O franciscano no harém das quarentonas

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Senhorita, este catálogo é
o das belas que amou meu patrão;
um catálogo que eu mesmo fiz.
Observe-o, leia comigo.”

Leporello, em Don Giovanni

Se o Don Juan de Mozart conquista as mulheres mais velhas apenas pelo prazer de pô-las na lista, András Vajda o faz por puro amor. Aliás, é por aí que se encerram as semelhanças entre Don Giovanni e o protagonista de “Em Louvor das Mulheres Maduras: As Recordações Amorosas de András Vajda1”, de Stephen Vizinczey. Somente outro livro me causou tamanho assombro diante dos amores da juventude, tema tão difícil: “Primeiro Amor”, de Ivan Turguêniev, embora este seja de outra natureza, mais singela e cruel. As recordações amorosas de András datam do pré Segunda Guerra, na Hungria, passando pelo regime soviético e indo ao início dos anos 60 na América do Norte, no Canadá e EUA.  

Somos assombrados pela estranheza e sedução da palavra, o narrador nos guia por uma narrativa não linear, ao melhor estilo de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” ― um dos livros favoritos de Vizinczey. “Em Louvor das Mulheres Maduras” é um grande solilóquio, isto é: um longo discurso ilinear e ilógico, entrecortado por cenas e reflexões, mesclando o tempo cronológico com o psicológico nas memórias do narrador em primeira pessoa, que ora se perde em deliciosas digressões, ora nos dá pontadas agudas de reflexões filosóficas. Técnica, sem dúvida, complexa e perigosa por se aproximar do ensaio e da crônica. O autor que opta por este caminho deve ter total domínio poético e saber criar um monólogo artístico, e não puramente filosófico. E deverá fazê-lo nos emocionando através de metáforas e imagens, tendo pulso firme para não cair em filosofadas baratas, nem explicações gratuitas.

A princípio, o romance não me chamou atenção: imagens parcas e cenas aparentemente não muito desenvolvidas, embora interessantes e até bem escritas; porém, ao passar de algumas páginas, notei que o autor dominava a técnica.  Là ci darem la mano, là mi dirai di sì, e de pouco em pouco o leitor é seduzido. A narrativa mantém seu tom e estilo, o narrador nunca é intrometido demais ou antipático, mesmo tendo uma personalidade um pouco pretensiosa. O uso das cenas indiretas é abundante, dando velocidade e leveza à prosa. Na primeira página da narrativa propriamente dita, após a apresentação dispensável do narrador ― atenção, narrador, não autor ―, temos o primeiro jogo de cena-sobre-cena, onde marquei cada núcleo do movimento narrativo com um numeral:

[1] Nasci numa devota família Católica Romana, e passei grande parte de meus primeiros dez anos entre gentis monges franciscanos. [2] Meu pai era diretor de uma escola católica e um organista de igreja reconhecido, um ativo e talentoso jovem que também tinha a energia e inclinação para liderar a guarda local no distrito e participar da política. Apoiando o regime autoritário pró-clerical do Almirante Horthy, ele era o tipo de conservador que também era antifascista,[3] e, alarmado com a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, usou sua influência e autoridade para banir as reuniões do Partido Nazista da Hungria. [4] Em 1935, quando eu tinha dois anos de idade, ele foi esfaqueado até a morte por um adolescente nazista, escolhido por não ter dezoito anos e por não poder ser executado por assassinato. [5] Após o funeral, minha mãe fugiu do horror da perda indo para a cidade grande mais próxima, a primeira cidade milenar da Hungria, cujo nome não vou lhe atormentar lembrando. Ela alugou um amplo apartamento de segundo andar numa das ruas principais da cidade,[6] uma rua estreita com igrejas barrocas e lojas em voga, apenas a alguns minutos a pé do monastério franciscano que eu costumava visitar antes de ter idade para ir para a escola. [7] Os serviços de meu pai à Igreja e sua morte repentina, e o fato de que haviam muitos padres em ambos os lados de nossa família, me enterneceram aos monges franciscanos, e eu era sempre um convidado bem-vindo ao monastério.

Em 1 temos uma cena indireta, em 2 o narrador monta um perfil psicológico sobre cena, entre 3 e 5 temos novamente cenas indiretas, em 6 um breve cenário sobre cena, e novamente uma narrativa indireta em 7. Nisso se constitui o jogo de cena-sobre-cena desta abertura. A cena, devo lembrar, é a personagem somada a uma ação e a uma sequência (C = P + A + S); como definido por Raimundo Carrero, em “A Preparação do Escritor”. As técnicas sobre-cena são a justaposição de algo a uma cena. Se temos um cenário no meio de uma cena, trata-se de um cenário sobre cena, não de um cenário puro. Somadas às cenas indiretas, que já possuem um andamento rápido, as variações sobre-cena são ainda mais aceleradas.

Mas em que se constitui a cena indireta? A cena indireta não é nada mais do que o velho dizer. Aqui o leitor pode estar confuso: mas o correto não seria mostrar, não dizer? A princípio, sim, é preciso mostrar e não dizer, porém às vezes é preciso dizer para não mostrar detalhes enfadonhos. É saber o que, como e quando dizer, seguindo sempre a pulsação da narrativa. Transpondo para a linguagem cinematográfica, seria equivalente à cena de ângulo aberto (ou plano aberto, long shot), em que a câmera está distante do objeto retratado, de modo que este ocupa pouco espaço do campo de visão, ao contrário de um ângulo fechado (plano fechado, close-up), onde temos mais detalhes. Os objetos são mostrados, porém a câmera não enquadra diretamente em nenhum deles, nos dando uma visão geral.

Na abertura deste romance, temos o mínimo de informação necessária para que o leitor seja imerso no fluxo narrativo: não é como em escritores feito Dickens, Dostoiévski ou Balzac ― este último outra grande inspiração de Vizinczey ― que tentam explicar inúmeros contextos sociológicos, históricos, filosóficos e psicológicos das personagens antes de iniciar a narrativa. Duvida? Pegue o início de “Irmãos Karamázov” e constate que a história de verdade começa depois de umas cinquenta páginas. Aliás, é notável a quantidade de temas políticos sutilmente retratados ao longo de “Em Louvor das Mulheres Maduras”, temas que nunca são foco principal, apenas o pano de fundo de um palco minuciosamente montado para a atuação do Humano. A sutileza impera na prosa de Vizinczey: passamos por guerras e revoluções ― comunistas e do sexo ― entre inúmeros matizes da política e da alma humana. Um livro, como disse Northrop Frye em elogio à estreia do autor, “escrito com grande lucidez e charme… Uma sobreposição de sobretons”. Os temas são tratados com a frieza devida e, em momentos de pura sobriedade ― sobriedade é a palavra que melhor definirá este romance ―, temos uma cena como esta, que se segue à anterior, de grande lirismo e ternura, sem apelar ao sentimentalismo:

Eles [os monges franciscanos] me ensinaram a ler e a escrever, me contaram sobre a vida dos santos e dos grandes heróis da história húngara, contaram das cidades longínquas onde estudaram ― Roma, Paris, Viena ―, mas, acima de tudo, eles ouviam o que quer que eu quisesse dizer. Então, em vez de ter um pai, eu cresci com uma ordem inteira deles; tinham sempre um sorriso acolhedor e compreensivo para mim, e eu costumava andar pelos corredores frescos e largos do monastério como se fosse dono do lugar.

Barroco, cheio de inquietações na carne e no espírito, o jovem András Vajda sente desde criança os mistérios do sexo oposto, em especial o mundo das mulheres maduras, amigas de sua mãe, as quais ele observa com uma curiosidade mística. “Às vezes ainda penso que ser um monge franciscano num harém de mulheres de quarenta anos seria a melhor maneira de se viver”, declara o Vajda mais velho ao rememorar a infância. Vizinczey habilmente constrói relações entre a sexualidade ― não apenas o sexo como mero ato masturbatório a dois ― e outros temas. Basta saber que alguns dos títulos, dentre os dezoito capítulos, são: “Sobre fé e amabilidade”, “Sobre guerra e prostituição” ou “Sobre ser vão e desesperançoso no amor”.

Um desses temas que paira sobre e através da obra é a fragilidade dos laços humanos, tão bem descrita em “Amor Líquido”, de Zygmunt Bauman ― àqueles que torcerem o nariz ou revirarem os olhinhos à menção desse nome: tomem um chá de camomila. Não vemos mais o “De almas sinceras a união sincera / Nada há que impeça: amor não é amor / Se quando encontra obstáculos se altera / Ou se vacila ao mínimo temor” de que nos fala Shakespeare, a realidade é outra: nos tempos líquidos,  como bem observa Bauman, o homem pós moderno tem dificuldade em manter vínculos duradouros ― em outras palavras, responsabilidades. András, em suas aventuras e desventuras amorosas, aprende que não se aprende a amar como quem aprende a tocar piano ou falar uma nova língua: cada parceira é uma experiência encantadora, estranha e, no mais das vezes, imprevisível. 

Seja pela perda da noção transcendental do amor ― o impulso criativo da vida, que se dirige à geração e nascimento do belo, como nos lembra a profetisa Diotima no diálogo socrático ― seja por medo da solidão, a negação dessa transcendência, dessa responsabilidade inerentemente atrelada ao dom da vida, leva-nos a nos ilhar na mais profunda solidão. No capítulo “Sobre O Mortal Pecado Da Preguiça”, András divaga sobre como a masturbação é a manifestação máxima do pecado da preguiça somado à luxúria: negamos esse impulso criador, em busca da multiplicação da espécie, da quebra da solidão, e nos contentamos com uma autossatisfação fácil e barata. É uma revolução sexual, porém “do tipo mais solitário”.

Mais do que julgar, o narrador é um poeta-filósofo ― sim, András é um poeta e um estudante de filosofia, posteriormente professor ― que tenta entender o mundo, situações e circunstâncias que vivenciou:

Rejeitamos a moralidade religiosa deles porque ela colocava o homem contra seus próprios instintos, pesava sobre ele com um fardo de culpa pelos pecados que, na realidade, eram apenas o trabalho de leis naturais. Ainda assim, nos redimimos perante a criação: pensamos em nós mesmos como falhas ao invés de renunciarmos à nossa crença na possibilidade da perfeição. Nos agarramos à esperança do amor eterno ao negar até mesmo sua validade temporária.

Esse tipo de reflexão é sempre acompanhada, ao longo da narrativa, de um humor sutil que contrapõe a seriedade filosófica, como neste perfil físico de outro trecho:

Boby tinha trinta e quatro anos e era maravilhosa de se contemplar, especialmente em seu biquíni azul; possuía seios tão salientes e uma bunda tão empinada que geralmente eu sentia vontade de arrancá-los e levá-los para casa.”

Que homem nunca teve tal sentimento diante da manifestação da beleza feminina? Um perfil físico simples, lírico e sem exageros. A sobriedade é o elemento faz com que “Em louvor das Mulheres Maduras” não caia na pornografia, a exemplo dos problemas que já apontei sobre Charles Bukowski. Há outras descrições mais sensuais que deixo de fora desta análise para não me estender mais do que o necessário, e não por pudor ― afinal, a única nudez realmente comprometedora é a da mulher sem quadris, já dizia Nelson Rodrigues. Uma das cenas mais comoventes do romance é quando descobrimos que a dona dessa sensualidade era uma judia sobrevivente de Auschwitz, oito anos antes. Após algum tempo, temos uma digressão na voz de Boby, que conta ao amante o que lhe aconteceu, e, mais uma vez, Vizinczey introduz com classe e muita leveza uma mudança de tema drástica, os sobretons elogiados por Frye. Ficamos tão chocados quanto o narrador:

Ela havia chegado antes de mim e estava pela piscina, no biquini azul, seus cabelos loiros mais pálidos que o sol de inverno reluzindo pelo domo de vidro congelado. Estranhos a encaravam e conhecidos a cumprimentavam com reverentes olás. […] Sugeri que nos deitássemos de bruços, nossos braços dobrados, cotovelo com cotovelo. Não sei como não notei antes: havia um longo número tatuado no antebraço dela. Deve ter visto meus olhos arregalarem, pois respondeu antes que eu pudesse lhe perguntar qualquer coisa.

Não sabia? Não sou uma intelectual, então adivinho que é bastante difícil dizer que sou judia.

Não consigo nem imaginar você vivendo num campo de concentração.

Auschwitz; cento e vinte e sete dias e quatro horas.

Vizinczey domina o contraponto com perfeição, tornando o romance um jogo de antíteses e contrastes ainda mais barroco, sem nunca ser simplista. Por exemplo, a dualidade entre masculino e feminino permeia a obra desde o início, e a profundidade dos relacionamentos de András se liquefaz a cada nova amante, nas quais encontrará uma conexão diferente, porém menos profunda que com a anterior. Sua primeira amante de carne e espírito é Maya, vizinha de prédio, que lhe ensina os mistérios gloriosos e dolorosos do sexo. Testemunhamos a multiplicidade de sentidos assumidos pela palavra amor nos tempos pós-modernos, e de sua inevitável diluição, situação explicitada por Maya num breve diálogo com András, onde ela lhe diz: “você aprenderá que o amor raramente dura e que é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo”. Se isto é falso ou verdadeiro, é fora do ponto desta análise; porém conseguimos ver muito bem as consequências morais deste postulado. Seria uma especulação plausível dizer que o nome Maya está atrelado à filosofia hindu, significando “a ilusão do mundo físico”, ou “a irrealidade dos fenômenos”. Boa metáfora para uma personagem de inevitável transitoriedade.

Também é Maya a musa que incentiva o poeta András a apreciar a Grande Literatura ao emprestar-lhe clássicos, que servem de pretexto para as visitas do jovem amante. A título de curiosidade, é interessante ser uma figura feminina a apresentar a beleza artística ao personagem, pois sempre enxerguei a fruição da arte como uma atividade que requer majoritariamente ― não exclusivamente ― um alinhamento com o lado feminino da existência, isto é: estar de coração aberto ao sentimento transmitido pelo artista, com uma certa ingenuidade; já a criação artística requer disciplina militar, um traço caracteristicamente masculino, severo. Da perspectiva criativa, a compreensão e concepção de toda a Grande Arte reside em saber alternar entre esses dois polos quando necessário: o artista não pode ser compassivo com a própria obra do mesmo modo que uma mãe acolhe o filho no seio; nem pode ele ser excessivamente rígido ao apreciar trabalhos alheios, impondo irrefletidamente a própria maneira de lidar com o ofício. O mesmo se dá em outras áreas da vida, tanto homens quanto mulheres precisam alterar seus estados psicológicos ao exercerem esta ou aquela atividade, mas isto está fora desta investigação. O que desejo expor é que esta dualidade ― masculino-feminino, ying-yang, luz-sombra ―  é crucial para a compreensão de “Em Louvor das Mulheres Maduras”.

O feminino é sempre retratado como aquela força que arrasta os homens feito as tempestades; uma beleza brutal. Da virgem à mãe, da casta à adúltera, da frígida à cálida, temos um amplo mural do feminino, todo um lado sensível e volúvel do coração. Vida e morte estão presentes em um nível oculto: o sexo como o impulso para aquelas belas criaturas com as quais desejamos procriar, os orgasmos como a petite mort, a união e a separação dos corpos, o flerte e o término; energia feminina como aquela que demanda e a masculina como a que provê. András é o masculino, o engenho e o viço diante da calma impassível da mulher madura, oceano adormecido que já consolidou as potências das marés revoltas de outrora. Na falta da figura paterna, assassinada pelos nazistas, András se inspira em outras figuras masculinas que aparecem ao longo da narrativa: os padres, um oficial americano durante a ocupação da Áustria, o marido de sua primeira amante, uma amigo que conquistou uma mulher de maneira inusitada, os heróis e mártires históricos da Hungria ― estes últimos, talvez, juntos à alguma lembrança nacionalista paterna, o inspiraram a pegar em armas contra a tirania soviética, durante uma revolta fracassada que resultou na morte ou exílio de muitos húngaros que combateram o regime comunista. 

Nos é relatada uma vida da infância ao início da decadência corporal: presenciamos do amor inocente de uma criança às primeiras investidas sexuais e descobertas adolescentes, do auge do vigor à primeira disfunção erétil ― que, curiosamente, ocorre numa inversão de polos entre energia masculina e feminina. Este acontecimento simbólico encerra o livro e marca o fim da juventude, dando início às aventuras de um homem de meia-idade.  Porém, esta, como diz o narrador, é outra história. Nos resta apenas o louvor às mulheres maduras.

  1. Os excertos de “In Praise of Older Women: The Amorous Recollections of András Vajda” utilizados neste ensaio foram traduzidos por mim, a partir da edição original inglesa revisada pelo autor. ↩︎

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