexões que o texto implica, deduzindo-lhe no íntimo os seus significados mais profundos.
Obviamente, a descrição desses processos intelectuais é uma abstração. É possível que tudo isso ocorra concomitantemente, numa breve leitura de poucos minutos. Esse primeiro contato com o texto pode ser muito revelador, sobretudo quando vindo de um crítico experiente, que não precisa escrutinar integralmente uma obra mal feita para poder decretar-lhe um juízo crítico, mas este é um assunto para outro momento.
Voltemos à pergunta inicial: forma ou conteúdo, o que é mais importante?
A resposta não é tão simples quanto pode aparentar. É preciso levar em conta, durante a leitura as causas aristotélicas, em especial: causa formal e causa material; a forma como o texto se configura, o como é dito, que é o aspecto puramente literário do texto, e o que é dito, ou o conteúdo, com todos os temas, filosofias, retratos sociológicos, históricos, políticos e todas cosmovisões contidas na obra.
Nota-se, outra vez, que separar a forma de seu conteúdo é uma abstração. Embora esses dois aspectos se apresentem simultaneamente numa obra de arte — o conteúdo de um romance nunca chegará anteriormente à apreensão de sua forma, antes de o termos lido —, nós apenas os dividimos para melhor compreendermos o fenômeno literário. O artista, no momento da criação, não se depara com uma escolha contraditória entre forma e conteúdo, uma dicotomia entre ou escrever com beleza, ou escrever com profundidade. Ele se depara com ambos os aspectos da realidade e precisará lidar com eles enquanto cria sua obra.
Albalat nos lembra dessa indistinção prática entre forma e conteúdo para o juízo artístico. Se, por um lado, para que o conteúdo seja relevante artisticamente, é preciso que ele seja dotado de uma boa forma, de outro, não há uma boa forma exista em apenas si mesma, ou seja, que não contenha algo. Esse algo, é de escolha e gosto do artista. Quanto à alegação de que haveria temas irrelevantes ou rasos demais para serem tratados numa obra, só posso responder que um artista fútil criará uma obra fútil, e futilidade alguma jamais resultou em boa arte. O conteúdo a ser retratado, por si, é um elemento esteticamente neutro, tudo dependerá da feitura. Em outras palavras, uma grande obra só surge mediante o gênio individual do artista, que dialetizará inumeráveis elementos — intelectuais, sentimentais, sociais, históricos, etc. — no ato da criação. A verdadeira Beleza estética não contrapõe, como muitos poderiam supor, o inteligível ao sensível, nem imanente ao transcendente, antes, ela abarca essas dimensões da realidade, apresentando o universal mediante o particular. É através de uma vivência contemplativa que a Arte nos abre à captação de uma verdade universal sugerida em seu conteúdo. Sugerida, não exposta analiticamente, pois essa não é a função do discurso poético — ou mais amplamente, da linguagem poética, dirigida à imaginação, seja ela verbal ou não; sob esse viés, mesmo a dança poderá ser considerada como objeto de análise.
Em última instância, a qualidade estética de uma obra será resultado direto dos métodos utilizados pelo artista, independendo da relevância de seu conteúdo para outras áreas do conhecimento. Nas artes plásticas, seria tolice exaltar o Davi ou o Moisés, de Michelangelo, pelas propriedades mineralógicas do mármore de que são feitos; embora pareça uma comparação absurda, é exatamente isso o que a crítica literária faz ao exaltar um romancista por supostos méritos filosóficos, sociológicos ou psicológicos de seu romance.
De modo mais simples: para que o conteúdo tenha qualidade artística, é preciso que ele seja apresentado numa bela forma. A obra de arte literária, diferentemente dos gêneros não-artísticos, é ela mesma, de certo modo, sua própria mensagem: o artista não cria para se expressar sobre algo, ele se expressa para criar algo. Isso não significa, como já expus, que a obra de arte seja seu próprio conteúdo ou mesmo seu próprio fim, antes, significa que sua finalidade encontra-se em si mesma, no seu próprio “uso”, no caso, em sua própria fruição. O artista não se manifesta a respeito das coisas do mesmo modo que um filósofo o faria; o artista cria — ou recria — o que deseja expressar. E uma alteração no como se mostra implicará também numa alteração no que se é mostrado. Essa interdependência denota uma clara hierarquia de valores que o artista precisa ter em mente para obter êxito em sua empreitada.
É por conta dessa inversão filosófica — que põe o conteúdo acima da forma, como se dela não necessitasse para ser inteligido —, além de uma ignorância ontológica de como funcionam os gêneros literários, que surgem as grotescas deturpações acerca do que poderia ser considerado um clássico da literatura. Nem todos os clássicos da prosa ficcional são belos, muito menos bem escritos, de modo que autores são exaltados por terem meramente registrado alguma experiência humana considerada relevante para esta ou aquela trupe de críticos. Isso é mais arbitrário do que definir a qualidade de uma obra de arte, objetivamente, através da análise minuciosa sua forma; e, por óbvio, do que ela contém. Aos tais críticos, dados a filosofadas, basta um monólogo expositivo, de ideias que julguem se assemelharem às suas, para decretarem estar diante de uma obra prima. Para o artista — classe à qual pertenço —, a questão não é tão simples: ele precisa dominar as técnicas de seu ofício, saber o “como” escreverá uma cena, como condensará toda uma amálgama de emoções, impressões confusas e difusas, ideias vagas que rondam-lhe a mente. A ele, é mais caro transformar o monólogo fácil, lógico e supostamente filosófico, de sentido restrito, numa metáfora. O verdadeiro artista abre mão de suas explicações e interpretações sobre sua própria obra e delega ao leitor esse dever.
É através de uma leitura minuciosa da forma de uma obra de arte que poderemos transcender para uma leitura distante, simbólica, que vaga entre os astros e estrelas, para desvendar as verdades universais — e nada óbvias — transmitidas pela arte. Forma e conteúdo não se anulam, embora obedeçam uma hierarquia natural, no campo da estética. Sua apreensão também segue uma ordem natural: a análise no nível microscópico nunca estará completa antes que se distancie, gradativamente, para o nível macroscópico; essa análise distante, por sua vez, também será incompleta caso o leitor tenha deixado escapar os pormenores do texto.
Talvez nunca captemos o sentido total de uma obra, esgotando-lhe as possibilidades de interpretação, pois é da natureza do discurso poético certo efeito mágico, misterioso, que escapa a explicações teóricas. É aquele toque inefável de vida, acertadamente apontado por Henry James, ao dizer que, mesmo que tenhamos noventa e nove partes literárias, ainda teremos uma centésima parte que não o é.
Somente contemplarmos a forma em seu sentido mais filosófico, poderemos desvelar o significado profundo dos símbolos e metáforas. O entendimento de como o artista atingiu determinados efeitos nos esclarecerá a reboque o que é mostrado. E isso é tudo.
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