Cartas nada exemplares

Deixo abaixo uma inusitada troca de e-mails que ocorreu há alguns anos, quando uma escritora me procurou pedindo que eu lhe prestasse o serviço de leitura crítica, por gostar muito dos meus podcasts. Como acredito que esse tipo de “serviço” não ajude em nada, pois escritores iniciantes devem procurar aprender com um mestre, não com críticas soltas, não cobrei nada pelo trabalho (nessa época, eu ainda não havia fundado o EFESC). Apenas avaliei o texto com sinceridade e a autora obteve exatamente o que pediu.


2020/02/28, 21:21

Caro Paulo,

tudo bem com você?

Anexo o meu livro para o caso de se animar a me fazer um orçamento de leitura crítica.

Me perdoe os eventuais erros de digitação, pois apesar de ter reescrito o livro inúmeras vezes, sempre passa alguma coisa.

Um grande abraço,

A.


2020/03/01, 02:23

A.,

Segue em anexo a breve avaliação que fiz de seu livro. Perdoe-me se fui muito direto, mas é meu jeito, e estou bastante cansado de viagem.

Abraços,

Paulo Cantarelli


A.,

Tomei o último sábado para dar uma olhada em seu romance, e sinto informar-lhe que eu não poderia aceitar seu dinheiro. Por alguns motivos.

Primeiro, fiquei bastante curioso, e lisonjeado, com suas mensagens. Agradeço pela confiança depositada em mim. Não costumo negar opiniões ou conselhos aos colegas escritores que me procurem, então tomarei a liberdade de dizer o que penso e como penso. Desculpe-me, de antemão, ser tão sincero quanto sempre sou.

Segundo, tenha em mente o tipo de crítica a que me dedico: a Grande Arte. Meu parâmetro, a assembléia de vozes que me guia, é o tribunal dos mortos: a perspectiva objetiva dos artistas maiores que eu, advinda de uma longa tradição que remonta a Homero. As balanças do juízo são as mesmas para todos, inclusive – isto é, principalmente – para mim. Se seu objetivo for vender, ou ganhar prêmios, não me interessa. Me interessa a Arte e puramente a Arte. Peço que não tente se explicar, pois, quando digo algo, sei o que o autor pretendeu. Não lhe subestimo.

Geralmente, como lhe disse, não aceito esse tipo de serviço; a verdade é que uma mera leitura crítica talvez não seja o que alguns escritores necessitam, mas, sim, de uma total reformulação – não apenas do livro – de como enxergam a vida e a Arte. Chamemos isso de cosmovisão. E é precisamente este o seu caso.

Pelo que pude notar, seu romance é mais uma  ouevre engagé. Sinceramente, não me importo com as visões políticas de um autor, contanto que ele saiba separar Literatura, Arte, de ideologia¹. Acredite no que quiser, contanto que a obra seja bem feita; é o que acontece com romances feito os de Gabriel García Márquez (comunista) ou do príncipe Tomasi di Lampedusa (conservador). A condição humana retratada transcende, através da forma, qualquer espectro político ou ideologia. Este é o dogma da impessoalidade da obra de arte: não sabemos, pela obra, o que Flaubert, Tolstói, Gabo, Lampedusa, achavam da revolução ou da tradição. O leque de espectros humanos é tão variado, empatizamos com tantos tipos, que não nos deparamos com as ideias A ou B, mas com o sofredor humano. Política, filosofia ou sociologia não deveriam passar de um pano de fundo. Gostaria de deixar claro que todos os problemas que aponto não são apenas conteudísticos, são, igualmente, formais, pois trata-se de um problema de representação, de mímesis (palavrinha tão adorada por Aristóteles).

[¹ O original continha o seguinte posfácio: “Entre abril de 1972 e o início de 1975, ocorreu no Brasil o movimento mais longo de resistência à ditadura militar brasileira. Sessenta e nove integrantes do Partido Comunista do Brasil combateram dez mil militares no Bico do Papagaio, região do rio Araguaia, na divisa dos estados do Pará, Maranhão e do atual Tocantins. A maioria dos guerrilheiros era composta de jovens de 20 e poucos anos. O combate se deu na mata, e a ordem foi para não deixar nenhum deles vivo. Pedro Naves não foi inspirado em nenhum dos guerrilheiros, mas é, sim, uma homenagem a todos eles e aos camponeses que se juntaram à guerrilha.”]

Some, à problemática da forma, a necessidade de um escritor ter consciência dos elementos políticos, sociais e filosóficos que o cercam, a fim de melhor representá-los. Suas bases filosóficas não são fortes, não tente interpretar o mundo, se contente em mostrá-lo da melhor maneira possível. Não tente monólogos pois esse não é seu forte:

“Foi a palavra que me voltou contra Deus, não a palavra de Deus, mas a primeira que balbuciei e  todas as outras que Belisário me mostrou no dicionário. No início, as palavras eram pontes entre  mim e meus pais, minhas irmãs, construíamos elos no terreno comum da semântica. Eu acreditava  que o significado de cada palavra era estático, um circuito fechado compreendido por todos da  mesma forma. No entanto, alguns verbos, substantivos e adjetivos têm mais de um significado e,  mesmo entre os sinônimos, há sempre uma distância. Como ter certeza do que o outro diz, se  nosso entendimento pode não ser o mesmo? Se o ouvido recria o dito, a quem a palavra serve: a  quem fala ou a quem ouve?”

De que isso acrescenta à condição humana? Por acaso trata-se de um tratado de linguística? A ideia, por si, é fraca, cheia de derramamentos líricos, há o descuido no som, como na rima entre “Belisário” e “dicionário”. “No início as palavras eram pontes entre mim e meus pais, minhas irmãs; construíamos elos no terreno comum da semântica“,  mas o que é isto, um ensaio de Saussure? Para que gastar palavras descrevendo algo tão óbvio e banal de modo eloquente? Parece a voz dum acadêmico de letras medíocre. De nada acrescenta ao sofrimento humano. Outro problema: nesse capítulo, a palavra “palavra” aparece 16 vezes! Só no parágrafo citado, há 5 repetições. Há um problema sério com a tentativa de discurso indireto livre, porém, comentarei isso depois. E há, ainda, um problema mais sério, a falsificação do lirismo – ou seja, do sentimento poético – perpetra todo o texto, desde o início à última página. Você tenta impressionar o leitor, termina com um melodrama brega. O próprio início é subjetivista, e já começa com um erro gramatical (“é quatro da tarde [n]a mata”).

É quatro da tarde a mata. A luz escala as árvores, alcança o alto das copas e de lá se lança sobre o  corpo da ave e se esconde na dobradura de suas penas. A luz não vai só. Ao subir as árvores, leva  o caititu, o mutum, de forma que no corpo da ave, dentro da luz escondida, estão as almas dos  animais da floresta, devolvidas aos seus corpos apenas nas primeiras horas do dia.

De que nos interessa se são quatro da tarde onde quer que seja? Como é que “a luz escala as árvores, alcança o alto das copas, [etc.]”? Livre-se do lirismo, essa falsificação que apodrece o texto feito a peste devora os campos maduros. As imagens são cacos, não formamos um cenário nítido ao fecharmos os olhos. Essa prosopopeia desregrada também não ajuda. Fora as repetições de “a luz” três vezes somente nessas linhas – e mais duas adiante. Quanto à frase “o que sobra na floresta, quando a luz planta no céu os animais?“, é a maneira mais estúpida e complicada de se dizer que havia constelações no céu. “O que sobra na floresta quando as constelações aparecem?” teria sido a maneira acertada de se dizer o que você quis dizer. Mas, ainda assim, não seria bom. A narrativa em primeira pessoa não é desculpa para o narrador desenrolar a língua o quanto quiser. Qualquer escolha de palavras, dizia Umberto Eco, é uma escolha ideológica, é preciso filtrar as nuances do que é dito, achar a palavra justa. Um adjetivo vago, um substantivo abstrato, perde-se o que se quer dizer, revela-se além da conta ou muito pouco.

Essa mata-hiato. Me ergo e me arrasto para que os soldados, tendo olhos, não me possam ver, e  as pedras – nunca tendo visto nada – sejam os olhos que me faltam. Atrás da samaúma, quinze  soldados cercam as folhas escuras espessas da mata.

O que seria uma “mata-hiato”? Péssimo gosto no uso da expressão, novamente subjetivista e pseudolírica. “Me ergo” tem um som desagradável, a junção de duas vogais (a mesma, e-e.)  E como é que o sujeito se ergue e se arrasta? Verbos díspares. “Os soldados tendo olhos”, mas a regra geral não é justamente que as pessoas tenham olhos? E em “as pedras – nunca tendo visto nada”, me avise quando virem. Você quis dizer que o sujeito se arrastou pela mata, tateando as pedras, para que os soldados não o vissem. Por que não disse logo? É preciso dizer as coisas como são.

Há, contudo, algumas cenas que julguei razoáveis. Poderiam ser boas, se – reiterarei novamente ao longo desta carta – você não tentasse embelezar o texto.

Preste atenção na contagem, sente o cheiro, você sabe que um animal está doente pelo cheiro. Era o que meu pai falava, eu ainda criança quando percorríamos o pasto, e se eu o interrompia, ele levantava a sobrancelha direita e a palma da mão, continuava até completar a frase, as mesmas frases todos os dias. Repetidas, deixavam para trás  seus significados, viravam sons desarticulados que eu concatenava às folhas, ao riacho, às vezes  eu andava devagar na tentativa de que as palavras de meu pai se sobrepusessem a outras  paisagens.”

Teria sido um bom início de romance, uma cena boa. Até a metade. As vozes internas funcionam bem, o “era o que meu pai falava, eu ainda criança quando percorríamos o pasto” traz o leitor para bem perto do narrador. Isso é bom. O detalhe “levantava a sobrancelha direita” é excessivo, a palma da mão é o suficiente. Mas, depois, novamente, você caiu nas explicações e monólogos fúteis: “Repetidas, deixavam para trás  seus significados, etc…”. A explicação é uma filosofada muito rasa. Teria sido tão mais bonito algo como: repetidas, ficavam para trás, mesclando-se ao som das folhas e do riacho; às vezes eu andava devagar na tentativa de que as palavras de meu pai se sobrepusessem a outras paisagens. Seria um sentimento real, de saudades. E este todo é o problema da falsificação do lirismo: falsificar o sentimento sem pagar o preço por ele. As explicações e intromissões quebram o fluxo psicológico da narrativa, deixe que o leitor sinta e se esqueça de que está lendo. Esqueça as filosofadas sobre fonemas.

Há também o problema dos diálogos internos, que, provavelmente, você pretendia que fossem discursos indiretos livres:

Padre Neto gostava de falar numa língua que ninguém entendia, ab ovo, ab ovo, a rosácea no  rosto a cabeça pontuda. No final da missa, nos convidava para ouvir seus dois canários vermelhos.  Sentávamos na mesa da cozinha e, da gaiola presa ao teto, os pássaros cantavam. Parece a Ave  Maria, sim, estou treinando eles, quanto tempo vive um canário?, dez anos, esses têm quantos?,  falta um mês para completarem dez, mas não se preocupe, assim que morrerem arrumo outros.

A separação das vozes por vírgulas causa uma confusão desnecessária; não estou dizendo que não pode ser feito, porém, do jeito que está, não se ajusta à pulsação narrativa, o que está sendo transmitido não é confuso, nem requer essa impressão. Melhor seria, neste caso: “Parece a Ave  Maria. Sim, estou treinando eles. Quanto tempo vive um canário? Dez anos. Esses têm quantos? Falta um mês para completarem dez, mas não se preocupe, assim que morrerem arrumo outros“. É possível identificar as vozes pelo tom, sim, você não fez as personagens soarem igual, pelo menos. Mais adiante, o uso do discurso indireto livre foi bastante bem feito:

As frases da Bíblia eram difíceis, eu perguntava à minha mãe o que significavam e ela não sabia dizer, eram palavras de Deus e ninguém precisa saber tudo, Deus é quem sabe de tudo, a nós  basta aceitar.”

Não se preocupe em não ser óbvia, preocupe-se em ser clara. Clareza, harmonia e integridade fazem parte dos pressupostos estéticos para se atingir o Belo. Por algumas cenas – e por algumas páginas de seu primeiro romance -, vejo que você é uma escritora confiante. Confie nas ações e não dê brecha para detalhes que não adicionem ao tom, função ou efeito da narrativa, mate as perífrases. É preciso ser seco, frio, para que a real beleza emane do texto. Uma passagem que achei bela, mas exagerada, com cortes que julgo que seriam necessários (grifos e observações minhas):

me espantei quando vi a velha índia e Anahí chegarem à fazenda, usando colares feitos de  sementes e com penas nas pontas. Os cabelos muito lisos desciam até a cintura [afinal, tudo o que desce, desce em direção à terra…]. Tinham  vindo de longe a pedido de minha mãe. Assim que meu pai saía de casa, as duas apareciam na cozinha para misturar ervas e raízes em  panelas de barro. A língua portuguesa deixou de me interessar por um tempo, Belisário falava de  pronomes e eu só conseguia prestar atenção nos cânticos, no cheiro da alfazema. Na hora do  almoço, as duas se recolhiam, minha mãe mudava de roupa, servia meu pai. Ele comia devagar,  queria conversa, e eu torcia para que não se demorasse, pensava no que as índias estavam fazendo e por que minha mãe se vestia de  branco quando estavam juntas.

Ou em:

O sol aponta no curral quando saímos eu, minha mãe e as índias para uma construção de tapume  no limite da fazenda. A menina Anahí me posiciona no centro, ela deve ter treze anos no corpoos olhos acabam de nascer [?]. Pergunto à minha mãe o porquê do passeio, para quê, ela se aproxima com um defumador, olha para a velha índia e o move rente aos meus braços, passa unguento em  minha testa, manda eu me sentar. Minha mãe se desfaz da saia, da anágua branca e deita-se seminua [já não estamos vendo? Se fosse apenas “nua”, seria mais forte] no solo vermelho. Preciso sair  daqui, vigiar se não vem alguém, mas não posso nada ante os olhos-foice de Anahí. A velha índia  esfrega ervas no ventre de minha mãe.

O sentido desse ritual – ou seja lá o que for – não ficou claro, mas creio que seja esclarecido depois. Suspense besta. Porém, é uma bela cena, sem muitas interrupções, o ritmo narrativo flui. Não entendi por que a mudança de tempos verbais do pretérito para o presente do indicativo. Não faz sentido estético. Seria preciso uma palavra ou frase de passagem, enunciando a mudança temporal.

Obviamente, não li o livro inteiro, mas o que li foi o suficiente para tirar conclusões. Quanto ao restante, passei os olhos, vi que há um registro de ficha policial de uma das personagens. Evite figurinhas, Literatura não é livro infantil para se ilustrar. Também não é registro.

Sei que pode ser difícil ler isto, mas espero que não leve a mal minhas críticas. Não aceitei cobrar por uma “leitura crítica”, pois acredito que seu livro não é do tipo que tenha conserto, ou, ao menos, que seja facilmente consertado. Seria preciso reescrever praticamente tudo do que li. Inclusive o título, “No Fundo do ***”. Primeiro pela ambiguidade (no fundo, ânus mesmo). Segundo, por fundo do, cacófato “dodô” (ave marinha extinta). “***” seria um título melhor, mas não sei se seria ótimo. Ao menos não desagrada. Caso você decida inscrevê-lo num prêmio, não duvido que seria finalista, arrisca até ganhar, pelas temáticas. Feito me diz um amigo: hoje, do Jabuti ao Nobel, eles se esforçam em premiar as obras menos aristotélicas que encontrarem. Não tome isso como um insulto, mas como um conselho. Eu não o publicaria do jeito que está, mas desejo a você muito êxito.

Um abraço,

Paulo Cantarelli


2020/03/01, 09:18

Caro Paulo,

primeiramente obrigada pela análise sincera do texto. Não levo para o lado pessoal. O texto é o texto. Eu sou eu.

Tomo a liberdade, no entanto, de colocar alguns pontos, não para perturbá-lo, mas pq gosto muito de Literatura e, talvez, assim como seu texto me instigou algumas reflexões, talvez as minhas reflexões possam te instigar outras. Sempre aprendo com os retornos das pessoas, então se com você é assim também, segue aqui um convite à troca amadurecida e generosa.

“E há, ainda, um problema mais sério, a falsificação do lirismo – ou seja, do sentimento poético – perpetra todo o texto, desde o início à última página. Você tenta impressionar o leitor, termina com um melodrama brega.” Eu não. Pedro Naves, o narrador-personagem. E isso é uma chave essencial para o livro pq Pedro é um ex-combatente da esquerda que cai para o falso lirismo justamente pq a via da falsificação é um resumo perfeito do que ele se tornou. Ele combateu no Araguaia e, ao longo do livro, o leitor descobre que ele mora numa casa com caseiro e empregada, ou seja, tornou-se um burguês. A traição do sentido, que é revelada por esse lirismo afetado, é uma capa com a qual ele se recobre.

Peço que não tente se explicar, pois, quando digo algo, sei o que o autor pretendeu – Com todo respeito, Paulo, o parágrafo acima mostra que não. É preciso conhecer o autor e conversar com ele para saber a intenção. Eu, inclusive, jamais escreveria pensando em prêmios, pois acompanhei os bastidores de muitos deles e sei que o que mais vale são as relações de amizade e as pautas dos livros – mais do que a qualidade deles de fato.

“Sinceramente, não me importo com as visões políticas de um autor, contanto que ele saiba separar Literatura, Arte, de ideologia. Acredite no que quiser, contanto que a obra seja bem feita; é o que acontece com romances feito os de Gabriel García Márquez (comunista) ou do príncipe Tomasi di Lampedusa (conservador). A condição humana retratada transcende, através da forma, qualquer espectro político ou ideologia.” Concordo plenamente e, justamente por isso, o livro não toma partido num olhar mais atento. Há uma série de críticas aos movimentos de esquerda ali, sobretudo na terceira parte, quando Pedro Naves percebe que não é possível falar pelo povo. Ele tem lampejos dessa percepção. Não na juventude, logicamente, afinal, se é um narrador-personagem, há que se comprar o ponto de vista dele. No entanto, quando o bicho pega, ele percebe de alguma forma a ingenuidade com a qual foi para a guerrilha e a coloca, em certos momentos, contra a parede.

“Política, filosofia ou sociologia não deveriam passar de um pano de fundo” E no meu livro é isso: pano de fundo. Há uma série de subcamadas que, lendo o livro inteiro, você teria pegado. Há o realismo mágico que expõe algumas delas, há a fusão de cenas em tempos diferentes que quebra, de certa forma, o pareamento com a realidade… Falo também da traição da memória, enfim, há uma série de elementos que desmontam, numa leitura atenta, essa ideia de que a grande questão do livro é o panorama político. Não é, passa longe.

“Suas bases filosóficas não são fortes, não tente interpretar o mundo, se contente em mostrá-lo da melhor maneira possível.” A minha não, Paulo, a do narrador-personagem. Não tem nem 1% do que eu li neste livro pq não caberia a Pedro Naves. Precisei ler e utilizar as referências de acordo com quem eu desejei que Pedro Naves fosse. Meu personagem tem as suas tacanhices, ele joga no texto o trecho mais clichê de Heráclito, por exemplo. Esse era o nível intelectual dele, o que fica ainda mais interessante (na minha opinião) quando ele escolhe justamente um falso lirismo para se elevar. A poeira da linguagem para esconder o óbvio: ele nunca foi um grande intelectual por ter lido meia dúzia de livros.

“De que isso acrescenta à condição humana? Por acaso trata-se de um tratado de linguística? A ideia, por si, é fraca, cheia de derramamentos líricos, há o descuido no som, como na rima entre “Belisário” e “dicionário”. “No início as palavras eram pontes entre mim e meus pais, minhas irmãs; construíamos elos no terreno comum da semântica”, mas o que é isto, um ensaio de Saussure? Para que gastar palavras descrevendo algo tão óbvio e banal de modo eloquente? Parece a voz dum acadêmico de letras medíocre.” É o que ele é Paulo, um intelectual mediano que fez Letras e acha que sabe tudo e escreve muitíssimo bem porque leu meia dúzia de livros. A ideia foi justamente satirizar. Nem todos entenderão. Talvez os da direita pensem que é bobagem ideológica. Os da esquerda pensarão que é uma ode. Nada disso. A terceira parte fala mais disso: o aspecto humano atinge a todos, direita ou esquerda, implacavelmente. Tem pau pra todo lado dentro do livro.

Outro problema: nesse capítulo, a palavra “palavra” aparece 16 vezes! Só no parágrafo citado, há 5 repetições.

Não é a minha versão final do livro ainda… Ainda está na fase de leitura crítica. Só depois eu voltarei para fazer pente fino… O livro ainda está em processo de finalização.

O próprio início é subjetivista, e já começa com um erro gramatical (“é quatro da tarde [n]a mata”). 

Não é erro não. A mata é quatro da tarde. É uma metáfora incomum e afetada, digna de Pedro Naves.

Quanto à frase “o que sobra na floresta, quando a luz planta no céu os animais?”, é a maneira mais estúpida e complicada de se dizer que havia constelações no céu.

Não, Paulo, não são constelações. Primeiro, é preciso pensar na cena de uma maneira não literal. A luz (ao contrário da lógica) vem de baixo. Ela se lança sobre o corpo de uma ave levando a alma dos animais com ela. Essas almas entram nas penas da ave. A luz planta no céu os animais. O sentido da frase é exatamente esse. A luz planta no céu os animais. Dentro da lírica falsa de Pedro.

A narrativa em primeira pessoa não é desculpa para o narrador desenrolar a língua o quanto quiser.  Se for uma sátira, sim! Assim, temos diferentes graus de verborragia, etc, de forma que a linguagem se torna um elemento-chave na compreensão de quem é o personagem.

O que seria uma “mata-hiato”? A mata como um espaço de passagem, entre uma coisa e outra. Isso faz todo sentido no desenrolar do livro, pois a mata aparece dentro da cidade, quase como um portal para outras experiências em tempos diversos.

E como é que o sujeito se ergue e se arrasta? Verbos díspares.

Paulo, ele se ergue E se arrasta. Não quer dizer que isso seja feito ao mesmo tempo, né?

“Os soldados tendo olhos”, mas a regra geral não é justamente que as pessoas tenham olhos? E em “as pedras – nunca tendo visto nada”, me avise quando virem.

Isso eu já cortei pq até para mim era demais o nível de pseudo-lirismo de Pedro haha

É preciso dizer as coisas como são. Como o são para o personagem, né? Sobretudo se está em primeira pessoa.

Há, contudo, algumas cenas que julguei razoáveis. Aleluia, aleluia, aleluiaaaa!

O detalhe “levantava a sobrancelha direita” é excessivo, a palma da mão é o suficiente. Concordo.

E este todo é o problema da falsificação do lirismo: falsificar o sentimento sem pagar o preço por ele. Concordo. E Pedro Naves não paga o preço por nada. Não paga o preço psíquico por ter estuprado uma companheira, não paga o preço da escolha ideológica até o fim…Nem todo personagem precisa pagar o preço das coisas. Justamente quando ele não paga é que as coisas ficam mais interessantes, na minha opinião, pq aí o autor tem a possibilidade, inclusive, de falar da superficialidade, dos personagens mortos-vivos, dos personagens soberbos. O falso-lirismo foi a linha-mestra desse romance. Cada livro me pede um desafio diferente.

A separação das vozes por vírgulas causa uma confusão desnecessária. Só no início. Depois, acostuma. E se não acostumar ou não gostar tbm, paciência. O que causa confusão em um, não causa necessariamente em outros.

Mais adiante, o uso do discurso indireto livre foi bastante bem feito. Obrigada! Acredito que Literatura é processo. Nem todo mundo publica uma obra-prima no segundo ou terceiro livro. Acredito que vou melhorar meu uso de indireto livre na prática, obra após obra. Não tenho a pretensão de só publicar o que é perfeito. Vou aprendendo e melhorando no esforço de que cada livro seja melhor que o anterior.

Não se preocupe em não ser óbvia, preocupe-se em ser clara. Pedro Naves não é claro, Paulo. Ele é óbvio. Escrevo ficção para praticar tbm uma espécie de alteridade fictícia e inclusive abraçar as possibilidades que são muitas além da coerência, clareza e etc. Gosto tanto de autores que têm narradores muito claros quanto dos que trabalham com os obtusos, como a Maria Gabriela Llansol, por exemplo. Depende da história que vou contar o nível de clareza e limpidez do meu narrador. Se a gente colocar o pressuposto de que todos os narradores devem ser sempre claros, a gente mata bastante gente boa no caminho.

É preciso ser seco, frio, para que a real beleza emane do texto. E com essa você mata Hermann Broch, um dos maiores escritores da Literatura, que não era seco nem frio.

os olhos acabam de nascer [?]. Se você pensar apenas literalmente, não faz sentido. Se buscar a ideia por trás disso, há infinitas possibilidades para a frase.

e deita-se seminua [já não estamos vendo? Se fosse apenas “nua”, seria mais forte] no solo vermelho. Boa. Vou mudar pra nua, obrigada.

O sentido desse ritual – ou seja lá o que for – não ficou claro, mas creio que seja esclarecido depois. Suspense besta.

Não é besta, Paulo. Tão importante quanto como contar é quando contar e se vai contar. O significado desse ritual, inclusive, não é explicado literalmente pq eu quero que meus leitores pensem. O leitor vai precisar alinhar uma série de cenas de realismo mágico pra tirar suas próprias conclusões. Se quiser. Se não quiser, que abandone o livro e está tudo bem. Você tbm deixou passar a ambiguidade da frase: “como se enfim tivesse consertado o que havia errado em nós”. O que ela havia errado ou o que havia de errado? Fica com o leitor a forma como vai ler isso. E, dependendo de como ele ler, isso faz diferença na interpretação desse ritual.

Não entendi por que a mudança de tempos verbais do pretérito para o presente do indicativo. Não faz sentido estético. Seria preciso uma palavra ou frase de passagem, enunciando a mudança temporal. E com essa você mata Almeida Faria, grande escritor português que inspirou Raduan Nassar a escrever Lavoura Arcaica. Existem diversas funcionalidades para a mudança de tempo verbal no parágrafo – uma delas, aproximar o leitor de uma cena do passado como se ela estivesse acontecendo enquanto é narrada.

Obviamente, não li o livro inteiro, mas o que li foi o suficiente para tirar conclusões. Então… Complicado, né? Imagina se eu sou uma pessoa iniciante ou insegura… Você pode prejudicar seriamente uma pessoa por causa de conclusões feitas a partir de uma leitura por cima, mesmo tendo a melhor das intenções. A gente nunca sabe o bastante pra ser genial com uma leitura por cima. Não à toa, em leitura crítica eu leio mais de uma vez. E não dou retorno nem a pau pra autor que pede pra eu dar uma olhadinha. Pq uma olhadinha não permite nem que eu seja acurada nas colocações nem que o livro do autor tenha o olhar que merece. E eu acho que todo autor que está afim de evoluir merece esse olhar. Não por cima, mas por dentro.

Sei que pode ser difícil ler isto, mas espero que não leve a mal minhas críticas. Jamais. Tranquilo. Inclusive pq o que eu mais faço é meter o pau no texto de autor (mas qdo é sátira, geralmente eu percebo – se você pode falar em “estupidez”, eu tbm posso ser sincera haha). Tenho um amigo que considero muito, e ele fez sugestões muito perspicazes sobre o livro. Sempre agradeço qualquer tipo de retorno, concorde ou não concorde com ele. Eu só citei essa coisa da leitura por cima pq eu sou macaca velha, mas se vc lê o texto de outra pessoa só por cima, vc pode derrubar um livro precipitadamente e desnecessariamente. Apenas por colocar conclusões apressadas. Não vale a pena. Nem para o avanço da Literatura, nem para o outro. É melhor, nesse caso, simplesmente dizer que não tem interesse para a maioria das pessoas. Comigo, ao menos, foi bom pq eu tive a oportunidade de colocar questões que me são muito caras.

Caso você decida inscrevê-lo num prêmio, não duvido que seria finalista, arrisca até ganhar, pelas temáticas. Olha, seria bom – não por ovação que eu não acredito nisso. Mas para que ele fosse mais lido e eu pudesse, de repente, com o dinheiro, tirar um sabático e ter mais tempo para escrever. É possível que o olhar mais superficial dê a ele um prêmio pela temática, achando que eu estou louvando de forma acrítica a esquerda? Sim e, se isso acontecer, vai ser absolutamente genial. Pq as pessoas leem a partir de si, a maioria. Projetam o que querem projetar. A boa obra suscita sempre muitas interpretações. 

Ah, se por acaso eu vir [sic] a ganhar um prêmio, por favor, jamais exponha essa nossa troca de e-mails. Ela é pessoal, e é direcionada apenas a você. As chaves de interpretação da minha obra, eu vou guardar para o momento certo. Quero ver a interpretação das pessoas, antes de contar a partir de que premissas construí meu narrador-personagem.

Também te desejo muito êxito!

Grande abraço,

A.


E assim termina a troca de e-mails, então, julguem por si. Curiosamente o tal livro foi lançado e já se encontra fora de catálogo: errei em minha previsão, sequer ganhou um prêmio. Eu deveria ter cobrado pelo meu tempo, assim não leria essas respostas tão mal escritas, de bolsos vazios.

Comentários

2 respostas para “Cartas nada exemplares”

  1. Avatar de João Paulo
    João Paulo

    Os seus artigos de crítica às obras que têm falhas técnicas são, na minha opinião, tão didáticos quanto os artigos teóricos. Eles dão, para o leitor leigo (eu), um pouco dos insights que o artista tem durante o processo criativo, expondo um pouco as técnicas de construção do texto.
    Lembra bastante aquele episódio emblemático do podcast em que você critica alguns textos ganhadores o Jabuti.

    1. Avatar de Paulo Cantarelli

      Obrigado, João Paulo. Fico feliz que minhas análises lhes sejam úteis. Abraços!

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