#07 – A arte da procrastinação

E lá vamos nós…

Finalmente com uma niusletter de verdade! Sim, estou testando novos horários para o envio, porque eu acordava bem cedo no sábado de manhã para escrever a vocês e… A maioria abria os e-mails à noite.

Esta semana, reativei o canal do Youtube, com uma volta tímida de alguns vídeos. Mais coisa virá, em breve. Sem mais delongas, ao assunto principal:

I – Memento Mori

É sabido que os generais romanos, ao retornarem de suas grandes vitórias, tinham sempre um servo sussurrando-lhe ao ouvido: “lembra-te de que és mortal, se furarmos teu bucho, tu morres, saco de tripas desgraçado…”, ou algo mais ou menos assim. Tenho certeza de que os cronistas históricos embelezavam os fatos.

A verdade é que muita gente vive como se fosse viver para sempre – mesmo depois de tanto tempo, as pessoas não aprendem – e a maioria delas morre sem realizar a própria vocação. Muitos escritores chegam até mim com medo: do fracasso, do julgamento, da própria tentativa. Bom, se você não quer errar, não tentar é a solução mais fácil para sequer fracassar.

E, mesmo prosseguindo no caminho do escritor, nada garante que o novato não retrocederá. Quantos alunos já não vi ir embora, apesar do talento, porque a esposa lamuriosa o afastava da escrita? Ou quantas escritoras não deixaram de ousar por medo do julgamento das pessoas (ah, sociedade burguesa, tu me julgas, mas não pagas minhas contas!).

II – O Artista e a resistência

O coach escritor Steven Pressfield, além de autor bestaseller do New York times, possui um livrinho intitulado “A Guerra da Arte” (algum editor deve ter adorado as vendas que esse trocadilho trouxe, com os leitores desavisados achando que se tratava de Sun Tzu). Nem se apresse para ir comprar, o livro não é lá essas coisas, possui no máximo dois ou três conceitos úteis, que poderiam ser resumidos num artigo.

Um desses conceitos é o de resistência, uma “força” inercial que faz com que o artista permaneça em sua zona de conforto, sem criar. Ela pode aparecer de várias formas, sendo as mais comuns:

I. Procrastinação

II. Dúvida e medo

III. Perfeccionismo

IV. Autossabotagem

Cortando a autoajuda barata, com todas aquelas manias americanas de jornada do herói, na qual o autor, com suas miudezas, se coloca como grande exemplo para a humanidade, há algumas lições proveitosas. Uma delas é que muitos aspirantes a artistas se sabotam ao fugir de sua vocação buscando uma “carreira sombra”, conceito de Pressfield, inspirado em Carl Jung: uma atividade que você exerce enquanto se convence de que está “se preparando” para sua real vocação, jogando-a para segundo plano. Na realidade, essa seria apenas uma das maneiras pelas quais a resistência te leva para longe da atividade criativa.

Resumindo porcamente, a sombra, em conceitos junguianos, seria uma parcela rejeitada de nossa personalidade, que escondemos de nós mesmos e dos outros: medos, fraquezas, desejos e mesmo talentos reprimidos; todos varridos para debaixo do tapete da sala. Quando cede à sombra, o indivíduo se acomoda na zona de conforto: adeus, Arte! Quem aí já ouviu o papo de que escritores têm de ser copywriters, de que é preciso primeiro ganhar dinheiro para depois se tornar artista? Não há suborno melhor do que a promessa de gordos lucros.

E enquanto a Arte emagrece, outro perigo ainda maior é a fuga para a família de comercial de margarina. Quantos homens e mulheres de talento já não presenciei se aburguesarem – isto é, tornarem-se meros filisteus, preocupados apenas com as dimensões materiais da existência –, convencendo-se de se afastarem de suas vocações para se dedicarem aos filhos? Bons pais e boas mães, sem dúvidas. Por outro lado, quantos bons artistas já não sacrificaram o bem-estar material para criar, sem fugir de suas responsabilidades?

Cada escritor tem suas próprias circunstâncias, suas próprias limitações, seus medos. Não estou julgando as motivações de ninguém, trago apenas um inconveniente lembrete. Como diz um provérbio hindu, apenas três coisas não voltam na vida: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida.

Pense nisso.


Este e-mail foi escrito ao som do Andante do Concerto nº 23, de Mozart, por João Carlos Martins.

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