De meus ex-alunos, a maior desculpa que ouço, quando vão embora, é: “estou sem tempo”. Sempre a julguei como um eufemismo para “literatura não é tão importante assim” ou “não estou disposto a me esforçar por minha educação agora”. Muitos realmente gostam de Literatura, mas sentem que é preciso, primeiro, resolver a vida prática inteira antes de poder se dedicar a atividades superiores do espírito.
Até o final do texto, darei uma ferramenta poderosíssima — e gratuita — para quem realmente está lutando contra a falta de ordem na vida. E, no caminho, cinco leitores encontrarão uma oportunidade que não durará até o fim da semana. Mas isso é assunto para depois. Por ora, o diagnóstico: você não sofre de falta de tempo, mas de disciplina (eu sei, dói admitir, mas reconhecer dói menos no longo prazo).
I – Preferência Temporal
Hoppe, em Democracia: O Deus Que Falhou, explica brilhantemente no primeiro capítulo a relação entre Preferência Temporal e o Processo Civilizatório. Sucintamente: toda e qualquer civilização depende de indivíduos que preferem sacrificar seu bem-estar e conforto presentes por um bem maior no futuro (a essa capacidade, os economistas chamam de baixa preferência temporal).
Não se trata de preferência puramente material e utilitária, mas também espiritual. Praticamente todas as grandes religiões priorizam um bem maior futuro de longuíssimo prazo, no pós-morte — o Reino de Deus, o Jannah ou o Nirvana — como recompensa resultante do sacrifício que se faz no presente.
Claro que as condições socioeconômicas influenciam ou podem afetar drasticamente a capacidade individual de preferir o amanhã ao agora, como num cenário de hiperinflação ou de guerra, mas eu divago.
É pela altíssima preferência temporal (imediatismo, preferência pela satisfação imediata), que o Brasil é a nação dos velhos que morrem sem jamais concretizar ambições de juventude.
II – Como encontrar tempo?
Enquanto leitor, sempre encontrei desculpas para ler em qualquer lugar, a qualquer momento (um Kindle facilita muito). Isso, muitas vezes, me possibilitou passar das cem páginas diárias, sem “leitura dinâmica”, simplesmente pela frequência. Então, sempre que possível, largue o celular e vá ler. O número de páginas não é importante, mas a qualidade delas. Registrar seus hábitos num habit tracker também ajuda (serve para qualquer hábito ou rotina de longo prazo que requeira constância). Outra coisa que gosto de fazer, principalmente quando estou atarefado, é acordar cedo e ler por duas ou três horas ininterruptas.
Já enquanto escritor, hoje tenho muito mais estabilidade para simplesmente parar e escrever quando quero, mas nem sempre foi assim. Já escrevi inúmeros contos de aprendizado simplesmente quando dava, entre uma aula e outra da faculdade, ou entre audiências judiciais (urgh!). Um caso ainda mais extremo é o de Andrea Ferraz (sim, tenho amigos escritores contemporâneos, que escrevem bem, para o choque dos maniqueístas): a mulher escreveu livros maravilhosos no celular, como e quando podia, na fila do banco ou no carro, indo para o trabalho (não façam isso ao volante, pelo amor de Deus!). E continua com esse método até hoje. Um pouco caótico para meu gosto? Talvez, mas funciona para ela.
A desculpa de falta de tempo, no mais das vezes, é um subterfúgio para não nos olharmos no espelho e admitirmos que estamos desperdiçando o recurso mais precioso: nossa própria vida.
Por isso mesmo, já há alguns anos, disponibilizei uma palestra sobre Foco e Produtividade para meus alunos, ensinando a utilizar algumas ferramentas de gestão de tempo. Acontece que a produtividade (intelectual) não é algo mecânico, ou quantificável em termos de volume de produção, mas de maximização de resultado efetivo por unidade de tempo (lá vem a Economia outra vez). Ou seja: fazer coisas de mais qualidade em menos tempo, não necessariamente fazer mais. Isso, é claro, pode vir com uma série de procrastinações típicas de quem não tem o que mesurar objetivamente.
III – Sistema de Autofoco
Tá, mas e a ferramenta de produtividade que prometi? Quem me conhece, sabe que gosto muito de metodologias como Bullet Journal (BuJo) e praticamente tudo escrito pelo Cal Newport (essencial para qualquer intelectual moderno). Ultimamente, o meu BuJo tem sido mais bullet (points) e menos journal, o que me levou a pesquisar por novas metodologias. Para quem gosta de diários com reflexões, o BuJo continua imbatível, mas eu precisava de algo mais prático.
Foi quando me deparei com o “Sistema de Autofoco”, de Mark Forster, que é 99% à prova de erros (deixo 1% de margem por precisão científica). Ele equilibra o que você deve fazer com o que você quer fazer, reduzindo drasticamente a volição necessária para completar as tarefas (mas, para isso, por favor, não venha me colocar tarefas inúteis como “limpar o cocô do gato” para se sentir produtivo).
Como funciona?
Simples: 1) pegue um caderno e liste numa página todas as suas pendências, sem filtrar nem julgar, acrescentando o que surgir depois ao final da lista; 2) passe o olho rápido pelos itens, apenas refletindo; 3) marque com um ponto aquele em que quer trabalhar, não por ser o mais urgente, mas porque sente vontade de executá-lo; 4) trabalhe nele pelo tempo que conseguir. Ao terminar, risque-o; se não completou, reescreva-o no fim da lista.
Algumas regrinhas: você não muda de página enquanto algum item ainda chamar sua atenção. Só avance quando percorrer a folha inteira sem que nada se destaque. O que sobrar após algumas passagens — idealmente pouco —, grife com marca-texto e siga em frente. O marca-texto serve apenas para que você não esqueça aquela tarefa. Antes da próxima sessão, acrescente as novas tarefas, releia do primeiro item ativo até a última linha da última página e recomece o ciclo.
Dica de ouro: sempre utilize métricas quantificáveis e tangíveis. Ex: em vez de “ler Guerra e Paz” ou “escrever conto”, anote “ler 20 páginas de Guerra e Paz” ou “escrever por uma hora”, “revisar capítulo 5”, etc.
Como eu disse, esse sistema é realmente muito simples. Deixo no P.S. a lista de links para o manual original do Autofocus System e dos livros de produtividade do próprio Mark Forster.
Portanto, cuide bem do seu tempo, porque é disso que sua vida é feita.
P.S: Como prometido, cinco leitores vão sair daqui com o Crítico por R$79,90 (de R$125) ou o EFESC por R$179,90 (de R$250); basta clicar nos links. 28% e 36% de desconto, respectivamente. A oferta é válida por tempo limitado e apenas para quem estiver lendo isto (pode conferir nos sites, não estará lá depois). Considere-a um teste prático de preferência temporal; os outros vão continuar sem tempo.
P.S.S: Instruções do Sistema de Autofoco (português), Autofocus System (inglês), vídeo do Mark explicando o sistema e, por fim, o drive com os livros dele (em inglês, pois não encontrei traduções).
Este post foi escrito ao som de Vedrò con mio diletto, de Vivaldi.
Deixe um comentário