“Quando o resplendor dum sol recém-nascido tocou pela primeira vez o verde e ouro do Éden, /Nosso pai, Adão, sentou-se sob a Árvore e rabiscou com uma vareta a argila; /E o primeiro rude rascunho que o mundo viu foi alegria para seu coração possante, /Até que o Diabo sussurrou por entre as folhas: “é bonito, mas é arte?”
– O Enigma das Oficinas, Rudyard Kipling
Diria Sócrates que toda sabedoria começa pela definição de termos. Portanto, convém esclarecer desde o princípio alguns termos tais quais eu os utilizo; e não me refiro apenas a palavras, mas principalmente a coisas.
Quando digo a palavra “arte”, tenho por referente as belas-artes, não as artes úteis, e dou-lhe uma definição bastante simples: arte é qualquer expressão inteligível, gerada por técnica, que vise a um fim estético.
Essa definição não é inteiramente nova, muito menos é de todo minha; vem da leitura dialética de vários autores, de filósofos, incluindo Aristóteles e São Tomás de Aquino, a artistas feito James Joyce, T. S. Eliot ou mesmo Ferreira Gullar. Não tenho pretensões de que ela seja “definitiva”, no sentido mais restritivo que os leigos atribuem à palavra, o de esgotar uma discussão. Definir é, primeiramente, estabelecer as bases mínimas para que um debate sóbrio possa ocorrer, demarcando o objeto de estudo. Por óbvio, nenhuma definição pode abarcar todos os aspectos da realidade.
Portanto, neste breve escrito, reservo-me a uma delimitação breve, porém prática e didática, levando em conta a época em que escrevo, num mundo onde se parece impossível chegar ao mais simples consenso do que seja Belo ou Feio. Agora, aos pormenores de minha definição.
Arte é expressão, pois é manifestação do pensamento e do sentimento. Contudo, um mero grito também pode ser uma expressão, seja de raiva, de pavor ou de alegria. Uma folha de papel amassado poderia igualmente ser considerada outra expressão — um senhor, na fila da repartição pública, que amassa um documento na cara do burocrata, uma mulher cortejada que amassa e joga fora uma carta de amor. Agora, digamos que eu impassivelmente amassasse uma folha de papel azul, depois outra, de papel branco, e uma terceira, de papel vermelho. Eu poderia dizer que esta é uma novíssima obra de arte moderna, em que o vermelho representa o sangue do povo morto pelos regimes totalitários, o branco a paz mundial, esmagada pelo século XXI, e o azul seria a esperança.
Dei um significado ao papel amassado que só existe em minha mente, já um observador desavisado poderia interpretá-lo de uma representação disforme da bandeira da França, enquanto a faxineira talvez pensasse que alguém jogou lixo no chão outra vez. Carece, dentre outros fatores, inteligibilidade na expressão.
Para que algo seja arte, é preciso ainda um entendimento imediato de seu significado. Por entendimento imediato, me refiro ao conhecimento intuitivo das coisas, aquela percepção que, num relance, capta tanto o conteúdo, a “mensagem” mais superficial da expressão, quanto a forma, sem necessidade de intermediações intelectuais ou explicações. Nas palavras de Croce: arte é tudo aquilo que toda a gente sabe o que é. Ou costumava saber.
Diferentemente do papel amassado, isolado de um gesto que lhe dê significado, podemos distinguir um grito de dor dum grito de raiva ou medo, por exemplo. São expressões inteligíveis. Mas mesmo sendo inteligível e carregado de emoção, o grito, ato consciente ou involuntário, não possui técnica. Então, a Sra. Yoko Ono irá nos desculpar: gritar num palco de museu, em Nova Iorque ou onde quer que seja, pode ser qualquer coisa — inclusive lavagem de dinheiro —, menos arte. Acredito que indivíduos com a soma total de neurônios maior do que dois deverá perceber este fato sem quaisquer problemas.
Agora, imaginemos outra situação, mais corriqueira, em que nos deparamos com uma fotografia: tomemos por exemplo o retrato 3×4 da carteira de motorista. Temos uma expressão, temos inteligibilidade e temos uma técnica. Podemos, inclusive, ter um retoque digital para torná-la mais bela. Sorrateiramente surge a pergunta que Satanás, por entre as folhas, fez a Adão, no poema de Kipling: é bonito, mas é arte?
O que separa uma fotografia artística de um mero registro? O fim estético. A finalidade estética mudará desde o intuito inicial da expressão até as técnicas utilizadas na fotografia o que, obviamente, influirá na forma; um fotógrafo artístico tentará transmitir seu próprio olhar subjetivo, acentuando detalhes que somente ele enxergou numa determinada cena através das lentes, nos revelando uma faceta da experiência e da condição humana. O fim estético é o que separa a arte do mero registro cotidiano e efêmero.
Podemos, então, distinguir os reais elementos da arte e saber por que o Sr. Marcel Duchamp não fez arte, mas fez uma “tremenda duma arte”. Assinar o penico deveria ser claramente uma piada, mas, quando todos passaram a reverenciar o sarro como a mais elevada expressão artística, termina a arte e começa o desastre.
Logo, chegamos a um segundo ponto do questionamento: e o que é Literatura? Muito se discutiu em torno dessa simples palavra e muitos — quer por limitações intelectuais ou pela crença de se estar diante de algo tão auto-evidente que careça de explicações — não chegam sequer a cogitar uma definição para o que é Literatura. Outros não deram uma definição satisfatória, ora frouxa, ora demasiado restrita. E, não tendo pretensões de ignorá-las, nem levá-las em conta neste momento, tomo por partida o mesmo ponto que Flaubert, que considerava a Literatura como algo dotado de vida — e que talvez engolisse a própria vida —, cujo fim é a Beleza. Logo, levando em conta minha definição de Arte, podemos dizer que Literatura é a “expressão artística escrita”, seja em verso ou em prosa. Portanto, a princípio, o que quer que esteja fora disso, não considero para fins de estudo literário propriamente dito, leia-se, estudo artístico. Para essas afirmações, há consequências complexas, que ficam de fora desta breve reflexão; pretendo, antes, apresentar uma generalização das bases de minhas investigações críticas e estéticas, não elaborar uma resposta definitiva, ou fórmula preconcebida para solucionar de antemão todos os problemas que possam surgir durante o percurso.
Um adendo: dizer que algo é uma obra de arte, ou que não é, jamais será elogio ou demérito — talvez o seja caso o autor deseje ardentemente que sua obra seja reconhecida como arte. Categorizar um objeto é apenas um juízo de fato acerca da realidade objetiva. O mesmo se aplica à Literatura: dizer que estamos diante de uma obra de arte literária, ou não, apenas nos permite examinar o objeto tal qual ele realmente é.
Os Diálogos de Platão são belíssimos, mas são arte? Não do sentido das belas-artes. Também não são Literatura, são Filosofia. E “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, é Literatura? Não. É uma obra mista, que une jornalismo, ensaio e tratado geográfico — para uma delimitação mínima, ignorando os demais aspectos da obra, sem pretender diminuí-los —, escrita com o fim de informar e registrar, mais do que um fim estético. Com isso, podemos analisar a real beleza da obra, a beleza própria do ensaio, do registro geográfico e sociológico, dos temas. Uma panela não é bela da mesma maneira que uma mulher é bela; é preciso categorizar as coisas para que possamos analisá-las e julgá-las de acordo com seus gêneros e espécies.
Porém, quanto mais intelectualizada for uma obra, como é o caso da obra literária, mais complexa pode se tornar essa distinção. É preciso que se tenha uma boa dose de cultura e de intuição — leia-se, apreensão imediata —, mais do que se utilizar de meros termos para ditar verdades automáticas, respostas fáceis que ignoram tanto texto quanto contexto. É preciso ser dialético no sentido mais socrático do termo.
Podemos ter diante de nós um “romance não ficcional” ou “romance reportagem”, a exemplo de “A Sangue Frio”, de Truman Capote. Como julgá-lo? O compromisso maior de Capote era com a realidade, com uma reportagem. Porém, embora a história seja real (isto é, factual), Capote também queria transmitir uma emoção estética, mais do que uma simples notícia de jornal. Portanto, é justo que consideremos “A Sangue Frio” uma obra de arte em sentido estrito ― a saber, o da técnica e elaboração, arte-útil. O fim é documental, não de contemplação. Alguns defenderiam que se trata de literatura propriamente dita, porém, mesmo com claras intenções estéticas na feitura, “A Sangue Frio” continua tendo forte compromisso com a realidade não-ficcional. Carpeaux chega a dizer, em sua enciclopédica História da Literatura Ocidental, que o livro de Capote é “mera reportagem, embora literalmente elaborada” sobre um assassinato. Uma reportagem com alto valor artístico e literário, lida como se fosse romance, o que lhe enriquece em seu próprio gênero, mas que continua sendo obra de jornalismo, assim como o famoso “A Ilha de Sacalina”, de Tchekhov.
Ou ainda poderiam me perguntar: e a Arquitetura? Não é arte? Sim, é arte, porém de outro tipo, que mencionei no primeiro parágrafo, as Artes Úteis. Não utilizo o termo “Belas-Artes” segundo a historiografia da arte tradicional ― por esse prisma, prosa de ficção não seria nem considerada Belas-Artes. Roger Scruton nos ajuda a elucidar essa questão, nos lembrando que a Arquitetura “se distingue das outras formas de arte pelo senso de função, pela qualidade regional, pela técnica, pelo caráter público e impessoal, e sua permanência entre as artes decorativas”. Ou seja, a Arquitetura é mais próxima do artesanato (artes-úteis ou aplicadas), que das belas-artes, as artes mais “finas”. E por finas, não me refiro ao refinamento, sentido atribuído pelos dicionários, mas à origem etimológica da palavra, finis, do latim, fim. Obras cujo fim encontra-se no próprio objeto.
É preciso lembrar, ainda, que a utilidade não se confunde com a deturpação filosófica do utilitarismo, tampouco a própria utilidade anula as qualidades estéticas. A própria Estética é o estudo da Beleza, seja ela dentro do campo da Arte ou não. Como já ressaltei, existem belos ensaios, belas retóricas, belas equações matemáticas, belas ideias, belas paisagens, belas mulheres; contudo, não apreciamos nenhuma dessas belezas como obras de arte.
A segunda pergunta, que Satanás talvez tenha feito a Adão, pode ter sido: é arte, mas é boa arte?
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