Numa daquelas noites cálidas de Asunción, no auge da canícula de janeiro, quando não se move uma folha nas árvores, ouvi da boca dum brasileiro também expatriado:
─ Não leio ficção. Histórias inventadas. Perda de tempo.
Sempre me espanto, senão com a indelicadeza ─ pois era sabido que eu era romancista ─, com o desprezo do brasileiro pela literatura. Sentimento plenamente justificável se estivéssemos falando dos best-sellers que invadiram e povoaram as estantes de nossas livrarias; estórias para fazer boi dormir. Não era o caso: naquela mesa, eu havia recomendado a leitura de Guerra do Fim do Mundo, pois meu interlocutor baiano se dizia admirador de Canudos.
Mais cedo, nesse mesmo dia, outra brasileira me perguntou o que eu fazia da vida. E lhe respondi como quem diz as horas:
─ Sou escritor.
E acrescentei brevemente que também cuidava de alguns investimentos familiares em paralelo ─ era um encontro de negócios —, ao que a burguesa respondeu:
─ Ah, então você escreve nas horas vagas.
─ Não, é precisamente o contrário: sou escritor em tempo integral e, quando sobra tempo, cuido do resto.
Seu sorriso se desfez naquela expressão muda dos idiotas que notam ter dito uma grande asneira. Saí daquele encontro de negócios lembrando das palavras de meu pai: não vá, é perda de tempo, nesse tipo de coisa, só há lisos tentando tirar dinheiro de quem tem. Ele estava mais do que certo, embora eu não tenha dado o braço a torcer.
Quando recordo a imagem tristíssima daquela noite em que estive pela última vez em meu Recife, noite em que deixei para trás tantas coisas queridas, lembro-me do luar prateado no Capibaribe e no mar, dos espectros noturnos que eram as árvores no mangue, do vento morno que trazia consigo as reminiscências da infância que passei naquela rua, Rua da Aurora, onde caminham ainda em minha memória ossos de meus mortos. Do alto daquele apartamento onde vivia, em meio a tantas dúvidas inquietas, dei por falta de meus livros nas estantes vazias; minha esposa e eu tivemos de nos desfazer de um terço de nossa biblioteca. O restante encaixotamos, e não os veríamos por muitos meses, até que chegassem a nossa destinação final (a qual nem nós sabíamos ao certo).
Lembro-me ainda, alguns dias antes, da resposta do alfarrabista quando lhe ofereci ─ a um preço mais do que simbólico ─ meia dúzia de caixas abarrotadas de livros da melhor qualidade: diga-me a hora em que posso passar para escolher o que quero.
Não me dignei a responder. Era o acervo de um escritor e de uma economista, com títulos selecionados a dedo, que bem poderiam ir para o acervo de qualquer universidade. Lembrei-me da biblioteca de Fernando Freyre ─ filho de Gilberto ─, com mais de 10 mil volumes, que precisou ser doada para a Biblioteca Nacional de Cabo Verde, antes que as traças a consumissem, porque nenhuma instituição brasileira a quis.
Doei aqueles livros à paróquia da Rua Capitão Lima, cujo padre é meu amigo de longa data, para que os vendesse num bazar beneficente; e assim fiz também com panelas, louças, roupas e tudo o que não podia levar na viagem. Partimos com duas malas e o gato, para uma terra da qual eu só conhecia algumas nostálgicas composições de Mangoré e a história de uma maldita guerra. Hoje, dois anos depois, não retornei à minha terra natal, nem sei se quero. Dizem que quando se ama um lugar, e é preciso partir, não se deve voltar mais. Talvez seja verdade.
As condições daquela partida pareceram abruptas para muitos, mas, para um escritor como eu, a liberdade é sagrada, então decidimos ir para um lugar mais livre. Não apenas econômica ou juridicamente, mas espiritualmente, pois o Brasil tem uma gravidade depressiva cósmica de mil buracos negros.
Meses depois, atravessei a fronteira para buscar meus livros em Foz do Iguaçu, na agência da Gol Linhas Aéreas, única que oferecia o frete a preço razoável para aqueles vinte e quatro caixas numeradas com marcador permanente. Quando as vi, ali no depósito, jogadas no canto, quase destroçadas e com marcas de chutes, pancadas, umidade e tudo o mais a que livros jamais deveriam se submeter, só agradeci a Deus por ter comprado do papelão mais resistente. Os livros chegaram quase todos intactos. Assinei os papéis que me pediram a contragosto e carreguei o caminhão. García Márquez estava certo: “o mundo terá acabado de se foder quando os homens viajarem de primeira classe e a literatura no vagão de carga.”
Na Ponte da Amizade, os fiscais da aduana paraguaia me interrogaram, perguntaram se não iria vender aquilo — pois nunca haviam visto tantos livros —, abriram os exemplares, folhearam, riram, cochichavam ora em espanhol, ora em guarani, por fim me deixaram passar.
E de volta àquela canícula de Asunción, olhando o Palácio dos Lopez, os casarios coloniais hispânicos e o Rio Paraguai que fluía lento sob as reverberações diáfanas do sol naquele céu azul, lembrei-me de todas as vezes que disse ser escritor a um paraguaio, argentino ou espanhol. Naturalmente, achando minha personalidade no mínimo instigante, me perguntavam:
─ Mas você tem livros traduzidos que eu possa ler?
A resposta infelizmente sempre foi negativa, mas costumo emendar logo uma conversa sobre livros. E assim meus interlocutores saem com uma lista de leitura. Talvez um dia eu financie uma tradução dos meus trabalhos, porque, no Brasil, se o autor não cuida de sua obra, ninguém mais cuidará, nem mesmo os editores. Estes, aliás, pensam que estão fazendo um favor ao publicar um escritor, não cumprindo um dever. É preciso sempre muita energia concentrada para fazer o mínimo que seja; ainda assim, nada é garantia de sucesso num país que odeia os livros.
Este texto foi escrito ao som de Prelúdio em Dó Menor, de Barrios Mangoré.
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